terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Análise às eleições presidenciais nos EUA (2016)

Depois do Iowa, realizam-se hoje as eleições primárias para a Presidência dos EUA em New Hampshire.

O primeiro escrutínio foi relativamente surpreendente, mantendo-se fiel ao historial do Iowa em primárias, senão vejamos:
1- Quando era expectável uma vitória de Hillary Clinton, Bernie Sanders garantiu um empate de facto que só acabou por ser desempatado por detalhes. Não deixa de ser assinalável que Clinton tenha vencido seis plenários de votação por lançamento de moeda ao ar - o que, sublinhe-se, é um meio de desempate bastante curioso num sistema democrático. Vitória pírrica de Clinton, que volta a sentir a posição em risco: em 2008, era clara favorita e acabou atropelada por Barack Obama; há menos de um ano atrás, Sanders era visto como um candidato não sério que agora ameaça ganhar a corrida pelo lado democrata;
2- Havia a expectativa de que Donald Trump vencesse com alguma margem sobre os adversários, Ted Cruz posicionou-se em situação de vantagem e Marco Rubio disparou para igualar Trump no segundo posto. As razões destes resultados são simples:
a) perante a ameaça de vitória de Trump, o eleitorado republicano típico concentrou os seus votos nos dois candidatos rivais mais bem posicionados para derrotar Trump;
b) houve uma afluência anormal às urnas por parte de eleitores republicanos que não pretendiam participar nas eleições, mas viram nessa participação a única forma de derrotar Trump;
c) cheguei a ver reportagens que mostravam simpatizantes democratas registarem-se como republicanos para ajudarem a derrotar Trump e a votar num candidato que fosse mais favorável aos interesses dos candidatos democratas.

Em New Hampshire, o cenário é diferente do Iowa:
1- Trump lidera as intenções de voto com vantagem confortável sobre os dois directos adversários (as sondagens dão vantagens entre os 10% e os 20%);
2- Sanders será o provável vencedor com uma diferença estimada entre os 12% e os 20%.

As primárias dos EUA merecem um acompanhamento sério e crítico, não apenas do ponto de vista jornalístico e mediático, como também do ponto de vista da ciência política, sendo interessante constatar que:
1- É curioso assinalar que é praticamente unânime a tendência de os EUA tentarem demarcar-se da dinâmica, da ideologia partidária e da política europeias para afirmar que não é possível comparar os actuais candidatos com actores políticos europeus. O único que tem correspondência directa é Sanders e fazem-no para descredibilizar o candidato, afirmando que as suas propostas funcionam na Suécia, mas não nos EUA.
2- Em contraposição, não deixa de ser curioso ver que os europeus esforçam-se para identificar (muitas vezes de forma forçada) elementos de afinidade que os equiparem a políticos norte-americanos. Em Portugal, é sem surpresa que vemos inúmeras personalidades de esquerda que, apesar de desconhecerem os programas e as propostas dos candidatos, automaticamente colam-se aos democratas por aparentarem ser mais liberais e ideologicamente flexíveis - falsa ideia, diga-se - e partidos como PSD e CDS que insistem em equiparar-se com a ala republicana, apenas com base nos valores nacionalistas e conservadores - mesmo que muitas das suas medidas comprometam os interesses portugueses.

