sábado, 17 de setembro de 2016

Eleições legislativas na Rússia: que futuro para Vladimir Putin?

1- No próximo dia 18 de Setembro, realizam-se as eleições legislativas na Rússia. Este vai ser o primeiro teste à liderança russa, mais concretamente ao partido “Rússia Unida”, que apoia o Presidente Vladimir Putin, desde a nova vaga de tensão com o Ocidente iniciada com a crise na Ucrânia e agravada, entre outros, pela situação na Síria e por incidentes militares com a NATO.
2- Desde então, não obstante a aplicação de sanções retaliatórias ao bloco ocidental, a economia russa ressentiu-se significativamente, não apenas com a desvalorização apreciável do rublo, mas também com o aumento da inflação e a queda dos preços do petróleo. Dado o prolongamento do statu quo, Vladimir Putin tem apostado num conjunto de iniciativas diplomáticas que permitam à Rússia estreitar novas parcerias económicas, aproximando-se de países como a China e reforçando os eixos de cooperação com o Irão.
3- Ainda com o objectivo de inverter a actual conjuntura e de molde a equilibrar a actual dependência do sector energético, o Chefe do Estado russo tem tomado iniciativas com vista a diversificar a economia através, por exemplo, de medidas de incentivo à agricultura que garantam a auto-suficiência alimentar do país. Não menos importante foi o facto de, a 25 de Julho passado, Vladimir Putin ter incumbido o Stolypin Club, um dos três grupos do Conselho Económico, da missão de preparar um conjunto de reformas económicas de fundo.
4- Ao conferir este mandato ao grupo que integra Boris Titov e Sergei Glazyev, personalidades influentes e experientes nas pastas ucraniana e chinesa, Putin demarca-se dos conservadores, da Governadora do Banco Central Elvira Nabiullina, e dos neoliberais, liderados pelo ex-Ministro das Finanças Alexei Kudrin, assumindo como solução o papel intervencionista do Estado enquanto motor da economia nacional.
5- Na prática, o conjunto de propostas a apresentar pelo Stolypin Club terá sensivelmente dois anos, até às eleições Presidenciais de 2018, para apresentar resultados e transformar a periclitante economia russa, libertando Vladimir Putin para funções de política externa que atenuem a actual pressão sobre a Rússia e continuem a afirmar Moscovo como potência emergente no quadro geopolítico mundial. Desta forma, pretende o Presidente russo dar continuidade ao processo de recuperação do orgulho nacional russo, que tem saído reforçado em episódios pontuais, como as acções na Crimeia e na Síria.
6- Aliás, é exactamente o ressuscitar desse orgulho nacional que se assume como um dos factores que contribuíram para índices de popularidade de Vladimir Putin em torno dos 90%. E será também esse o factor que ainda garante ao Presidente russo 77,4% de taxa de aprovação, no final do passado mês de Agosto, segundo a sondagem realizada pelo Centro de Investigação e Opinião Pública (VCIOM).
7- Todavia, não pode ser ignorado o impacto que o retardamento do processo de recuperação económica tem provocado junto de uma população que começa a revelar sinais de impaciência e saturação e que se manifesta na crescente queda de apoio popular ao seu Presidente. Outro sinal evidente desta inquietação é visível nas sondagens também realizadas pelo VCIOM, admitindo-se um cenário de possível perda da maioria absoluta do “Rússia Unida” e a ascensão inédita do “Partido Liberal Democrático da Rússia”, movimento político de extrema-direita, a segunda força política, superando o Partido Comunista Russo, o principal partido da oposição.
8- O crescimento do partido de Vladimir Zhirinovsky não é inocente, tendo como base o populismo e o anúncio de uma agenda nacionalista com laivos imperialistas que promete devolver à Rússia o prestígio e o poder conseguidos até ao final do século XIX, através dos quais recuperará (também) a economia do país. Embora na Rússia prevaleça o presidencialismo, não pode ser ignorada a importância da Duma no domínio legislativo e na forma como o Governo pode ser responsável perante uma Câmara na qual o partido dominante e até o Presidente arriscam tornar-se reféns de uma extrema-direita em fase ascendente e capaz de formar coligações de conveniência com o objectivo de condicionar a política interna.
9- Assim, importará perceber até que ponto as alterações introduzidas, em 2014, à lei eleitoral – no sentido de aproximar o sistema eleitoral russo do sistema alemão, ao passar para um sistema misto equilibrado no qual os 450 mandatos disponíveis são divididos entre listas sujeitas ao sistema proporcional e a representação maioritária de candidaturas únicas independentes – influenciarão o futuro quadro parlamentar russo e disfarcem a pressão da extrema-direita, garantindo, apesar de tudo, uma maioria favorável aos interesses do “Rússia Unida”, num cenário que, por mais favorável que seja, manterá sempre Vladimir Putin em alerta até 2018.

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