sábado, 1 de agosto de 2015

Os cartazes das Legislativas: Partido Socialista (PS)

No seguimento do que iniciei ontem, segue a análise para os cartazes do Partido Socialista.

Partido Socialista

Já se viram por aí estes cartazes (devidamente identificado). Este cartaz tem como principal virtude uma característica que é uma tendência nos cartazes do Partido Socialista e funciona, a meu ver, muito bem: apresenta o principal candidato (nas Autárquicas e nas Presidenciais tendem a fazer o mesmo), o que, para o destinatário, tende a ser visto com bons olhos pois é possível estabelecer uma empatia com o candidato desde cedo. Para o bem ou para o mal, é como se ele estivesse ali há muito tempo e aproxima a pessoa do principal candidato do eleitorado (ao contrário das listas cujos líderes nem sequer aparecem, tornando-os incógnitos, ou surgem no final da campanha, por vezes tarde demais).

Pessoalizar a campanha tem as suas vantagens, mais ainda quando no caso deste cartaz de António Costa o candidato a Primeiro-Ministro surge com indumentária irrepreensível e com uma pose natural - não há pior do que um sorriso forçado ou um olhar sisudo que elimina qualquer empatia com o eleitor.

Mas este cartaz tem pontos contra: não se compreende o fundo (parece uma casa vazia pronta a mobilar) e a mensagem revela fragilidades. Comecemos pelas cores: o vermelho é a cor utilizada como fundo pelas cadeias de restauração que apelam ao consumo rápido (fast food ou chineses) com relativa eficácia. Não é bom para quem pretende captar o eleitor. O branco e o amarelo são duas cores pouco aguerridas e o vermelho nem chega a ser bem vermelho, é quase a caminhar para o laranja. Isto tudo junto acaba por não convidar à leitura e à reflexão.

O tipo e o tamanho da letra é manifestamente infeliz - ao contrário da escolha da Coligação Portugal à Frente que revela um tipo e tamanho de letra categórico e firme e contribui para que a mensagem seja o centro do cartaz. Quanto à mensagem, não entusiasma: trabalhar com rigor para as pessoas é demasiado insosso. Desde logo a palavra "rigor". Alguém fica motivado com isto? Existem problemas mais graves no país e o PS escolhe uma palavra fria e pouco dinâmica para se aproximar da população? E sublinham "rigor" com uma cor neutra como o branco? A mensagem tem de ser mais contundente quer na substância, quer na forma.


Antes, o PS tinha-se lançado neste formato. Pouco há a dizer face ao nível básico deste género de cartaz: o mesmo tipo de letra com um fundo que, apesar de lançado no ano de 2015, podia muito bem ser o primeiro ensaio num Paintbrush de 1995 por um aluno de 10.º ano. Compreende-se a intenção de ligar a candidatura do PS ao país e, desta forma, apelar ao patriotismo. Mas a forma como foi concebido nem se compara com o da Coligação Portugal à Frente (cujas curvas dão dinâmica ao cartaz) e a forma como as cores (sem variação de tons ou sombras como se de uma bandeira se tratasse) estão quase sobrepostas fazem perceber o tremendo erro que é esta opção (juntar verde e vermelho, vermelho e azul ou azul e verde desta forma é um tiro no pé porque fere a vista).

Percebe-se ainda que a tendência vai ser para apostar no branco e no amarelo (duas cores que quase se confundem) e destaco outro erro crasso: o O de Costa está metade preenchido a amarelo e metade não. Ao mesmo tempo é traçada uma linha a amarelo que risca o nome Costa, deixando só o António. O que é isto? Um recado subliminar do líder da campanha de querer riscar António Costa e deixar a vaga para um qualquer António, quem sabe Seguro? A mensagem permanece insossa.


Não satisfeitos com o que haviam feito - e o PS já vai em, pelo menos, 3 cartazes, o que representa algum investimento -, os socialistas decidem fazer um cartaz que, quando o vi pela primeira vez, parecia uma versão da capa da revista Sentinela das Testemunhas de Jeová em formato 8mx3m. Até a senhora que vira a página é desenhada da mesma forma que a famosa revista que nos é distribuída à porta por pares de fiéis desta confissão. Mas mesmo a aparência consegue ser a de alguém… banal. No limite, que fosse o candidato a Primeiro-Ministro a virar a página da tempestade para a bonança, afinal, é ele quem se compromete a fazê-lo. Agora, uma mulher (em que até a camisola branca é má), que não é ninguém, a fazê-lo, não se compreende.

Compreende-se, isso sim, que o candidato queira dar confiança ao eleitor, mas a forma como tudo está concebido e até a própria mensagem mais parecem dar seguimento ao discurso de António Costa quando este propôs aos chineses que investissem em Portugal porque o pior já tinha passado e os tempos são propícios ao investimento.

O pior é que nem sequer do ponto de vista motivacional ou religioso este cartaz funciona como mote de auto-ajuda. E o nome do candidato no mesmo tipo de letra infeliz que se perde no fundo é, a todos os níveis, lamentável. As pessoas ainda lêem que "é tempo de confiança". Mas não percebem porque motivo. E ver o sol a surgir sem mais nada a acompanhar (como uma medida ou o próprio candidato) faz com que o eleitor mais facilmente despreze o cartaz e pense que se trata de um anúncio religioso do que o fará sentir proximidade ao PS e votar no partido.

Não sei o que se passa com a organização de campanha do PS, mas António Costa tem muito para mudar se quiser causar impacto visual no eleitor.

2 comentários:

Marisa Maria disse...

O letering do "Rigor" faz lembrar o do leite Vigor

Nem tudo Freud explica disse...

A criatividade já era.