sábado, 1 de dezembro de 2012

Camilo Lourenço e Emanuel Augusto dos Santos

Ontem, Camilo Lourenço lançou o seu livro, intitulado Basta! - O que fazer para tirar Portugal da crise. A cerimónia de apresentação trouxe-me algumas certezas e também desconfianças. Desde logo, a presença de Pedro Passos Coelho não me surpreendeu. Camilo Lourenço tem sido um fervoroso militante da política que tem sido promovida pelo Governo. Por vezes fica a sensação que se trata de um núncio mandatado por Vítor Gaspar e companhia.

Por outro lado, não posso deixar de assinalar a presença de um humorista ao qual nunca achei piada mas cuja participação poderá ter sido estrategicamente escolhida: o recurso ao humor é uma forma de tentar prender o público e aliviar um pouco o peso de temas como a crise e a austeridade. Não obstante, não pode deixar de se lamentar o recurso ao humor para a abordagem a estas temáticas, mais não seja porque são assuntos com muito pouco espaço para piada.

Igualmente lamentável foi o comportamento de Passos Coelho. Quando confrontado com erros na estratégia do Governo na transmissão da mensagem, o Primeiro-Ministro, igual a si próprio, procurou imediatamente responsabilizar os destinatários da mensagem. Não existe humildade suficiente que o leve a reconhecer erros e tivemos aqui mais uma prova disso mesmo.

Ora, de acordo com a sinopse, o livro de Camilo Lourenço é «um livro esclarecedor, que ajuda a compreender o estado em que o país se encontra e, mais importante, aponta caminhos para evitar erros do passado e recuperar a prosperidade». Confesso-me curioso a propósito do livro. Nada tenho contra Camilo Lourenço. Reconheço-lhe até muito mérito na abordagem de outras temáticas como o BPN. Porém, nesta fase, não faço questão de comprar o seu livro, embora gostasse de lê-lo. Só tenciono adquiri-lo se se justificar. Se se confirmar que o livro não passa de propaganda para endoutrinar os leitores a favor de políticas destrutivas, certamente não o comprarei.

Embora ainda não tenha lido o livro e não o queira condenar antes de o ler, pelos artigos e pela opinião transmitidos diariamente pelo autor, tudo leva a crer que se tratará mesmo de propaganda e o título do livro bem poderia ser «sem consolidação orçamental, não há crescimento», o oposto do livro de Emanuel Augusto dos Santos, intitulado «Sem Crescimento, Não há Consolidação Orçamental – Finanças Públicas, Crise e Programa de Ajustamento». Pode parecer um jogo de palavras, mas não é. Existem diferenças substanciais entre os dois títulos e é bem provável que existam diferenças significativas entre os dois livros.

Na verdade, fica a sensação que o de Camilo Lourenço surge em resposta ao de Emanuel Augusto dos Santos. Até a própria estrutura de cada um dos livros se assemelha: ambos fazem uma descrição factual e analítica dos acontecimentos e políticas seguidas no pós-25 de Abril de 1974. Ambos fazem propostas sobre o caminho que devemos seguir. A diferença está no facto de um defender austeridade com muitos limites e defender a realização de investimentos que incluam em determinados casos a acção do Estado (Emanuel Augusto dos Santos) e o outro defender a austeridade custe o que custar com menosprezo pelos efeitos na nossa economia actual ciente que no futuro esta política compensará (Camilo Lourenço).

Nesta «guerra doutrinária» e que ilustra uma falsa bipolarização em que o nosso país se encontra em torno da austeridade, dois factores podem levar à preferência pelo livro de Camilo Lourenço: a variação no preço dos livros - o de Camilo Lourenço está à venda entre €12,80 e €16 e o de Emanuel Augusto dos Santos entre €12,15 e €13,50 - e a popularidade de Camilo - se se perguntar ao português médio quem é Emanuel Augusto dos Santos, muito poucos ou quase ninguém o conhecerá.

Já tive oportunidade de ler o livro de Emanuel Augusto dos Santos e posso dizer que fiquei extremamente agradado com a descrição factual e com a análise feitas ao longo de toda a obra. O autor parece tentar ser imparcial e evita ser, de uma forma clara, politicamente tendencioso, relativamente ao período em que esteve integrado no Governo. O caminho a seguir também me parece bem definido. Concordo até com as alternativas apresentadas à carga fiscal como forma de promover o investimento (p.e.: revisão das taxas de IVA e da TSU). Só acho que peca no capítulo das soluções apresentadas: além de poucas, muitas delas são chavões daquilo que todos pretendemos - outra questão que o autor não esclarece é a do atraso no pagamento aos militares no início de 2011 e que Emanuel Augusto dos Santos critica, entendendo tratar-se de falso alarmismo, mas não justificou o porquê do atraso. Na verdade, não aprofunda as bases que apresenta. Não obstante, sugiro a sua leitura, mais não seja porque desmistifica algumas ideias difundidas por algumas correntes às quais interessa este estado das coisas.

1 comentário:

Anónimo disse...

leia tb o "As contas politicamente incorrectas da economia portuguesa", de Ricardo Arroja.