sexta-feira, 22 de março de 2013

José Sócrates, Cátia Palhinha e o Adamastor


José Sócrates vai ter um programa na RTP. Muitos não hesitaram em mostrar publicamente o seu choque com tamanha notícia. Simultaneamente, mostraram-se contra o regresso de José Sócrates. Em particular, aqueles que num passado muito recente acusavam os governos socialistas de «pressões e ingerências» agora convocam directores da estação pública para esclarecimentos e subscrevem e promovem petições para impedir a ida de Sócrates para a RTP. Verdadeiros democratas, portanto, que se revêem nos valores constitucionais.

Foi difícil, mas conseguiu gerar-se consenso em torno da diabolização de José Sócrates. Tal ódio não foi gratuito. Sócrates fez por merecê-lo. É, provavelmente, um dos piores políticos da história de Portugal. No entanto, não só não foi o único a desgraçar o País como o mérito deve ser dado a Passos Coelho: se, após um exílio, Sócrates se sente em condições de regressar a Portugal, talvez seja porque o actual Governo conseguiu a (quase impossível) façanha de superá-lo em disparate e incompetência. E fê-lo em menos de 2 anos, o que é admirável!

Ao mesmo tempo, baralham-me aqueles que subscrevem a petição contra José Sócrates na RTP. Afinal, não querem privatizar a RTP e permitir que esta seja livremente gerida por privados, mas querem que não dê prejuízo estando sob o domínio público. Se querem que a RTP não dê prejuízo, é bom que a deixem actuar e ombrear de igual para igual com SIC e TVI. Se para não dar prejuízo tiver de garantir boas audiências, então talvez seja importante perceber que não é com o TV Rural que se chega lá. O que vende não é o pobre Zé Maria, é o Marco a dar um pontapé na Sónia. O que vende não é a palestra do Padre Vítor Melícias, são as bacoradas da Cátia Palhinha com a Teresa Guilherme e o sexo na Casa dos Segredos.

Posto isto, se alguém acredita que José Sócrates não arrastará audiências para a RTP, então certamente consegue perceber menos disto do que eu. A menos, claro, que ninguém queira prejudicar o monopólio social-democrata nas televisões privadas. E aqui entram os estrategas: uns estão confiantes que a presença de Sócrates serve para dividir os pelotões de fuzilamento entre este e o Governo; outros acham que poderá ser útil porque não se limitará a atacar o Governo e também vai disparar em direcção a António José Seguro. Eu acho que muita gente anda a dormir e esquece-se que Sócrates é um verdadeiro animal político que não brinca em serviço - talvez seja por isso que muitos o queiram impedir de regressar. E a prova está dada num pequeno pormenor: vem a custo zero, sem receber 1 cêntimo da televisão pública. O guião está preparado e acredito que Sócrates entrou em campanha para outros voos, sobretudo a pensar em reabilitar as suas fileiras e apostar nas Presidenciais. Depois do Adamastor, José Sócrates é, provavelmente, o nome que mais receios causa às elites (políticas) portuguesas.

No CDS, partido ao qual pertenço há já vários anos, é comum assistir-se à divulgação de uma frase poética como forma de reiterar que o partido defende a liberdade individual e o bom senso de cada um, a saber «quando um tipo de direita não gosta de armas, não as compra/quando um tipo de esquerda não gosta de armas, quer proibi-las». Sinceramente, tenho dificuldades em compreender porque motivo CDS e PSD não honram os valores que professam. Pela lógica, «quando um tipo de direita não gosta de um comentador, muda de canal/quando um tipo de esquerda não gosta de um comentador, quer proibi-lo». Não devia ser assim?

Sem comentários: