sábado, 9 de fevereiro de 2013

Pedro Abrunhosa e Laurent Gbagbo


Na minha modesta opinião, o «Viagens», de Pedro Abrunhosa, é o melhor álbum nacional da década de 1990. «Socorro» era a minha faixa preferida. Alguém que consegue rimar «cimbalino» com «destino» e «justifique» com «sofás do Majestic» sem que a música pareça foleira só pode ser um letrista com uma capacidade inigualável para produzir arte.

Pedro Abrunhosa foi esse génio no «Viagens», mas, desde então, só conseguiu fazer músicas (ainda por cima fabulosas) para as quais não tinha voz. Os Bandemónio não eram uma banda, eram uma orquestra ao serviço de um Pedro Abrunhosa cuja voz assentou que nem uma luva neste álbum. Até Maceo Parker participou!

Voltando ao «Socorro», um dos melhores versos é a reflexão da quadra final da música e que diz:

«O que eu gosto mais contigo,
Se queres saber o que eu acho,
É que consigo ser homem,
Sem dar uma de macho»

O «Viagens» fala de relações e um dos grandes problemas das relações, sejam elas de amizade, conjugais ou até entre Estados, é o excesso de testosterona que um dos elementos da relação aplica no seu dia-a-dia, perdendo por vezes o raciocínio que lhe permitiria assumir uma posição mais equilibrada. Não é fácil domar um ego masculino que não conhece limites à sua própria capacidade de projecção.

Freud dizia que «um homem que foi sem dúvida alguma o preferido da mãe mantém durante a vida o sentimento de um conquistador e a confiança no êxito que muitas vezes induz à concretização do sucesso». Talvez tenha sido esse o caso de Laurent Gbagbo (ex-Presidente da Costa do Marfim): adulado pela mãe, foi criado um pequeno ditador que não conseguiu ser homem sem dar uma de macho. A sua mãe não fez o trabalho que lhe competia e gerou um autista que, embora tenha atingido o sucesso, não soube fazer bons amigos e escolheu uma mulher (Simone Gbagbo) que não o levou ao caminho da evolução. Um dizia mata, o outro dizia esfola. E foi este o destino de muitos costa-marfinenses.

A era em que Gbagbo esteve no poder pode resumir-se no refrão de um outro êxito do «Viagens», que dizia qualquer coisa como:

«É que isto é mesmo assim,
sou só uma ilusão,
não tenho mão em mim,
é uma maldição!»

E foi uma maldição. Gbagbo está no Tribunal Penal Internacional, a aguardar julgamento por crimes contra a Humanidade. Mas será que deve ser ele responsabilizado pelo que fez? Ou, seguindo a teoria freudiana, a verdadeira responsável, serão a mãe e a mulher? Excesso de testosterona, sem dúvida. Mas também o resultado de uma educação e de uma relação tão funcional e eterna quanto Gbagbo no poder.

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