terça-feira, 27 de novembro de 2012

As eleições autárquicas e as novas tecnologias: apenas boas intenções

No último fim-de-semana, Paulo Portas afirmou o que já vem dizendo há muito tempo e que corresponde inteiramente à verdade: as «campanhas eleitorais custam demasiado dinheiro». Propôs ainda que se faça «uma campanha o mais poupada possível nos gastos e o mais próxima de quem está a sofrer mais neste momento».

Sabemos que isto não se trata de populismo ou de uma mera acção de propaganda porque o CDS tem mantido um comportamento coerente nesta matéria. Nas legislativas de 2011, reduziu consideravelmente os custos da campanha eleitoral e não se viram outdoors centristas nas ruas. Mais recentemente, o CDS apresentou uma iniciativa legislativa com vista à redução de 50% no financiamento do Estado às campanhas eleitorais.

Já neste fim-de-semana defendeu que as candidaturas apostem mais nos meios de comunicação, dando como exemplo as redes sociais. Julgo que essa é a estratégia desejável, mas receio que só funcione para quem tem projecção nos média e se torne muito arriscada para as autárquicas e para quem não tem o mesmo âmbito. A verdade é que as tecnologias e as redes sociais ainda não têm a mesma abrangência que os média. Acreditar que vão ser estas tecnologias a conseguir votos é apostar num nicho de mercado muito reduzido.

Prova disso é a página das principais personalidades da política nacional. Repare-se, por exemplo, que Cavaco Silva tem 153 mil seguidores no Facebook. Por comparação, recorde-se que, nas Presidenciais de 2011, Cavaco Silva obteve 2.231.603 votos de um total de  9.656.797 eleitores inscritos. Se Cavaco Silva dependesse das redes sociais para a campanha de 2011, o máximo de pessoas às quais conseguiria chegar seria correspondente a apenas 1,58% do número de votos possíveis e a menos de 10% dos votos conseguidos.

No caso de Pedro Passos Coelho, o exemplo é ainda mais gritante. Com 102.000 seguidores no Facebook, o Primeiro-Ministro dificilmente alcançaria os 2.159.742 votos conquistados em 2011 se dependesse das redes sociais. Aliás, o número total de seguidores não lhe permitiriam chegar sequer a metade dos 235.558 eleitores inscritos no distrito pelo qual foi cabeça-de-lista, Vila Real.

Estes números avançados nem sequer traduzem uma intenção de voto real, dado que seguidores não quer dizer especificamente «votantes». Poderia dar aqui muitos outros exemplos, como Paulo Portas, cujo número de seguidores no Facebook é inferior aos 49.523 votos conquistados no distrito de Aveiro, pelo qual foi eleito. Não deixa de ser ainda curioso que a página de Paulo Portas é um exemplo intrigante e, eventualmente, um exemplo de menosprezo pelas redes sociais: até às eleições de 5 de Junho de 2011, a sua página foi usada para transmitir conteúdos enquanto oposição e em função da campanha eleitoral. Após as eleições, a sua página foi actualizada com duas notícias, logo após o acto eleitoral e não é actualizada há 1 ano e 4 meses, estando agora à mercê de quem pretende injuriar o Ministro, o Governo e o CDS.

Ora, apesar das boas intenções, a verdade é que a propaganda de exterior (juntamente com acções de rua) ainda é a melhor forma de desconhecidos se darem a conhecer ao respectivo eleitorado em caso de impossibilidade de recurso às televisões. As novas tecnologias ainda não são uma alternativa viável para actos eleitorais como os respeitantes ao poder local, correndo-se mesmo o risco de listas com pouca expressão correrem o risco de desaparecer.

Com efeito, um estudo recente da ANACOM reconhece a televisão como o expoente máximo da transmissão de conteúdos, uma vez que «a posse de televisor é extensível à quase totalidade da população portuguesa dos 15 aos 74 anos (99,9%)». Logo de imediato vem o telemóvel, com 88,5% de taxa de penetração. O rádio é o terceiro equipamento mais massificado (72,7%), «seguido pelo telefone fixo (61,3%)». Só a seguir surgem o computador portátil (50,5% dos portugueses adultos) e o computador fixo (35,2%).

Ora, como se pode constatar, as novas tecnologias, passíveis de serem usadas de forma praticamente gratuita, não só não têm ainda o mesmo grau de alcance da televisão como não têm a mesma eficácia. Desde logo, enquanto a televisão e a rádio estão ao alcance da população com menos escolaridade e de idade mais avançada, as novas tecnologias encontram ainda alguma resistência neste segmento da população, com excepção do telemóvel, já quase tão massificado como a televisão. O pior é que, ao contrário da televisão, o telemóvel ainda é um instrumento de foro meramente pessoal: é o seu utilizador quem escolhe que conteúdos pretende ter e de que forma. Praticamente tem de ser o utilizador a procurá-los. Na televisão, embora assista ao espectador o direito de escolha de visualização de conteúdos, este não precisa assumir uma postura activa na procura dos mesmos, são os conteúdos que vão ao utilizador.

De facto, o recurso às novas tecnologias obriga a toda uma nova estratégia de difusão de informação, uma vez que com cartazes, folhetos e acções de rua a estratégia é claramente ofensiva no sentido de ser o candidato a provocar uma situação de contacto que as pessoas dificilmente conseguem evitar. Com o recurso a tecnologias será bastante mais complicado fazê-lo, uma vez que o seu utilizador pode blindar os instrumentos que tem a mensagens de terceiros, sejam elas comerciais, políticas ou até pessoais. Pior, pode sentir-se agredido se receber em qualquer um destes meios conteúdos que não procurou e que não pediu. Pergunto: queremos generalizar o spam? Certamente que não. Porém, o rol de alternativas para fazer chegar conteúdos políticos a um número considerável de destinatários possível, de forma gratuita constitui, sem sombra de dúvida, uma missão de extrema complexidade, duvidando mesmo que esteja à disposição de qualquer município ou candidato.

Posto isto, sem sombra de dúvidas que concordo com Paulo Portas. As campanhas custam dinheiro. Mas no poder local julgo não termos ainda a possibilidade de fazer esta escolha da mesma forma que mesmo ao nível das eleições Presidenciais, Legislativas e Europeias não as temos, mais não seja porque as próprias televisões fazem uma selecção das candidaturas que pretendem promover/proteger. Se o CDS não estivesse incluído no grupo de «partidos protegidos» pela comunicação social, possivelmente a esta hora Paulo Portas estaria a apresentar uma queixa na ERC e nos tribunais comuns contra as televisões que só dão tempo de antena aos partidos com assento parlamentar.

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