sábado, 6 de outubro de 2012

Vítor Gaspar: ou o Magalhães 2.0 versão beta

As aparições de Vítor Gaspar nas televisões portuguesas, nos últimos dias, deram-me calafrios. Arrepiou-me a frieza com que disse que, em 2013, vai restituir um dos subsídios aos funcionários públicos e 1,1 aos pensionistas e imediatamente a seguir diz «a taxa média de IRS passa de 9,5 para 11,8%» e acrescenta «será aplicada uma taxa de 4% sobre os rendimentos em 2013». Arrepiou-me a insensibilidade com que, após tudo isto, disse «a situação dos funcionários públicos e pensionistas será melhor em 2013».

Porém, mais assustado fiquei no dia a seguir com a carga emocional demonstrada ao dizer que «o povo português revelou-se o melhor do mundo». Por instantes, temi que, de olhos esbugalhados, subitamente pronunciasse o célebre kalima e desse início ao ritual de extracção dos nossos corações.

Este sujeito é sinistro e esta certeza não vem de agora, mas, pelo menos, desde que começou a expor-se publicamente. Vítor Gaspar é um indivíduo que não revela qualquer culpa ou remorso, denuncia excesso de razão e um interior de tal forma negro ao ponto de não se lhe conhecer qualquer emoção. Olho para Vítor Gaspar e fico na dúvida sobre se estou perante um sujeito que padece de uma qualquer psicopatia ou perante um projecto experimental de uma equipa de investigação do Técnico, uma espécie de Magalhães 2.0 ainda na versão beta - o que justifica, como acrescenta um amigo meu, as paragens na forma de se expressar, por ter um software que ainda não está totalmente testado e operacional. Talvez isto ajude também a explicar o episódio «Já me ouvem? Muito bem», no qual o andróide paralisa e só consegue desbloquear depois de reiniciar o sistema.

Olho para Vítor Gaspar e imagino como era o Vítor Gaspar dos tempos de faculdade e nos tempos livres. Posso estar errado, mas não vejo um Gaspar de cabelo comprido, com t-shirt dos Sex Pistols e a enfrascar cerveja numa qualquer festa da Universidade Católica ou na Cidade Universitária, enquanto engatava as colegas fãs de Jim Morrison. Mas também não o vejo como um bom aluno com comportamento «normal». Na verdade, vejo Gaspar como o típico aluno marrão que estuda nas férias de verão e cujo único sol que a pele do seu rosto conhece é a das 7h30 quando segue de casa para a Faculdade, enquanto desenvolve diálogos consigo próprio, ouve (e decora) diálogos de filmes clássicos no seu walkman ao mesmo tempo que entretém as suas mãos com um elástico ou com um qualquer outro objecto como uma chave de casa, um lápis ou uma borracha. Vejo um indivíduo que decorou as falas do Twilight Zone, do Espaço 1999 e do Star Trek, ri-se desalmadamente com os amigos em torno de piadas sobre Star Wars e, possivelmente, encarnava Darth Vader de vez em quando diante de alguns colegas. Para ele, Bob Geldof é apenas um anarquista com ideais utópicos como ajudar o comunista Mengistu a combater a fome na Etiópia.

Posso estar enganado em torno de tudo isto. Na verdade, Gaspar pode ser um tipo porreiríssimo na sua intimidade com amigos e familiares e uma verdadeira surpresa quando substitui o fato e gravata por qualquer outra coisa. Mas de uma coisa tenho a certeza: o seu comportamento como Ministro das Finanças é o de um típico carrasco, um verdadeiro serial-killer de Leste contratado por Passos Coelho para fazer o trabalho sujo e cilindrar milhões de portugueses sem apelo nem agravo. Se for esta a sua missão, está a ser bem sucedido. Com efeito, não há quadro mais negro que o actual. Não se vê outra coisa nas ruas do que pessoas perdidas, cada vez menos sociais, que não demonstram afectos ou educação nas relações com o seu semelhante, com desequilíbrios mentais, depressivas, egoístas, sem vontade de viver mas com vontade de viver no imediato como se não houvesse amanhã. Porém, não desesperemos: talvez haja esperança para a sociedade portuguesa no dia em que nos instalarem a versão final do software actualmente testado em Vítor Gaspar.

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