quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

A Base das Lajes: rei morto, rei posto

Segundo foi anunciado por entidades oficiais, os Estados Unidos da América (EUA) vão reduzir significativamente a sua presença na Base das Lajes, estando, alegadamente, a tentar encontrar formas de mitigar o impacto desta medida para a economia açoriana. Para aqueles que ainda acreditam que os EUA são os nossos grandes aliados e nossos amigos, bom, aqui está uma prova de amizade ou de como as relações internacionais são formuladas com base na mera conveniência.

O actual nível de subserviência de Lisboa a Washington gera um excesso de confiança natural na administração Obama que leva os norte-americanos a tomarem como adquirida qualquer utilização da Base das Lajes sempre que tal lhes convir, nem que seja para transferir sujeitos para estabelecimentos prisionais que já deviam ter sido desmantelados. Na verdade, os EUA parecem esquecer-se da complexidade e dureza das negociações com Salazar para que pudessem usar as Lajes durante a II Guerra Mundial e, mais tarde, ali pudessem estabelecer, em definitivo, uma base militar. Recordo que chegou a ser equacionado o uso da força para garantir a tomada dos Açores e até de Cabo Verde. São estes os nossos amigos. Salazar sabia ser difícil garantir a neutralidade e permitir a utilização das Lajes pelos Aliados, mas conseguiu formalizar um acordo que tutelava significativamente os interesses portugueses.

Actualmente, e para não variar, a reacção à retirada norte-americana da Base das Lajes é, da parte de Portugal, cruzar os braços e implorar por alguma esmola que Washington pretenda dar. Uma vez que os EUA não parecem preocupar-se com os interesses portugueses, em geral, e com as condições económicas dos Açores, em particular, recordo que Portugal já teve de enfrentar um problema parcialmente semelhante na década de 1940. O que estava em causa era o comércio de volfrâmio, mercado onde, antes da guerra, Portugal era o maior contribuidor europeu com uma quota correspondente a pouco mais de 8,10% do total ao nível mundial.

Com a aproximação do início da guerra, a procura de volfrâmio aumentou significativamente dada a sua importância para a produção de munições e, com a recusa de acesso ao volfrâmio chinês, a partir de 1941, o mineral fornecido por Portugal tornou-se mais apetecível para a Alemanha. Para evitar que Portugal se sentisse tentado a vender volfrâmio aos alemães, a Grã-Bretanha passou a realizar «aquisições preventivas», a preços extremamente vantajosos para Portugal, e apostou em mecanismos de fiscalização que impedissem a transacção do mineral à Alemanha. Em contrapartida, para equilibrar a balança económica, Londres começou a aumentar o preço de bens vitais para Portugal, como alimentos, petróleo e sulfato de cobre. Uma vez que era esta a política seguida pelos Aliados, Salazar não colocou de parte uma renegociação do acordo de transacção de volfrâmio com a Alemanha. Como este pequeno País tinha um verdadeiro timoneiro que sabia marcar posição e colocava as nações mais poderosas em sentido, «Berlim percebia que eram necessários gestos generosos para convencer Salazar: por isso, no início de 1942, Hitler aprovou incondicionalmente as exigências portuguesas de fornecimento de armas a troco de importações alemãs de volfrâmio e sardinhas em óleo», como bem recorda Filipe Ribeiro de Meneses, na obra «Salazar, uma biografia política». A Alemanha comprava tudo o que podia e num momento em que o volfrâmio atingiu o preço máximo de sempre (£6.000/tonelada). Os Aliados não nos dão o que queremos? Querem tentar ganhar à custa da nossa situação de dependência? Muito bem. Vamos negociar com quem está disposto a fazê-lo.

Face à irritação dos Aliados e ao interesse na utilização das Lajes, um novo acordo temporário foi celebrado, os britânicos acabaram por receber volfrâmio e os portugueses lá receberiam os bens que pretendiam. Mais tarde, em 1944, a mesma obra reporta-nos que os Aliados tentaram seduzir os portugueses com compensações aparentemente vantajosas com a condição de ser feito um embargo total à venda de volfrâmio à Alemanha. Salazar, que não era tolo, rejeitou, mas bem sabemos que Cavaco Silva acedeu a uma sedução parecida quando a Comunidade Económica Europeia deu fundos a Portugal para que abandonasse a agricultura e as pescas.

Com verdadeiros líderes e não embaixadores de terceiros, Portugal deve tomar a mesma postura que Salazar tomou: se não aceitam as nossas condições vamos partir para outros que as queiram aceitar. Afinal, está em causa a nossa sobrevivência e o nosso bem-estar. E na Base das Lajes poderão desde logo surgir 2 actores com interesse em garantir presença nos Açores e poderão forçar os EUA a reconsiderarem a sua posição: a Rússia e a China. Tenho quase a certeza que terão muito interesse em expandir a sua presença e apoiar economicamente uma região tão desprezada pelos nossos amigos.

1 comentário:

CSMSDR disse...

A base das lajes é apenas mais um exemplo do poderio e coacção que os EUA têm executado, neste caso a Portugal.
Portugal tem em si (Continente e Ilhas) grande riqueza e ainda vantagem estratégica que, aparentemente, despreza.
É um facto, que, no geral, Portugal deve começar a olhar para o Oriente. Começam hoje a emergir economicamente países como o Brasil, Rússia, Índia e China, sendo este último o mais estável e economicamente poderoso - a nova potência em ascensão. Os EUA estão a ficar para trás e talvez seja hora de procurar novos amigos.