terça-feira, 7 de junho de 2016

Do espião português detido em Roma

Após as mais recentes notícias terem sido publicadas sobre o assunto, importa dizer que a espionagem é a segunda profissão mais antiga do mundo e, por vezes, chega a cruzar-se com a mais antiga de todas.

Quer isto dizer que desde sempre que meio mundo espia meio mundo, o que inclui Serviços de Informações (aka "serviços secretos") a espiarem o que fazem outros Serviços de Informações. Isto faz-se em qualquer lado do mundo, incluindo em Portugal.

E quer isto dizer que, conforme se pode retirar desta notícia, andavam Serviços de Informações estrangeiros a espiar outros (provavelmente os norte-americanos de olho nos russos) quando se poderão ter cruzado com o que agora levou à detenção de um português.

No contexto de "guerra fria" que vivemos actualmente, calha sempre bem uma narrativa romanceada com espionagem para queimar o próximo e envolver ingénuos (embora culpados) pelo meio - o interesse em espiar o próximo vem exactamente da necessidade de lhe apanhar fragilidades que possam ser exploradas contra o adversário.

Agora, os Serviços de Informações portugueses parecem querer ficar com os louros dizendo que o Oficial português detido já estava "sinalizado" desde há duas décadas por "comportamentos suspeitos". A verdade é que, se realmente havia essa suspeita, porque raio nunca agiram em conformidade e ainda lhe terão permitido o acesso a informação classificada? Just another day in the office... dos SI portugueses.

Não há mérito dos Serviços de Informações portugueses, já que só tiveram conhecimento do que se passava através de Serviços "aliados"!

A haver algum mérito relativamente a entidades portuguesas, é da Polícia Judiciária, pela forma como soube persistir e reagir prontamente à evolução dos acontecimentos.

Insisto ainda no facto de tudo isto só ter sido possível porque um Serviço de Informações ocidental (muito provavelmente dos EUA) desenvolvia (também) operações ilegais em território alheio. Ou alguém acredita que as alegadas fotografias obtidas em Ljubljana foram conseguidas por acidente num momento em que um turista ocidental - que, coincidentemente, até é funcionário de um Serviço de Informações do seu país - estava a fotografar a Cidade Velha da capital eslovena e ao partilhá-las no Facebook um dos seus colegas reconheceu pessoas que, por acaso, estavam na imagem?

Não desviemos as atenções do essencial: anda meio mundo a espiar meio mundo e a espiar tudo o que puder, na maior parte dos casos sem autorização das autoridades do território onde desenvolvem estas operações. Cometem crimes, portanto. Ninguém pensa em regular ou intervir nesta matéria e até se usa prova resultante de acções à margem da lei. Pena é que estes crimes sejam consentidos quando falamos de "serviços amigos". Como sabemos, a amizade a este nível tem muito que se lhe diga...

Mas o que eu gostava mesmo de saber era o que pretendia fazer o Secretário-Geral do SIRP caso o processo fosse mesmo arquivado. Iria exonerar o visado por "conveniência de serviço" ou iria promovê-lo, chutando-o para um qualquer cargo dentro da estrutura ou até mesmo de representação no estrangeiro... como já se fez com outros, incluindo envolvidos em processos crime?

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