quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Miró: como transformar a arte em política?

Todos conhecemos as ligações de René Magritte ao movimento comunista, o apoio de Salvador Dali a Francisco Franco e ainda a instrumentalização da Pop Art de Andy Warhol para difundir a agenda ideológica dos EUA pelo mundo inteiro. A proximidade/promiscuidade entre arte e política não é de agora e já noutros séculos a arte era utilizada como meio de engrandecimento de reinos e impérios.

No entanto, não pode deixar de me causar alguma estranheza a forma como 85 quadros de Joan Miró perdem valor artístico e ganham valor bélico numa luta bacoca entre pseudo-ideologias e que mais não é do que a continuação da guerrilha de garotos de escola. Esta tentativa de algumas pessoas transformarem Miró numa trincheira que coloca «os de esquerda que são do lóbi da cultura» a «o resto da sociedade portuguesa» não é mais do que uma tentativa de rotular pessoas e entidades, como se apenas as pessoas de esquerda - seja lá o que isso for - apreciassem e defendessem arte e os de direita não.

Como é que é possível que uma ideologia seja condição sine qua non de gosto (ou falta dele) por arte? É como o recente discurso de Paulo Portas no Congresso do PP espanhol, e que nos quer fazer crer que o facto de se ser socialista tem como consequência ser-se bom a gastar o dinheiro dos outros. No fundo, resume-se tudo à genética - vá lá que é uma questão mais transversal e não se resume a cromossomas - e não à seriedade e competência das pessoas. Uns nascem com trissomia 21, outros com doenças crónicas e outros com a síndrome da prodigalidade. E, tal como na arte, o karma traça-lhes como destino a filiação num qualquer partido de esquerda. Se forem apreciadores de arte e defensores da cultura jamais poderão ser de direita ou de centro.

Eu gosto de arte. Serei eu de esquerda? Talvez seja e não esteja disposto a sair do armário. E talvez seja isto que me faça ser sensível aos argumentos daqueles que defendem que o legado de Miró que o Estado tem em sua posse deve permanecer em território nacional para podermos valorizá-lo e rentabilizá-lo de outra maneira. Aliás, para os conservadores e fundamentalistas que se opõem «aos de esquerda que são do lóbi da cultura», talvez devessem reler a parábola dos talentos retratada na Bíblia: um consegue multiplicar os talentos que tem, o outro desfaz-se deles o mais rápido que consegue e fica sem nada.

Nesta história sucede o mesmo: estes quadros poderiam servir para levar a cultura às pessoas, instruí-las, incentivar o gosto pela arte. Mas, não. O pensamento primitivo, tacanho e incompreensível no século XXI ainda hoje ficou ilustrado nas palavras de José Lino Ramos (CDS-PP):


Ou seja, os portugueses são ignorantes e não conhecem Miró. Muito menos apreciam. Na verdade, o que os portugueses apreciam é loiça das Caldas da Rainha, quadros do menino da lágrima e o quadro dos cães que jogam poker, mesmo sem saberem quem são os seus autores (Coolidge e Bragolin). Manter os portugueses na ignorância e a aprender arte pela internet é certamente melhor. E é por muitos não conhecerem ou não apreciarem Miró que nunca o irão conhecer ou poder criticar com pensamentos do género: não conheço ou não gosto, vende. Até porque o Estado português não apoia o surrealismo - excepto o Dali do Comendador Joe Berardo. E também porque se não se despachar a colecção Miró por meia dúzia de tostões vamos ter de cortar «na Saúde e na Educação» ao mesmo tempo que contratamos mais boys para o Estado e fazemos sorteios de automóveis em directo pela televisão.

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