quarta-feira, 30 de março de 2016

Da'esh reivindica atentado no Daguestão

O Da'esh reivindicou um atentado ocorrido ontem, na Rússia, mais concretamente na região do Daguestão, onde carros armadilhados terão provocado, pelo menos, uma morte.

O terrorismo no Daguestão não é surpresa para ninguém, sendo daqui que decorre a maior ameaça em solo russo, merecendo a preocupação de Moscovo pelo crescente extremismo com inspiração islâmica.

Em traços gerais, acaba por ser uma região que remete para o Afeganistão sob domínio talibã:
1- Geograficamente, é uma zona montanhosa e faz fronteira com outra região igualmente conhecida pelo terrorismo, a Chechénia;
2- Socialmente, apresenta diversidade étnica e cultural, mas o Islão domina uma região com cerca de 2,5 milhões de habitantes.

O problema do Daguestão é que o Islão professado pela maioria da população é de origem sunita, mais concretamente o wahabita, que é a mesma escola da Arábia Saudita (interpretação literal e aplicação directa da lei islâmica) e uma das correntes que inspiram o salafismo de grupos como a Al-Qaeda ou mesmo o Da'esh (não existe mais nenhuma corrente verdadeiramente islâmica como a que remonta aos tempos do profeta e do início da religião).

Os conflitos entre os vizinhos da Chechénia e as autoridades russas acabam por servir de motivação para o combate à Rússia, vendo-se Moscovo como o invasor que ocupa e oprime a comunidade muçulmana de um território onde alguns pretendem criar um Estado islâmico.

Independentemente da credibilidade (ou falta dela) que tal pensamento possa ter, é interessante ver como a perspectiva de "o invasor que ocupa e oprime os muçulmanos" está praticamente sempre por trás da emergência dos fundamentalismos que se vêem forçados a vincar-se e a ser cada vez mais radicais como forma de se afastarem do "inimigo" e garantirem o apoio popular de uma comunidade que tende a identificar-se com aqueles que alegam ser os defensores do povo.

O apoio saudita com vista à wahabização do Daguestão é evidente - não é surpresa para ninguém este papel desestabilizador da Arábia Saudita - e a alegada autoria do Da'esh no atentado de ontem (ao qual ainda não vi referência nos média portugueses) merece preocupação, já que não seria anormal se os extremistas do Daguestão seguissem o modelo de grupos armados tradicionais que perfilham valores e ideais islâmicos: aproximação e promessa de alianças bem como a promoção da imagem do grupo jihadista central (a Al-Qaeda ou o Da'esh) em troca de financiamento, armamento e treino do grupo que opera no território.


A ameaça do Da'esh deve ser levada muito a sério pelas autoridades russas, já que é possível que os extremistas do Daguestão possam ser instrumentalizados como forma de atingir outras cidades e interesses russos, o que poderá ser conseguido, também, através de sinergias com outros grupos de crime organizado e outras entidades oriundas de antigas repúblicas da URSS. Aqui, convém recordar que ainda hoje Moscovo anunciou ter detido cerca de 20 elementos oriundos do Uzbequistão que, com documentos turcos falsificados, recrutavam combatentes para o Da'esh.

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