quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Cartazes das Legislativas: o banco de imagens da Coligação Portugal à Frente (PSD/CDS-PP)





Estes são alguns dos cartazes que estão espalhados um pouco por todo o país. Como já muito tem sido comentado, as fotografias das pessoas que dão a cara nos cartazes foram adquiridas num banco de imagens.

Não compreendo, sinceramente, o espanto e a indignação para com esta opção, mais parecendo que tem origem em apoiantes de outros partidos, sobretudo dos que não gostaram de ver a careca exposta por utilizarem imagens de particulares sem o seu consentimento, com uma história que nem é sequer a sua (caso dos últimos cartazes do Partido Socialista).

E não compreendo o espanto por um motivo simples: a aquisição de imagens não é novidade e até houve quem tivesse desvendado outras acções de campanha do PSD, em particular nas últimas Autárquicas, em que houve recurso a banco de imagens.

Algumas imagens utilizadas nesta campanha podem ser adquiridas, por exemplo, no site Big Stock Photo, como se pode ver no exemplo de uma foto utilizada para ilustrar o pdf do Programa Eleitoral da coligação Portugal à Frente.

O recurso a bancos de imagens é uma escolha inserida numa estratégia que cabe ao eleitorado manifestar se concorda ou não com ela. Como é evidente, só posso olhar para esta opção como uma escolha infeliz e reprovável, desde logo, porque elementos da Coligação (sobretudo Paulo Portas) fazem do combate ao despesismo, sobretudo em campanhas eleitorais, uma das suas bandeiras e acabam a gastar dinheiro na aquisição de imagens quando poderiam obtê-las gratuitamente, pelo menos, junto dos seus apoiantes. A propósito, quem cede os direitos de imagem para publicidade sabe que corre o risco de vir a dar a cara por ideais políticos?

Em segundo lugar, esta opção denuncia falta de transparência por acabar por transmitir uma ideia que não corresponde à realidade e transmite falsidade ou uma forma de querer maquilhar uma situação apenas para torná-la mais atractiva, podendo fazer com que o eleitor se sinta defraudado ou iludido.

Finalmente, esta estratégia contribui para a não identificação do eleitorado com a candidatura: as pessoas visadas não têm qualquer ligação ao país, sobretudo ao país real, nem sequer têm uma história de vida para partilhar com os eleitores. Os cartazes apenas exibem uma fotografia tirada por um profissional e estar ali ou não estar é exactamente a mesma coisa, até porque a fotografia não é coerente com o texto que a acompanha - com excepção da jovem vestida de executiva com um texto sobre as mulheres no mercado de trabalho, mas que, curiosamente, só conheço a sua utilização nos meios digitais -, dou exemplos:
  • O que raio tem uma jovem a sorrir a ver com o crescimento do turismo?
  • O que tem um indivíduo com uma camisola de manga curta a ver com o recorde de exportações?
  • O mais grosseiro de todos é o da senhora idosa acompanhada do texto "recuperação da confiança das empresas e dos consumidores". Qual é a relação entre ambos?!

Insisto: estes cartazes são o exemplo de cartazes infelizes. Lamentavelmente, a Coligação não soube dar continuidade ao primeiro cartaz: simples, directo, dinâmico. Não obstante, há que reconhecer-lhes algumas virtudes:
  • O logótipo da Coligação está bem concebido e faz sentido (junta as cores dos dois partidos e forma um P), é dinâmico e o texto que o acompanha com a denominação Portugal à Frente encaixa bem na imagem. Todavia, os símbolos dos dois partidos que integram a Coligação continuam diluídos no fundo utilizado - o qual, justiça seja feita, mantém a coerência das cores dos dois partidos.
  • "Agora Portugal pode mais" é um mote interessante, motivador e com tendência para ser bem recebido pelo destinatário.
  • Sendo a lista do Governo, compreende-se que não seja prioritário assumir o que pretende fazer, preferindo escudar-se nos feitos alcançados durante o último mandato para recordar aos eleitores as marcas positivas e tentar atenuar a contestação de muitos sectores da sociedade.

Todavia repare-se que estes cartazes também são maus, não apenas pelo banco de imagens (que acaba por ser o menor dos males), mas porque:
  • Louvam o próprio trabalho feito mas não exibem o contraste entre o antes e o depois, deixando apenas uma frase que pode ser livremente interpretada em todos os contextos (p.e.: que números contribuíram para o recorde nas exportações? Que situação tínhamos antes? Em que medida cresceu o turismo?). Fica, assim, um vazio que revela mau aproveitamento do próprio trabalho que a Coligação alega ter feito.
  • O tipo de letra é, no mínimo, estranho e o tamanho fica aquém do pretendido. Cerca de 30% do cartaz fica em branco e ocupado apenas por uma curva que vai dar ao símbolo e como que querendo mostrar o percurso inicial descendente e agora ascendente do P de Portugal e símbolo da coligação. A ideia é interessante, mas acaba por ser demasiado rebuscada e desperdiça-se espaço que poderia servir para destacar mais a mensagem pretendida.
  • Não disponibiliza qualquer meio através do qual as pessoas podem saber de que forma é que, segundo a Coligação, "agora Portugal pode mais". Sem propostas, pergunto-me: será que pode mesmo mais com a Coligação?

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