sábado, 30 de janeiro de 2016

Nove considerações e dois extras sobre as conversações de paz da Síria

Militar pró-Assad. Fonte: Reuters.

1- A intervenção da Rússia contra o Da'esh tem permitido às Forças Armadas sírias reconquistarem território tanto ao Da'esh como a grupos rebeldes que combatem Bashar al-Assad;
2- As conversações em curso actualmente estão a acontecer porque o Governo sírio tem vindo a ganhar ascendente e muitas posições rebeldes estão cada vez mais cercadas ou em posição de perder o território onde se encontram;
3- Ou seja, estão a aceitar negociar porque começam a restar-lhes poucas hipóteses de poderem participar no processo e no futuro político da Síria;
4- Prova disto mesmo é o facto de até o "Alto Comissariado para as Negociações", constituído na Arábia Saudita com o apoio dos EUA e composto por vários grupos de oposição a Assad - incluindo grupos terroristas financiados pela Turquia e pelo Qatar como Ahrar al-Sham e Jaysh al-Islam -, já ter aceitado começar a negociar com Assad;
5- Não são esperadas grandes novidades nas negociações, por agora, dado que alguns dos grupos presentes combatem-se entre si ou rivalizam por maior influência e ascendência num futuro da Síria que, de momento, só é assegurado por Assad;
6- Além da participação de grupos terroristas e outros que cometeram crimes de guerra e contra a humanidade contra civis, não se pode esperar muito quando os curdos, decisivos no combate ao Da'esh, foram afastados por dois motivos: a ala curda síria é apoiada pela Rússia; a Turquia opôs-se à presença dos curdos com receio de lhes dar protagonismo e ajudar a acalentar a agenda secessionista;
7- Sem curdos nas negociações é muito pouco provável chegar a algum lado;
8- Dada a desmoralização dos grupos armados que combatem Bashar al-Assad, os EUA tomaram dois passos decisivos que ou os órgãos de comunicação social portugueses mencionaram em rodapé ou não mencionaram de todo e que são importantíssimos até para a Europa e para Portugal:
a) Barack Obama quer destacar os aviões AWACS para auxiliar as acções contra o Da'esh - o que é, na verdade, uma forma de refrear a intervenção russa e, eventualmente, ajudar os rebeldes a reequilibrarem o combate a Assad (o Da'esh que se ****, é um mal com o qual se lida depois);
b) Obama anunciou o comprometimento com o combate ao Da'esh na Líbia. Aqui, importa esclarecer que, na Líbia, o Da'esh são meia dúzia de saloios que só têm o protagonismo que têm porque o país está desfeito e dividido em dois. Ainda nos últimos dias as duas facções rejeitaram o cumprimento de uma resolução do Conselho de Segurança para forçar a formação de um Governo de coligação entre as duas alas. O que os EUA estão a tentar fazer é aproveitar-se desta situação para evitarem o que está a acontecer na Síria com o apoio russo a Assad, antecipando-se à entrada russa na Líbia e acelerando o apoio a um actor que lhes é favorável. Para quem tanto se interessa por refugiados devia pôr os olhos nesta situação porque os combates que aí vêm só prometem levar mais gente a atravessar o Mediterrâneo.
9- Enquanto se continuar a apoiar alguém neste conflito em violação pela soberania da Síria e da sua população ou com base em questões geopolíticas, conflitos religiosos, o que for, bem podemos esperar que as negociações cheguem a algum lado.

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