quarta-feira, 10 de junho de 2015

SIED, SEID, ISIS, whatever… interessa é despachar!

O rigor e a seriedade com que os jornalistas produzem conteúdos é revelador da decadência dos órgãos de comunicação social portugueses. Interessa despejar conteúdos, custe o que custar, e quem dirige as entidades limita-se a dar autorização cega de publicação sem atender ao que sai em nome do jornal, rádio ou televisão.


A notícia de hoje sobre a alegada (re)abertura de antenas do SIED, publicada pelo Público, é simplesmente miserável em todos os sentidos, tornando a sensibilidade e pertinência da matéria mais grave e indesculpável o nível de amadorismo que grassa nos média, senão vejamos:
  • O jornalista fala em Serviços Estratégicos de Informação e Defesa, uma entidade que não existe em Portugal. O autor da peça olhou para a sigla SIED e, em vez de procurar o significado - já que não a sabia -, despejou um conjunto de palavras que achou que faziam sentido. O resultado foi Serviços Estratégicos de Informação e Defesa e nem sequer se deu ao luxo de juntar as siglas da própria entidade por ele inventada para perceber que teria qualquer coisa como SEID e não SIED.
  • Refere-se ao SIED como Serviços, quando o SIED é um Serviço (e não mais do que um) que, juntamente com o SIS, prossegue fins de Informações em Portugal. Nem o início da sua notícia faz sentido («O Serviços Estratégicos») pois junta singular e plural sem sequer pensar no que escreve.
  • Serviços de Informação são órgãos de comunicação social, porque são meios/canais de informação (por regra em bruto). Serviços de Informações produzem conteúdos relativos à segurança e à protecção dos interesses do Estado. Talvez «o Serviços de Informação» produza notícias. Os Serviços de Informações pegam nas notícias, recortam-nas, analisam-nas e tratam-nas. É manifestamente diferente. Este jornalista (e muitos outros) não pensam sequer nisto e insistem nos «Serviços de Informação».
Façam mais o trabalho de casa, senhores! Se sabem o que é a PJ, a ASAE, entre outras, façam o mesmo para os Serviços de Informações! O rigor nos pequenos detalhes demonstra profissionalismo e seriedade. Ao menos pensem no que raio quer dizer a sigla dos Serviços sobre os quais escrevem!


Mas, pior que tudo isto, é o jornalista despejar uma série de localizações sobre onde se encontram e/ou onde pretendem encontrar representações do SIED, bem como a pertinência para a sua deslocação. Independentemente de os representantes dos Serviços serem escolhidos com base nos critérios típicos portugueses (amiguismo, fidelidade canina e lambecuzismo - quando não são escolhidos apenas quando interessa mandá-los para longe por serem incómodos por cá) e de ser fácil identificar a lista de quatro a cinco elementos que, não obstante a manifesta incompetência e até associação a actos ilícitos de alguns, estão sempre na linha da frente para ganhar umas massas como diplomatas ao serviço de uma entidade que insiste em trabalhar e actuar com os seus funcionários numa longa zona cinzenta para poder justificar actos discricionários e, quiçá, à margem da legalidade, certo é que seria importante que alguém se interrogasse como tem um jornalista acesso a localizações actuais e futuras de um Serviço de Informações, mesmo podendo comprometer seriamente a acção do SIED.



Por outro lado, a descrição que se faz na notícia sobre a função dos antenas é, também ela, perigosa. O antena não tem por missão «captar, monitorizar e recolher informação dos destinos onde estão colocados», sob pena de praticar actos de espionagem, o que seria ilegal. Quando muito, capta e recolhe informação a partir dos destinos, o que por vezes significa a recolha de notícias ou informação privilegiada relacionadas com o próprio país onde se encontra. No entanto, esta recolha resulta, na maior parte dos casos, da partilha de informações entre o Serviço de origem e o(s) do território onde o primeiro se encontra representado. Antenas a monitorizarem territórios entra (e muito) na fronteira do ilícito.


De onde vem esta informação (ou informações - já que foi devidamente recolhida e tratada)? Vem publicada no Diário da República? É difundida num comunicado pelo Serviço? Ou alguém despeja o conteúdo à imprensa, alheio aos resultados que daí possam advir?


Claro que a caça às bruxas só interessa quando tem como fundamento afastar os incómodos, legalistas e sindicalistas que exigem o cumprimento de regras num Sistema dirigido por um sujeito cujo mandato  parece ser vitalício e já ultrapassou os dois mandatos de 5 anos do Presidente da República e os 9 dos juízes do Tribunal Constitucional, mas que, pelo jeito que a coisa leva, ameaça bater os recordes de António de Oliveira Salazar e Alberto João Jardim… independentemente dos escândalos cometidos durante a sua gestão. Mais uma Rainha de Inglaterra?


O Rei vai nú, mas o pior cego é o que não quer ver.

1 comentário:

AnaQ disse...

Parabéns...Sempre atento ao lixo que os nossos 'jornalistas' produzem incansavelmente!