domingo, 3 de janeiro de 2016

Centenário da celebração do acordo Sykes-Picot

Celebra-se hoje o centenário do mítico acordo Sykes-Picot, um dos grandes responsáveis por tudo o que acontece no Médio Oriente e, consequentemente, se reflecte também na Ásia, em África e na Europa.

Em resumo, o acordo foi celebrado por um diplomata inglês e outro francês, onde constava a forma como seriam divididos os territórios que pertenciam ao Império Otomano quando terminasse a I Guerra Mundial.

É notória a intervenção europeia no facto de alguns territórios estarem desenhados a régua e esquadro, seguindo-se o exemplo da Conferência de Berlim, no século XIX, onde se dividiu o continente pelas potências europeias seguindo o mesmo método e tendo como princípio os interesses dos Estados na região/continente.

Assim, à França foram atribuídos os territórios da Grande Síria (que inclui a Síria que conhecemos hoje e o Líbano que nunca na história existiu com este título) até Mosul, no Iraque. Já a Grã-Bretanha ficou com Bagdade, com a Palestina, a Jordânia e a Península Arábica. O acordo previa ainda a atribuição da Arménia e de parte do Curdistão à Rússia. Jerusalém seria administrado por uma entidade internacional.

Estes territórios não pertenciam juridicamente às respectivas potências, mas de facto era o que se verificava, já que os administravam de forma directa ou indirecta.


Este acordo está na raiz de todos os problemas do Médio Oriente actual porque, tal como sucedeu em África, junta diversas sensibilidades étnicas e religiosas nos mesmos organismos políticos a que se deram o nome de Estados, que foram criados em função dos interesses das potências europeias, e foram incumpridas inúmeras promessas e acordos com entidades e povos que ainda hoje reivindicam a sua concretização:
  • A Síria, que assiste ao surgimento da República do Líbano, o qual já tinha uma população dividida entre cristãos (mais próximos dos franceses e opositores de ambições independentistas islamistas), sunitas, xiitas e drusos;
  • O Iraque surge da intenção de criar na Mesopotâmia um Estado que facilite a exploração dos recursos energéticos e aumente a protecção do ocidente da Índia e junta, desde então, xiitas (no Sul), sunitas (no Centro) e curdos (no Norte);
  • A recusa de entrega da Península Arábica ao xerife de Meca, para, mais tarde, a reconhecer a Abdulaziz Ibn Saud, fundador e primeiro Rei da Arábia Saudita;
  • A separação entre a Transjordânia e a Palestina que trouxe o surgimento da que hoje é Jordânia e contribuiu para o isolamento da Palestina, onde se encontravam personalidades cujas ambições políticas haviam sido negadas pelas potências e onde se entendeu ser o território ideal para cumprir a Declaração Balfour (de 2 de Novembro de 1917), na qual o MNE britânico Lord Balfour abre caminho - através de uma declaração que terá sido proferida de forma não séria ou vinculativa mas mais como forma de não gerar inimizades e hostilidades com a comunidade judaica na Grã-Bretanha, o que se veio a comprovar, 20 anos mais tarde, quando os próprios britânicos tentaram impôr limites à imigração judaica e à ocupação da Palestina pelos judeus - à constituição de um destino fixo para os hebreus onde se encontra a Palestina.

1 comentário:

conceicao amaro disse...

Artigo muito interessante, com muitos aspectos que eu desconhecia.
É extremamente oportuno, dada a situação internacional em que vivemos, ajudando a ir às raízes do problema.