quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Autárquicas'2013: a propaganda de guerrilha e o programa eleitoral do PSD Almada

Eis que tomava um copo com uns amigos na Costa da Caparica quando ao regressar ao meu automóvel tinha isto no pára-brisas:


O choque demorou 2 segundos a passar e só passou porque lembrei-me imediatamente que não é este o formato de depósito das coimas nas viaturas. Ainda assim, obedeci e segui as instruções da parte infra da «multa» e ao virar (símbolo que é apresentado) vejo que a «minha multa» é esta:


A menos que se tratasse de propaganda da CDU ou do PS - o que não fazia sentido - pareceu-me que havia ali algo que não batia certo, uma vez que era claramente propaganda do PSD e sendo uma multa uma sanção, logo, um facto negativo, não fazia sentido que a «multa» fosse António Neves. Tentei ver se tinha algo mais e constato que a «multa» estava quase colada e, afinal, o sinal que indicava para virar devia antes indicar «abrir» para se aceder ao conteúdo que interessava e que é este:


Apesar da legenda infeliz - o que pode prejudicar a campanha nos casos dos condutores que vejam a frente e o verso e ignorem que o conteúdo é, afinal desdobrável -, saúda-se o facto de haver um pontapé no marasmo, pelo PSD Almada, na forma de chegar ao destinatário, fugindo aos habituais panfletos, com muitos chavões à mistura e «cadernetas de cromos» para ilustrar o espaço que sobra.

Na verdade, a ideia de «multar» condutores está bem feita, dado que é concretizada em espaços onde a ECALMA está activa e a «varrer» tudo o que se lhe atravesse no caminho, o que permite criar uma afinidade entre os condutores/eleitores e a candidatura que se propõe a extinguir o «mal». Peca, no meu entender, além da questão do sinal de virar, no facto de não apelar ao voto directo no PSD. O folheto é claro ao dizer «no próximo dia 29 de Setembro acabe com a ECALMA» e só falta o resto «vote PSD» ou «vote António Neves». Se se opta por uma abordagem agressiva e se se convida o eleitor a acabar com a ECALMA, tem de se terminar dizendo como se pode fazê-lo, mesmo que pareça evidente quem está a pedir o voto.

Ainda assim, sublinhe-se a originalidade da ideia e a forma quase perfeita de concepção. Bem sei que não é consensual a abordagem agressiva/de choque. Afinal, é um risco que pode não ter o impacto pretendido no destinatário. No nosso caso, somos favoráveis à surpresa, à abordagem agressiva, desde que não se torne uma agressividade de tal forma saturante, exaustiva ou chocante que produza um impacto negativo no eleitor. Ao contrário de alguns, achamos que a filosofia «falem bem ou falem mal o importante é falarem» não pode ser uma opção, sobretudo em actos eleitorais.

No entanto, apoiamos este tipo de propaganda do PSD Almada, a qual podemos apelidar de guerrilha, uma vez que se aproxima do conceito «marketing de guerrilha», ou iniciativa publicitária que envolve um investimento baixo, decorre num curto espaço de tempo e visa causar a surpresa no destinatário e chamar à atenção do maior número de pessoas possível. Talvez este exemplo pudesse ter inspirado outras acções nas 5 ou 6 ideias que caracterizam a candidatura de António Neves à Câmara Municipal de Almada e que têm sido apresentadas nos outdoors. Afinal, insistimos que a originalidade tende a dar frutos.


Paralelamente, devemos olhar para o programa eleitoral do PSD Almada para as autárquicas'2013. Começamos por referir que a grande lacuna desta campanha é a não exploração do sítio de internet da concelhia, que continua meio abandonado. No entanto, as funcionalidades do Facebook têm sido bem aproveitadas. De facto, o PSD Almada optou por criar uma aplicação através da qual os utilizadores podem visualizar as listas completas a todos os órgãos de poder local do concelho, aos programa eleitorais para a Câmara Municipal e para cada uma das freguesias e, muito interessante, uma secção dedicada aos jovens, que é explorada pela JSD, identifica os candidatos da Jota aos órgãos sujeitos a escrutínio e ainda apresenta a visão da JSD sobre as mais diversas áreas. Muito positiva esta iniciativa que não identificámos em mais nenhuma campanha, embora a vejamos como uma espécie de «programa eleitoral anotado», onde consta a explicação das medidas que se propõem no programa.

