terça-feira, 28 de julho de 2015

O que realmente se passa no Médio Oriente e o combate da Turquia ao Estado Islâmico

Os curdos combatem o Estado Islâmico e ignoram os rebeldes sírios. Os turcos dizem que combatem o Estado Islâmico, mas atacam os curdos e apoiam os rebeldes sírios. O Estado Islâmico ataca o Iraque, a Síria e a Al-Qaeda. A Síria apoia os curdos, combate o Estado Islâmico, os rebeldes sírios e a Al-Qaeda e ignora Israel. Israel apoia os rebeldes sírios, o Estado Islâmico, a Al-Qaeda e ataca a Palestina, o Líbano, a Síria e o Irão. O Irão apoia o Líbano, a Síria, os rebeldes houthi no Iémen e combate o Estado Islâmico. A Arábia Saudita apoia o Estado Islâmico e a Al-Qaeda, ataca os interesses e as minorias xiitas, ignora Israel, combate os rebeldes houthi no Iémen, tenta fragilizar o Irão, desdenha a Turquia e aprecia o actual Egipto. O actual Egipto evita a Turquia, mas não lhe fecha a porta, e é próximo da Arábia Saudita. A Turquia evita o Egipto e não despreza relações com a Arábia Saudita, mas afasta-se do Irão, apoia a queda de Assad e facilita os rebeldes sírios. A Turquia é aliada dos EUA e os EUA apoiam os curdos.

Como pode esta região algum dia ser estável?

Esta história de a Turquia atacar o Estado Islâmico e, pelo meio, levar os curdos atrás poderá ter uma explicação que não se relaciona apenas com a agenda secessionista dos curdos: há muito tempo que EUA e Turquia equacionam a criação de uma zona de segurança na Síria. Actualmente, os curdos fazem de tampão e impedem o avanço do Estado Islâmico, por exemplo, para território turco. No entanto, repare-se nas posições dos rebeldes que combatem Assad. Após os curdos, a linha de combate é assegurada pelos rebeldes. O objectivo primordial não é atacar o Estado Islâmico, é atacar os curdos para facilitar a colaboração com os rebeldes e tentar acelerar a queda de Assad, que está pressionado por Israel, Turquia, Estado Islâmico e rebeldes.

Num quadro desta natureza, talvez custe a acreditar a quem vive num país tranquilo como o nosso, mas no Médio Oriente desenvolvem-se as alianças (expressas ou tácitas) mais improváveis e macabras que se pode imaginar a bem do pragmatismo. O plano principal de EUA, Turquia, Israel, Arábia Saudita e companhia é garantir que Assad cai e a consequente fragilização do eixo xiita, abrindo caminho a um novo poder político sírio que seja mais favorável à agenda destes actores e que, estrategicamente, se coloque entre o Líbano e o Irão.

Actualmente, o Estado Islâmico pressiona a Síria, o único país que verdadeira e efectivamente combate o Estado Islâmico. Para a Turquia até convém que o Estado Islâmico se mantenha activo neste momento, mas, para desviar as atenções do plano principal, prende-se meia dúzia de alegados membros do Estado Islâmico ao mesmo tempo que se devastam os curdos (aqui também) alegando que combatem o terrorismo.

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