domingo, 27 de outubro de 2013

Manifestações e marchas, em Portugal, no século XXI

Realizou-se ontem uma marcha organizada pelo movimento Que se Lixe a Troika. Mais uma entre tantas marchas e manifestações que decorrem há já vários anos, mais ainda ao longo dos últimos 3. O sentido desta marcha é o do costume: os manifestantes exigem a demissão do Governo e o rompimento do acordo com a troika. Não digo que a causa seja ilegítima, mas o problema é que as marchas e as manifestações não têm qualquer consequência prática.

Ao contrário de outros tempos, são, actualmente, o meio mais ineficaz de protesto e de mudança do statu quo. Tanto faz que esteja presentes mil ou 500 mil no evento. Simplesmente, ninguém quer saber destes protestos e ninguém os leva a sério. Cada um dos membros da actual coligação (PSD e CDS) aproveita o fim-de-semana para descansar e estar com família e amigos. Ainda ontem, no mesmo dia da manifestação, João Almeida, figura vital do actual CDS, estava no Estádio do Bonfim a ver um jogo do Belenenses. Esta atitude e a de todos os outros não é ilegítima, pelo contrário. Não podemos exigir que abdiquem todos do seu período de descanso por causa de uma marcha. Mas este e outros comportamentos demonstram descontracção e completa indiferença para com esta (e outras) marcha(s). De facto, tenho quase a certeza que se sentissem o seu lugar em risco muito dificilmente teríamos deputados em jogos de futebol, a aproveitar o sol, etc. Muito provavelmente tê-los-ia-mos reunidos a tentar encontrar formas de garantir a sua continuidade e de atenuar a tensão social.

Ninguém leva estas marchas e manifestações a sério, por mais que os órgãos de comunicação social lhes queiram atribuir algum dramatismo, com as típicas abordagens aos participantes nas quais um ou outro lá desabafa o seu problema pessoal e justifica, assim, a sua presença. O filme é sempre o mesmo e dificilmente mudará. Aliás, cada vez mais fica a sensação que muitos protestam por mero protagonismo, para aparecerem nas televisões com cartazes (cada vez mais personalizados e até imaginativos), como que querendo seguir o exemplo da jovem que dá o abraço ao polícia ou da senhora que distribui a outro um cravo.

Tudo isto é muito bonito e afaga o ego dos visados, mas, sejamos sinceros, não tem qualquer valor e em nada altera o estado das coisas. Vale o passeio de sábado a tarde e pouco mais. O problema é que ninguém parece verdadeiramente interessado em agir de forma eficaz. Existem até as famosas 198 formas de intervenção não-violenta e outras um pouco mais robustas. Mas, ainda assim, as pessoas insistem nas faixas, nos cartazes e nos desfiles. Mero entretenimento que nunca funcionou verdadeiramente e já nem sequer fazem qualquer tipo de pressão como ainda conseguiam fazer até há alguns anos atrás. É altura de inovar ou então insistir na retórica inconsequente do costume que não fará mais do que manter alguns rostos nas televisões e distribuir 15 segundos de fama entre meia dúzia de pobres coitados.

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