O programa eleitoral do PSD Almada é extremamente simples e composto por duas páginas: uma, onde apresenta os candidatos à Câmara Municipal e à Assembleia Municipal, a outra, onde apresenta as propostas imediatamente, sob o formato de tópicos, após um preâmbulo de enquadramento. Por um lado, não fará sentido cansar o (e)leitor com um programa exaustivo, em texto corrido, de inúmeras páginas. Até porque nem tudo o que é feito pela actual gestão é mal feito, pelo contrário, e existe um número indeterminado de actos que são para manter, sendo escusada a repetição saturante de cada um desses actos. No entanto, resumir um programa eleitoral para um município desta dimensão a alguns tópicos que ocupam dois terços de uma página parece manifestamente pouco.

Não obstante, propõe o PSD a aposta no voluntariado, na requalificação de bairros camarários - e vai mais além do que a proposta da CDU ao propôr, p.e., a criação de estruturas de convivência comunitária - e na eliminação das barracas e reconversão das AUGI (Áreas Urbanas de Génese Ilegal). Propõe ainda o PSD Almada, como é sabido, a extinção da ECALMA, tarifários de estacionamento mais favoráveis em função de características específicas e a gratuitidade do estacionamento em determinadas áreas (conforme consta no programa para a União de Freguesias de Laranjeiro e Feijó).

Simultaneamente, lamenta-se a pobreza de propostas para ambiente, ordenamento do território e segurança, limitando-se a propor pouco mais do que a revisão do Plano Director Municipal (PDM) e a melhorar a iluminação pública nas ruas. Resumir a segurança à iluminação e de forma indirecta, é demasiado redutor e desilude qualquer eleitor teoricamente disponível para votar PSD - mais ainda desiludirá os indecisos.

Relativamente à juventude, apenas se conseguem destacar a criação do Festival dos Talentos e a abertura de um centro de estudos. Pouco mais é dito (ou mesmo nada) em matéria de escolas, ensino superior, centro de investigação científica, permanência e formas de atrair os jovens a permanecerem no concelho, etc. Por outro lado, ninguém pode ficar indiferente à excelente proposta de abertura de uma loja do munícipe em cada freguesia. Eis uma medida concreta, muito positiva e útil e que precisa de poucas palavras para ser apresentada.

Finalmente, outro factor a favor de António Neves passa pela apresentação de um conjunto de medidas para a Economia, tema fundamental para o Município e ao qual a CDU, actualmente no poder, passa completamente ao lado - com os prejuízos visíveis para o concelho. E aqui é muito importante o PSD propôr a redução da derrama e a diminuição de taxas, tarifas e licenças para projectos que constituam mais-valias e agilizar os processos de licenciamento. O PSD pretende ainda apostar no comércio local e lançar um portal que divulgue o comércio e as campanhas que os comerciantes realizem. Ademais, propõe a criação de um festival de verão, o Festival do Mar e, tal como a CDU, promover o prolongamento do Metro Sul do Tejo à Costa da Caparica.

A síntese é de salutar, mas o programa eleitoral do PSD é grosseiramente sintético. Por mais estranho que possa parecer, a JSD propõe um programa mais completo e pormenorizado que o do Partido. Uma situação seria a de ter de comprimir um programa numa folha que constituísse um folheto em formato físico a distribuir aos eleitores. Outra situação completamente diferente é disponibilizar o programa em formato digital e condensar a visão para um Município desta dimensão em cerca de duas dezenas de propostas. Afinal, onde estão a cultura, o desporto, a saúde e o urbanismo? E o turismo, onde fica? Resumido a uma frase vaga de manifestação de vontade em dinamizar o turismo e explorar o potencial do Cristo-Rei? De que forma se pretende fazer isso? E a requalificação de zonas importantes como Cacilhas e o Ginjal?

Em suma, é por demais evidente, pelo exemplo dado pelo PSD Almada, que é possível dizer muito com poucas palavras e abranger todas as áreas, desde que se tenha 1 ou 2 propostas, em cada um dos sectores, que gerem agitação e estabeleçam a diferença (positiva) para as restantes candidaturas. Os efeitos perversos resultantes do risco em recorrer ao abuso de síntese fica patente no silêncio sobre como se pretende implementar cada uma das poucas medidas que o PSD Almada propõe e ainda na ausência de outras, vitais para o Município. A candidatura liderada por António Neves demonstra alguma criatividade, interesse, noção dos problemas do concelho e capacidade para imprimir a mudança em algumas áreas mas, no fim, fica a sensação de que passa ao lado de matérias que não podem ser ignoradas, atenuando o potencial de exploração que esta candidatura pode ter em Almada. É só isto que o PSD tem a propor? Caberá ao PSD Almada demonstrar que se propõe a fazer muito mais neste concelho.

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