quarta-feira, 15 de junho de 2016

Massacre de Orlando: "lobo solitário", negligência policial ou terrorismo consentido/direccionado?

O massacre de Orlando tem aumentado as dúvidas relativamente aos contornos (i) do que aconteceu, (ii) como aconteceu, (iii) porque aconteceu e (iv) por quem aconteceu.

Começando pelo primeiro ponto (o que aconteceu):
1- Uma pessoa sozinha conseguiu entrar num espaço de diversão nocturna munido de armas e munições sem qualquer tipo de oposição?
2- Uma vez no espaço, conseguiu abater cerca de 50 pessoas sem que ninguém esboçasse reacção ou tentativa de deter o indivíduo? Apenas se deixaram massacrar ou fingiram estar mortos?


Segundo ponto (como aconteceu):
1- Contou com ajuda de alguém ou actuou por conta própria?
2- Não há imagens de câmaras de vigilância ou captadas por telemóvel? Será que a única informação disponível é a troca de mensagens entre uma das vítimas e a sua mãe?


Terceiro ponto (porque aconteceu):
1- Que motivações justificaram a acção do(s) autor(es) material? Extremismo religioso? Recusa em aceitar a sua possível orientação sexual? Homofobia? Renegação pela sociedade? Depressão? Vários destes? Outra razão?
2- Estaremos perante terrorismo puro, um crime de ódio ou um crime de homicídio em massa justificado por outro factor?


Quarto ponto (por quem aconteceu):
1- Terá o aparente autor material actuado isoladamente ou contou com a ajuda de terceiros?
2- Terá sido instigado por alguém?


Porque são determinantes as respostas a estas perguntas?
1- Para perceber se estamos perante o caso de um "lobo solitário", enquanto pessoa que se auto-radicaliza e, sem precisar de estar em contacto ou receber treino de uma organização terrorista, comete um atentado.
2- Não deixa de ser curioso que, os atentados de Paris (de Janeiro e Novembro de 2015), os de Bruxelas e este de Orlando têm todos um ponto em comum: foram cometidos por indivíduos mais que referenciados pelas autoridades, autoridades estas que, por diferentes razões, acabaram por entender sempre que os visados não constituíam uma ameaça, mesmo apesar dos comportamentos claros grosseiros evidenciados pelos autores dos ataques.
3- Assim, estamos perante situações de mera negligência, de real impossibilidade em fazer melhor ou de um laxismo consciente mais tarde aproveitado em favor de determinadas bandeiras sociais e da supressão de direitos e do reforço dos poderes das forças de segurança face ao cidadão comum após o dano estar consumado? É que uma coisa são os imprevisíveis "lobos solitários" e outra completamente diferente são os indivíduos referenciados e até vigiados que, após essa identificação e acompanhamento, se apetrecham e agravam descaradamente os seus comportamentos sem qualquer tipo de oposição.
4- Não querendo afirmar rigorosamente nada ou apontar para uma qualquer resposta – mas querendo, apenas, lançar tópicos para reflexão –, não posso deixar de recordar a já velhinha e esquecida “Operation Northwoods”, orquestrada por chefias militares norte-americanas, na década de 1960, e que visava a morte de pessoas inocentes e a execução de atentados terroristas nos próprios EUA para desencadear e facilitar o apoio popular a uma guerra a travar com Cuba.
5- E, aqui, não posso deixar de pensar nos grupos sociais visados com os atentados dos últimos 18 meses: jornalistas (como símbolo da liberdade de expressão e dos valores democráticos), judeus e homossexuais, na qualidade de vítimas, juntamente com situações que atingem qualquer cidadão comum: eventos desportivos, locais de diversão e transportes.
6- Aliás, a referência aos transportes não deixa de ser curiosa. A impopular Directiva PNR (Passenger Name Record) conseguiu finalmente passar no Parlamento Europeu, após os ataques de Paris e Bruxelas e depois de anos a ser rejeitada por violação de direitos e liberdades pessoais.
7- Igualmente curioso é o facto de os atentados de Paris (Janeiro de 2015) que incidiram sobre judeus terem resultado na atribuição de direitos especiais, em França, aos que integram este grupo religioso e à própria agenda israelita, após um período de maior tensão em que se intensificavam as críticas ao Governo de Telavive – e não posso deixar de recordar como após estes acontecimentos Benjamin Netanyahu venceu as eleições de forma categórica depois de uma campanha dedicada ao medo.
8- Também não posso esquecer que desde os atentados de Novembro, em Paris, a França entrou num estado de emergência que comprometeu a realização de acções de protesto antes da Cimeira do Clima de Paris e acabou por estender esse estado de emergência para o Euro’2016, impedindo a realização de certas manifestações e acções de protesto. Também interessante é constatar que a França encontrou nos atentados de Novembro uma justificação objectiva para suspender os acordos de Schengen… quando antes dos mesmos já tinha avançado com controlos fronteiriços derivado à “ameaça terrorista e risco para a ordem pública”.
9- Relativamente a Orlando, além da discussão (ainda que leve) em torno das armas, não nos podemos esquecer que dentro de cinco meses teremos eleições nos EUA e o fim de uma era (Obama) para início de outra (Hillary Clinton ou Donald Trump). Às vezes, acontecimentos como os de Orlando só inspiram a um início de mandato em cheio e pleno de legitimidade para que um Chefe de Estado faça “o que tem de ser feito” para reprimir uma ameaça. E não posso deixar de referir que à medida que vão acontecendo estes eventos mais vou ouvindo, um pouco por toda a parte, pelo cidadão comum, frases como “é matá-los a todos”, “tem de se bombardear aquilo tudo”, sem apelo nem agravo. A saturação das pessoas face ao terrorismo é evidente e cada vez estão mais dispostas a tudo, mesmo a sacrificar os seus direitos pessoais, independentemente de existirem razões para isso.


Como disse, longe de mim afirmar que estamos perante uma acção concertada ou combinada. Tudo isto pode, de facto, ser mera coincidência e eu não quero forçar uma interpretação dos factos. Mas a verdade é que começam a ser coincidências a mais e os factos estão todos interligados. E convém não esquecer que a ficção às vezes é mesmo superada pela realidade e temos antecedentes (como a “Operação Northwoods” que referi) que atestam que, quando há vontade, os cenários mais improváveis e a teoria da conspiração acontecem, exactamente por ninguém acreditar neles.

Neste momento só gostaria de obter respostas e, de momento, basta-me uma à seguinte pergunta: como é possível indivíduos referenciados conseguirem aceder a armamento (na Europa e nos EUA), relacionar-se com pessoas com potencial de perigosidade e organizarem e cometer ataques contra terceiros sem qualquer tipo de oposição?


“O essencial é invisível aos olhos”, Antoine de Saint-Exupéry

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