Também do ponto de vista político e social, é interessante assinalar algumas curiosidades nestas primárias:
1- Bernie Sanders concentra, claramente (de 70% a 80%), as intenções de voto das gerações mais jovens (faixa etária 18-41), o que parece ilustrar a disposição de corte com os valores de um sistema político tradicional esgotado e fortemente refém do mundo empresarial e financeiro, sem oferecer soluções a um eleitorado que teme pelo seu futuro. BernieSanders tem um programa económico que um recente estudo ao impacto das suasmedidas reconheceu que é passível de contribuir para um aumento dos rendimentosdos particulares, para a criação de cerca de 26 milhões de postos de trabalho epara a redução da taxa de desemprego para perto de 3,8%. Sanders representa e defende aquilo que muitos dizem ser uma ilusão: política em favor da classe média e dos mais desfavorecidos, o regresso da soberania popular.
2- Hillary Clinton ainda recolhe dividendos da governação do marido no lado democrata, sendo a favorita das gerações com mais de 40 anos e, simultaneamente, relativamente conservadoras, apesar de democratas. Se Sanders tende a conquistar o voto nos meios urbanos e com uma economia mais moderna, Clinton é mais popular nos meios rurais, conservadores e outros mais afastados das capitais económicas. Tenta afirmar-se como democrata, mas não consegue esconder que é republicana de facto - nos sentidos conservador, intervencionista e de forte ligação ao mundo empresarial e financeiro. Aposta numa campanha segura e pouco dada a surpresas, até porque sabe que as suas características e ligações, bem como o seu passado, a tornam facilmente susceptível aos ataques. Mas é também o seu passado no apoio a Barack Obama (e no cargo de Secretária de Estado do actual Presidente) que lhe conferem apoio junto das comunidades afro-americanas.
3- Donald Trump tem a virtude de ser o candidato da "terapia de choque" para republicanos que temem perder a Casa Branca por mais oito anos. Tem ainda outras particularidades:
a) o facto de ser politicamente incorrecto concorre para a aproximação do eleitorado que o vê como candidato genuíno: em princípio, sabemos o que podemos esperar de Trump Presidente, enquanto muitos desconfiam do que pode ser ter um Presidente como Cruz;
b) está longe de ser o candidato que se assume como certinho, que vai à igreja ao domingo, casado com a mulher que conheceu na juventude e ao lado de quem estará até morrer, com filhos que provavelmente trabalharão na alta finança: em resumo, Trump é republicano mas desligado das tendências e comportamentos do passado, estando mais integrado na vida moderna que os restantes;
c) tem atraído uma multidão de novos votantes republicanos que não se revêem nos candidatos tradicionais, olhando para Trump como aquele que pretende recuperar o orgulho nacionalista e os valores patrióticos.
d) se os novos votantes são a sua força, o seu principal adversário é a possível afluência às urnas e concentração de voto intencionadas com o propósito de o derrotarem (e não porque um dos seus adversários seja popular). Recordo que Trump tem larga vantagem, por exemplo, entre os que votam pela primeira vez (independentemente da idade), enquanto Cruz é o favorito em quem participou em actos eleitorais anteriores. E, facto que atesta o que aqui digo, é a afluência às urnas no Iowa ter batido recordes e o segundo lugar de Trump ter conseguido cerca de mais 15.000 votos do que os conquistados por Rick Santorum no último caucus no Iowa.
e) é o candidato que tende a não obedecer às regras de etiqueta e protocolo, nem faz cerimónia, como os tais candidatos "muito certinhos", verdadeiros meninos-de-coro, que receiam ultrapassar certas barreiras com receio de afectarem o seu estatuto social. O eleitorado aprecia o candidato que desafia e ataca sem fazer cerimónia por ver nisto uma demonstração de força, liderança e superioridade.
4- Ted Cruz é o oposto de Trump: é o candidato de "boas famílias", religioso, afecto ao Tea Party e aos valores mais conservadores dos EUA. É visto por muitos como candidato perigoso dado o elevado grau de fundamentalismo das suas posições, pela ideologia e pela inflexibilidade.
5- Marco Rubio é o candidato republicano tradicional que não é alvo de campanhas odiosas mas também não entusiasma. Tende a não alinhar em fundamentalismos, mas a sua aparente neutralidade poderá fazer a ponte entre o Tea Party e a ala republicana mais moderada e derrotar Hillary Clinton (por enquanto segue com mais 5% das intenções de voto face à democrata). Defende uma agenda externa de intervenção em função dos interesses dos EUA, independentemente de quem sejam os visados ou do impacto que possa ter junto de terceiros Estados.

Neste momento, a manifestação expressa de apoio de Barack Obama poderia ajudar a desequilibrar as contas no lado democrata. Apesar de Obama parecer inclinado a apoiar Hillary Clinton - tem uma dívida para com ela -, ainda evidencia algumas reservas parecendo querer adiar o seu apoio para o candidato que emergir das primárias de modo a também não prejudicar futuramente Bernie Sanders caso este vença a corrida.

Actualmente, as sondagens indicam que Sanders é o único candidato capaz de derrotar qualquer candidato republicano - Clinton apenas derrotaria Trump e por margem escassa.

No entanto, o futuro não se afigura fácil para Sanders: apesar da provável vitória em New Hampshire e da vantagem noutros estados do Nordeste, aproximam-se escrutínios em estados onde Clinton conta com o apoio das comunidades afro-americana, como a Carolina do Sul (onde segue com uma margem situada entre os 20% e os 30%), e hispânica, como a Florida, e outros mais conservadores e menos disponíveis a enfrentar mudanças políticas e sociais profundas, como o Ohio e Indiana.

No entanto, o facto de o apoio a Clinton continuar a evidenciar uma tendência de arrefecimento não pode ser ignorado. Num cenário de vitória pouco convincente de Clinton ou pouco provável derrota para Sanders (as sondagens dão vantagens confortáveis a Clinton), as próximas primárias no Nevada e na Carolina do Sul podem abrir caminho a uma SuperTerça-Feira (com actos eleitorais em doze estados diferentes), no próximo dia 1 de Março, que poderá assinalar o início da "revolução de Sanders" ou o embalo definitivo de Clinton - sem se descurar, evidentemente, o papel dos "superdelegados".


No lado republicano, tudo dependerá da afluência às urnas e da concentração de votos nos dois principais adversários de Trump. Se não vencer hoje, em New Hampshire, Trump dificilmente conseguirá contornar a tendência de queda que galvanizará o eleitor republicano tradicional a apoiar a campanha contra si.

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