quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Gaspar tem razão: o povo português é o melhor povo do mundo!

Não censurem Vítor Gaspar por ter afirmado que «o povo português revelou-se o melhor do mundo». O Ministro das Finanças tem razão. O povo português é mesmo o melhor do mundo para qualquer Executivo governar livremente. É certo que faz greves e manifestações. Pelo meio, alguns impropérios, cânticos e  concurso de rimas livres contra os membros do Governo (e respectivas mães) - palavras cujo maior efeito conseguido acaba por ser a publicação de uma fotografia num qualquer jornal. Mas não passa disto. Na verdade, o povo português personifica o típico «agarrem-me que eu vou-me a ele»: na rua transmitem ódio, mas quando estão diante de qualquer membro do Governo encolhem-se e ou gritam ao longe alguns impropérios (moderados) ou abordam o governante de serviço com relativa cortesia. Enquanto isto acontece, tremem como varas verdes, perdem a atitude, o raciocínio, ouvem meia dúzia de palavras e encolhem-se.

O povo português é um povo de palavras. Vou mais longe: o povo português é um povo palavras cujo alcance nem sempre se esforça por compreender. Na manifestação de 15 de Setembro, por exemplo, vimos pessoas que foram a uma manifestação que se dizia patriótica mas tinha como desígnio «A troika que se lixe». Logo aqui há uma gralha. Não nos podemos esquecer que foi a troika que garantiu o pagamento de salários dos funcionários públicos e de compromissos do Estado com terceiros. Qualquer pessoa minimamente consciente tem de reconhecer isto. Ao mesmo tempo estavam presentes nessa manifestação pessoas com outras motivações, nomeadamente:
  • Uns exigiam a demissão do Governo;
  • Outros, apenas a demissão de Passos Coelho, Vítor Gaspar ou Miguel Relvas;
  • Alguns exigiam o fim da austeridade, sem que tal envolvesse necessariamente o afastamento da troika;
  • Colectividades oportunistas aproveitaram para fazer mera publicidade aos respectivos movimentos.
Contudo, notei também que muitos, talvez a maioria dos presentes, limitavam-se a exigir uma mudança. Uma mudança em qualquer coisa. Seja lá o que for. De que forma, não interessa. De preferência para melhor, mas uma mudança.

Ora, aquilo que constato é que os portugueses estão completamente perdidos. Comparecem num evento que não sabem bem para o que serve, não se preocupam muito com isso, nem sequer têm a verdadeira noção do que querem. Alguns parecem saber o que não querem. Não é mau, mas é insuficiente. Ainda não perceberam que afastar entidades (governantes ou pessoas colectivas) por afastar não resolverá nada, apenas terá um efeito analgésico: ilude a sensação de dor durante um período de tempo, mas ela acaba por regressar mais tarde ou mais cedo. Convinha gritar sabendo o que se grita, porque se grita e o que poderá fazer com que num futuro próximo não se grite novamente.

Com tudo isto, podemos tentar substituir os Governos que quisermos, mas duvido que com meras palavras se chegue ao objectivo pretendido: colocar o Governo em sentido, na ponta da prancha, ciente que se der um passo em falso fica sob a alçada dos tubarões. A prova de que o Executivo liderado por Passos Coelho não acusa a pressão está no facto de ainda ontem Vítor Gaspar ter literalmente gozado com os portugueses ao afirmar, sem pudor, que vai avançar para um «enorme aumento de impostos» e foi mais jocoso ainda ao afirmar, com um sangue frio invejável, que vai restituir um subsídio que a seguir vai retirar pelo aumento de impostos. É como encostar o chupa-chupa à boca da criança e, quando ela se prepara para lhe tomar o sabor, afastá-lo e degustá-lo, deixando a criança a chorar roída de inveja.

Resumindo: os portugueses podem fazer o alarido que quiserem. Enquanto fizerem barulho, tudo ficará na mesma. O Governo não se sente pressionado e tenta passar um aparente nervosismo que não se verifica mas é bem recebido pela população que se ilude ao pensar que as manifestações e greves produziram resultados. Não produzem e o mais provável é não produzirem. Quem padece de autismo não tem sensibilidade para perceber os recados que lhe são dados. Insisto: nada vai mudar. Pelo menos enquanto tivermos um País de indignados. Talvez haja esperança para este país quando passarmos a ter um país de desesperados dispostos a fazer de tudo para sobreviverem. E mesmo assim tenho as minhas dúvidas. Afinal, tal é a falta de sentido patriótico dominante no país que o mais provável é não aparecer nenhum «justiceiro» que actue junto de quem toma decisões neste país. Cobardes como são os portugueses, o mais provável é seguirem o exemplo do Governo: atacar o próximo que estiver mais a jeito. 

Sem comentários: