sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Praxe? Ninguém faz pouco de mim!

Querido Diário,

Tenho ouvido e lido opiniões incríveis sobre a praxe. Da «misoginia», de Fernando Rosas, ao «fascismo», de Mariano Gago, passando por aqueles que chamam praxe a tudo o que envolva um indivíduo com traje académico, têm sido ditos os maiores absurdos sobre a praxe. Recordo até o diálogo entre Rodrigo Guedes de Carvalho e Miguel Sousa Tavares no jornal da noite de segunda-feira passada:
- Eu não fui praxado, porque não quis. E tu, Miguel?
- Eu também não, Rodrigo.

O Tico e o Teco pareciam mais interessados em fazer uma defesa da honra e da sua masculinidade, do que propriamente em comentarem um tema da actualidade. Na verdade, não estivessem na televisão e o diálogo entre ambos poderia ser qualquer coisa do género:
- Praxe? Ninguém faz pouco de mim, Miguel. Não me digas que tu...
- Fo**-se! Claro que não! O primeiro cara**o que me tocasse ficava a cuspir sangue durante uma semana!

Como toda a gente gosta de meter a sua colherada no assunto, e com base no que tenho visto/ouvido nos média, só posso chegar a uma conclusão: tirando Paulo Rangel, que tentou colocar alguma água na fervura e que deixou no ar que praxou e foi praxado, não há um comentador, um jornalista, um apresentador, um deputado, um político, o que seja, que tenha sido praxado - entretanto informaram-me que a Bastonária da Ordem dos Advogados, Elina Fraga, assumiu ter sido praxada. Está demonstrado que os «famosos» (dos mais variados ramos) nunca praxaram nem foram praxados. E talvez esta seja a razão do seu sucesso. Claro que não entram nestas contas os participantes da Casa dos Segredos, porque reforçam a estatística - mais não seja porque muitos nem devem ter sequer chegado ao ensino secundário quanto mais à Faculdade.

Em suma, o que consigo retirar das opiniões que ouvi é que terei tido algumas alucinações quando, ao longo de muitos anos (desde os meus 6 anos até recentemente), vi milhares e milhares de alunos serem praxados e praxarem. Aliás, devo perguntar-me a mim mesmo se eu próprio terei sido praxado e se terei praxado. Depois de ouvir os relatos que por aí têm sido difundidos, sou obrigado a dizer que não. Realmente, eu não fui praxado, nem praxei. Não abusaram de mim, eu não abusei de ninguém. E os rituais que têm sido descritos são macabros e nunca participei neles. Se massacrar alunos novatos dias a fio é praxe, então, assumo, não fui praxado, nem praxei.

E perguntas tu, querido Diário: «se não foste praxado, que diploma é aquele que tu tens do primeiro dia de aulas?». Perguntas mais: «e o que fazias, anos mais tarde, trajado com alunos pintados à tua volta?» Eu respondo-te. Estava a fazer aquilo que na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa (FDL) se chama praxe. Mas como chego à conclusão que a nossa praxe era radicalmente diferente das outras, já não sei o que lhe hei-de chamar. E em que consistia aquilo a que estes aspirantes a juristas da FDL chamam «praxe»?
  1. A praxe académica consiste numa das várias formas de receber e integrar o caloiro. No primeiro dia de aulas há lugar a praxe e segue-se a semana de recepção ao caloiro com um programa de eventos diversificado e que inclui festas. Esta semana de recepção ao caloiro é organizada pela Associação Académica (AAFDL). Na verdade, a recepção começa ainda antes da praxe: quando os caloiros vão inscrever-se, são recebidos por veteranos e membros da AAFDL que os ajudam a preencher os documentos de inscrição. Por norma, há lugar a visitas guiadas pela Faculdade para que comecem a conhecer os cantos à casa. A integração começa antes da praxe.
  2. Não existe uma comissão de praxe oficial, pois a praxe é ministrada por alunos com, pelo menos, 3 matrículas (veteranos), e não existe uma autoridade que controle as praxes. Como existe autonomia e se deposita fé no bom senso, não existe um grupo específico de praxantes, existem vários veteranos ou grupos de veteranos que praxam. Os diversos veteranos controlam-se entre si em caso de possíveis abusos, podendo também haver intervenção da entidade referida no próximo ponto. A título de exemplo, transcrevo a história recordada por um ex-veterano e que foi vivida por ele: o seu grupo decidiu levar água usada para demolhar bacalhau para aspergir os caloiros. A ideia nada tinha de mal nem atentava contra a saúde pública. Apenas os deixava mais mal cheirosos. Como diz o próprio «dezenas de outros colegas, mais velhos e do mesmo ano, vieram perguntar-nos que substância era essa que estávamos a usar, para se assegurarem de que não estávamos a fazer nada que pudesse pôr em risco a saúde dos caloiros».
  3. Existe uma entidade com hierarquias e formas de funcionamento que exigem confidencialidade aos seus membros: Tertúlia Libertas. E esta entidade só tem participação na praxe numa fase avançada do primeiro dia de recepção ao caloiro: é montado um corredor no fim do qual se encontra o Dux a assinar diplomas que atestam o estatuto do caloiro e nos quais é oposta uma porção de cabelo mínima do caloiro e uma impressão digital do dedo indicador do caloiro. Antes de receber o diploma, é servida uma concha de sopas de cavalo cansado ao caloiro. Seguidamente, os caloiros e os veteranos entram no Anfiteatro 1, para assistirem à cerimónia das velas da Tertúlia Libertas. Nesta cerimónia, o caloiro apenas assiste e não intervém, devendo colocar umas orelhas de burro - sim, porque o caloiro entra na Faculdade sem saber nada e espera-se que a deixe com mais conhecimento do que quanto entrou - com um dizer específico (p.e.: «não tenho personalidade jurídica», «o sr. Charneca violou-me na Associação», «nem a Lusíada me quis», etc) e usufruir do espectáculo dado pelas tunas da casa antes da cerimónia. Como é óbvio batemos/batiam uma salva de cascos.
  4. Só existe 1 único dia de praxe: o 1.º dia de aulas. A sua prática reiterada ao longo de vários anos gerou costume. Os caloiros não voltam a ser praxados, embora devam andar com os diplomas durante uma semana, sob pena de serem surpreendidos pela Tertúlia no final de uma aula teórica que pede que os caloiros lhes mostrem os diplomas. Se não mostrarem pode haver lugar a uma intervenção da Tertúlia, mas não são praxados.
  5. O espaço de realização da praxe resume-se ao espaço da Faculdade: átrio principal e pátio. Ninguém leva caloiros para o exterior, nem há praxe fora da Faculdade fora dos olhares de terceiros.
  6. Antes da cerimónia descrita no ponto 3, a praxe consiste em pintar os caloiros com dizeres semelhantes aos do ponto 3, com a média de entrada, etc. Alguns caloiros (masculino) tiram a t-shirt e são-lhes pintados os mesmos dizeres e ainda coisas como «I love Jomi», «A Nova é para meninos», etc. São ainda colocados a cantar e a confraternizar com outros alunos, através de declarações de amor, questionários, etc. Os mais tímidos são mais vezes chamados a participar, apenas para quebrarem a timidez. 
  7. É proibido usar vernizes ou canetas de filtro nas pinturas, apenas batons e restante material de maquilhagem.
  8. Deve evitar-se ao máximo sujar a roupa dos caloiros (pode acontecer e não há ninguém que não cometa falhas). Aliás, até eram entregues sacos de plástico aos caloiros para guardarem peças de roupa, se assim pretendessem.
  9. Alunos alérgicos a material de maquilhagem não são pintados. Recordo o caso de uma caloira, num dos anos que eu praxei, que era albina e a pele não podia ter qualquer tipo de tinta e não lhe dava jeito tirar os óculos de sol por ser sensível à luz. Participou nas brincadeiras, mas não foi pintada e não foi sequer massacrada. Era importante que ela estivesse ali para começar a conhecer os colegas, mas antes de se lhe fazer qualquer coisa - e «qualquer coisa» é o que aqui descrevi - perguntávamos se podíamos.
  10. O corredor que dá acesso à «mistela» da Tertúlia - que é ingerível e não faz mal à saúde - é composto pelos veteranos que vão fazendo perguntas aos caloiros enquanto lá estão - como a clássica «o que é El Pibe?». Alguns veteranos deitam farinha e água no cabelo dos caloiros.
  11. A vontade do caloiro prevalece. Muitos iam ao engano, pois não sabiam que o primeiro dia de aulas era dia de praxe. Quando eram surpreendidos pelos rituais, convidávamo-los a participarem e não os cercávamos e obrigávamos a nada. Pior do que obrigar alguém seria ter alguém que pudesse reagir com violência a alguma situação em que participasse.
  12. A praxe é dos poucos momentos em que o filho de um professor, o de um bancário e o de uma alternadeira, o feio e o bonito, o gordo e o magro, estão em igualdade. Ninguém era mais poupado ou massacrado em face da sua condição social. O mesmo já não se pode dizer no resto do curso...
  13. No dia seguinte, não existe nenhuma tradição de maltratar, enganar ou desprezar caloiros. São alunos da academia como quaisquer outros. Nunca vi nenhum caloiro ser menosprezado por recusar a praxe ou por simplesmente ser aluno do primeiro ano. Se alguém os despreza ou engana por serem caloiros, então é mesmo uma questão de carácter que acontece na Faculdade da mesma forma que acontece fora dela.
Perante tudo isto, afirmo: nunca me senti humilhado, nunca humilhei e nunca presenciei humilhações. Vi casos de caloiros que viam a praxe como enfado e outros entusiasmados. Vi, também, muita gente que se ria de si própria da mesma forma que se ria do colega e que mais tarde se ria dos outros. Vi até caloiros que se riram de veteranos e que os praxaram os veteranos - não me esqueço de um caloiro que hoje é actor e decidiu enganar os veteranos simulando que estava a ter um ataque de epilepsia que causou preocupação geral. A reacção de todos não foi olhar para o caloiro com ódio e querer castigá-lo. Todos acharam piada e ninguém se sentiu desrespeitado (nem o caloiro, nem os veteranos). Praxe é isto: descontracção, convívio (o que é conseguido também na semana do caloiro e noutros eventos) e ainda algumas partidas que devem servir de quebra-gelo e colocar as pessoas a interagirem umas com as outras, dando-lhes as boas-vindas.

Por falar em boas-vindas, existe a típica relação padrinho/afilhada e madrinha/afilhado. É habitual, não sendo a regra, este convívio entre sexos diferentes para não se criar um ambiente semelhante ao das escolas do Estado Novo: meninas para um lado, meninos para o outro, para não correrem o risco de se prestarem à pouca vergonha. As funções de um/a padrinho/madrinha são várias. Há quem veja nesta relação apenas uma hipótese de engate (as madrinhas não são diferentes dos padrinhos neste aspecto) - e ninguém deve censurar esta opção, pois quando um não quer, dois não fazem - e há quem veja a possibilidade de ajudar os/as caloiros/as. Sim, porque padrinhos/madrinhas são veteranos e, ao contrário do que parece que se verifica noutros sítios, não têm direitos, mas apenas deveres: o dever de ajudar o/a mais novo/a a adaptar-se à Faculdade.

No meu caso concreto, tive várias afilhadas. Apesar da fama que me perseguia - sim, a inveja faz destas coisas - nunca me fiz a nenhuma afilhada. Pelo contrário, foi uma que se fez a mim. Seguia o exemplo a que me habituei quando cheguei: deixava o meu número no verso do diploma - a Tertúlia odiava isto por achar que o diploma é sagrado - caso necessitassem de alguma coisa, e emprestava livros, apontamentos, ajudava a seleccionar os melhores elementos de estudo, etc. Nunca, nunca mesmo, olhei para as minhas afilhadas de outra maneira. O meu objectivo não era o da sedução, apenas o de ajudar. Talvez por isso também tenha tido um afilhado. E ajudei-o no que pude e da melhor forma que soube. Não sei se todos se lembram de mim, mas eu lembro-me da maioria. Uns estiveram mais presentes do que outros, mas tentei tratá-los todos por igual. Até ajudei caloiros e caloiras que não eram meus afilhados/as. É dever do veterano ajudar o mais novo a integrar-se.

Ora, esta é a minha interpretação de praxe e acredito que seja a mesma da esmagadora maioria daqueles que foram alunos da FDL. Infelizmente, o que percebo nos vários testemunhos que têm proliferado de forma viral nos média e nas redes sociais está a anos-luz de se equiparar à nossa definição de praxe. Existe uma diferença gritante entre praxe e actos de gente frustrada que olha para os caloiros como sendo a única oportunidade que vão ter na vida de espezinhar alguém e de se sentirem superiores a alguém. Não acredito que os alunos da FDL estejam imunes a este sentimento. Pelo contrário. Mas acredito que as terapias para eliminar frustrações e preversões não devem passar por actos que atentam contra terceiros e dar-lhes o nome de algo que não o é como forma de legitimar esta prática. Por mais que eu chame caneta a um lápis, o lápis jamais será uma caneta. Um traficante de droga não passa a ser um cidadão respeitável se usar fato e gravata. Abusos contra a dignidade e honra de terceiros não passam a ser praxe apenas porque um sujeito de traje académico o diz.

Ainda no passado dia 1 de Novembro de 2013 estive presente numa conferência na FDL. Fiquei abismado por ver que no parque de estacionamento da FDL algumas veteranas de uma outra instituição ali próxima estavam a praxar caloiros. 1 mês depois do início das aulas ainda andavam pequenos grupos a serem praxados. Ridículo, também porque faziam-no nas instalações de uma Faculdade que não era a sua. Isto na FDL é impensável. Tal como é impensável pôr os caloiros a mergulhar em fontanários, rebolarem em esterco ou exercícios físicos. Repito: isto não são praxes, nem tradições, são terapias humilhantes para alunos que sentem, no seu subconsciente, que não vão ser ninguém na vida e que acham que esta é a derradeira oportunidade que terão de se sentirem mais do que alguém. Estes rituais são os ideais para se legitimar o bullying contra alunos com características especiais: a boazona que todos querem apalpar e ver em poses sensuais e não sabem como, o gordo tímido de que todos gostam de ver em figuras tristes para se rir, o menino bonito que os outros invejam e acham que ele deve pagar mais que os outros, etc. Estes actos, que não são praxes, têm de acabar. A praxe e a tradição devem ser respeitadas! O que vão perseguir a seguir? A benção das fitas, porque milhares de alunos param para ouvir um homem vestido de saia que promete milagres como abençoar a vida dos jovens?

Dura praxis sed praxis


Algumas fotos de antigas praxes na FDL retiradas do site da AAFDL:
Quem nunca fez uma roda destas, perdeu uma infância saudável...


Um «casal caloiro» formado no dia da praxe


4 caloiros extremamente mal tratados, como se pode ver...


Um caloiro transformer...


Conjunto de caloiros a declamarem poesia (não estão à espera que seja Fernando Pessoa, pois não?)


O corredor de veteranos...


A poncha...


A entrega do diploma pelo Dux...


A versão FDLiana de um conhecido jogo que se pratica em muitas casas portuguesas


O Anfiteatro 1 a ser preenchido por caloiros com as respectivas orelhas de burro


O Anfiteatro 1 a abarrotar, com veteranos presentes (incluindo eu)


O início da cerimónia das velas

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