quarta-feira, 16 de março de 2016

O que se passa no Brasil?

Tenho andado a evitar falar sobre a situação política e social no Brasil por ter amigos nos dois lados da barricada e não querer provocar animosidades. Mas, não resisto.

Acho que temos de dividir o que se passa no Brasil em duas situações distintas: a questão social e a questão política. As duas cruzam-se a um determinado ponto, mas não devem ser confundidas.

Começando pela questão política, só alguém que passou os últimos 30 anos em Melmac consegue acreditar que "corrupção é coisa do PT". Também é, mas não é um exclusivo do PT, (in)felizmente. Há muitos anos que o regime político brasileiro não é nem ditadura, nem democracia: é uma cleptocracia. E isto está bem vincado em PT, PSDB, PSB, Partido Verde, etc e ao nível nacional, regional e local e vai da Polícia Militar ao simples professor de escola que favorece um aluno por ser filho de um amigo.

Não é novidade para ninguém o famoso "jeitinho brasileiro" que todos têm na forma de fazer o Estado e a sociedade funcionarem: a informalidade, a chico-espertice para querer estar um passo à frente ou obter uma vantagem do próximo.

Os partidos políticos querem chegar ao poder porque é a forma de quererem meter mais ao bolso e sugar tudo o que for possível enquanto Deus lhe der forças e o povo lhe der votos, seja de que partido for. Isto existe! Não é um exclusivo do PT, nem será do próximo partido que vier! Não há ciência nenhuma aqui, nem é preciso ter um Doutoramento em Física Quântica para reconhecer as evidências.

O que as manifestações recentes estão a querer fazer é obter uma vitória administrativa em algo que não se conseguiu nas urnas. Numa democracia, o povo manifesta-se, no final do mandato, se gostou do que viu - por maior que seja a pouca-vergonha - ou se está insatisfeito e quer mudar. Numa ditadura, o povo come e cala até que o ditador decida mudar alguma coisa. Na cleptocracia, valem todas as artimanhas e esquemas possíveis para se contornar o que impede alguém de aceder ao poder. Roubar é mau, mas só quando não sou eu a fazê-lo.

Por mais que seja a capacidade criativa, depôr um poder político eleito democraticamente através dos mais variados esquemas é feio e é cobarde. Mas não é mais bonito alguém saber que roubou, foi apanhado e fazer de tudo para não ir preso. O que o PT está a fazer para garantir a imunidade a Lula da Silva é perder a razão e a legitimidade para governar: está a proteger um dos seus em vez de proteger o interesse público (por maior que seja o golpe de que se é alvo), que devia ser deixar a justiça mostrar o que vale - seja ela limpa ou não.

Se Lula tiver de ser sacrificado, o PT deve deixá-lo cair, nem que seja para utilizar o seu martírio a favor da dignidade do partido: dar o exemplo e mostrar que o sujeito não está acima do partido e menos ainda do país. Coisa que esta fantochada de integrar Lula no Governo não está a fazer. O PT está a perder a pouca vergonha na cara que ainda poderia ter e corre o risco de sair pela porta pequena. É indecente, está a transformar a política numa novela das 6 e dá razão ao adversário.

Relativamente à tensão social evidente no Brasil e que parece aumentar um fosso entre ricos e pobres, remeto a minha opinião sobre o assunto para o que George Orwell escreveu em "1984". Acho que diz tudo:

"Desde que há documentos escritos, e, provavelmente, desde o fim do Neolítico, existem no mundo três categorias de pessoas: a Alta, a Média e a Baixa.
Os objectivos destes três grupos são absolutamente inconciliáveis. O objectivo da classe Alta consiste em permanecer onde está; o objectivo da Média, em trocar de posição com a Alta. O objectivo da classe Baixa, quando algum objectivo tem - pois a característica persistente da classe Baixa resume-se a ser de tal modo oprimida pela dureza do trabalho, que só de vez em quando toma consciência daquilo que é exterior à sua vida quotidiana -, consiste em abolir todas as distinções criando uma sociedade onde todos os homens sejam iguais. E assim, ao longo da História, se repete vezes sem conta uma luta, nas suas grandes linhas, sempre a mesma.
Passam-se longos períodos em que a classe Alta se julga firme no poder, surgindo logo um momento em que os seus elementos perdem a confiança uns nos outros, ou a capacidade de governar com eficiência, ou ambas as coisas. São então destronados pela classe Média, que, no seu fingimento de estar a empreender a luta pela liberdade e pela justiça, consegue o apoio da Baixa. Mas mal atinge os seus objectivos, a classe Média volta a empurrar a Baixa para a antiga servidão, e converte-se ela própria em Alta. Ao fim de algum tempo, nova classe Média se formou, a partir de um dos outros grupos, ou de ambos, e tudo recomeça.

Das três categorias, só a Baixa nunca consegue, ainda que temporariamente, atingir os seus objectivos. Seria exagero dizer que ao longo da História não tenha havido certo progresso material. Mesmo hoje em dia, no actual período de declínio, o ser humano vive, em média, materialmente melhor do que vivia há alguns séculos. Mas nenhum acréscimo de riqueza, nenhum abrandamento dos costumes, nenhuma reforma ou revolução fizeram recuar um milímetro sequer a desigualdade humana. Do ponto de vista da classe Baixa, as mudanças histórias pouco mais representam do que a mudança de nome dos chefes."

Sem comentários: