quinta-feira, 9 de agosto de 2012

O desporto como a vida em geral

Durante o Estado Novo, o nascimento de um filho era acompanhado por uma sensação agridoce pelo português médio da época: se, por um lado, era mais uma boca para alimentar, por outro lado, eram mais dois braços para trabalhar. Entretanto o nosso país devia ter evoluído o suficiente para que os pais não vissem nos filhos um meio para atingir um fim, procurando colocá-los a render (literalmente e sem aspas).

Já é praticamente crónico: quando chega a altura de escolher um desporto para os filhos praticarem, os pais tendem a escolher o futebol, na esperança de que esteja ali o futuro Cristiano Ronaldo que irá ganhar muito dinheiro (independentemente de se divertir). É ver as escolas e os clubes de futebol lotados e os pais a fazerem muitas vezes pressão sobre clubes amadores para que os seus filhos joguem e dêem nas vistas para conseguirem um contrato rentável. O mesmo se começa a passar relativamente ao ténis e ao golfe. Os pais vêem demasiada televisão, vêem cifrões e os filhos como possíveis vencedores de prémios milionários. Muitos pais só integram os filhos numa modalidade que tenha a possibilidade de dar dinheiro.

Tendo a comparar este fenómeno com aquele que se vê um pouco por todo o país tanto no ensino como na vida em geral. Os jovens formam-se à espera que o curso sirva para uma carreira muito específica, aumentando a probabilidade de se desiludir com o curso e com a vida caso os seus intentos não se concretizem. Muitos só aceitam exercer uma única profissão porque foi esse o plano que traçaram. Em Portugal vive-se muito assim e eu vi de perto esse fenómeno no Direito: cerca de 95% dos estudantes que frequentavam a Faculdade de Direito de Lisboa ao mesmo tempo do que eu tinham como pretensão a advocacia, ainda que muitos não soubessem bem o que isso é. Uma faixa muito residual ambicionava a magistratura e um número ainda mais reduzido de alunos tinham em vista carreiras diplomáticas ou nos órgãos de polícia criminal. Mas quando se falava em Direito, o pensamento automático era «advocacia». Aliás, muita gente comete um erro inconsciente que acaba por estar de acordo com a realidade e reduz tudo a uma questão meramente formal ao dizer que quem estuda Direito está a estudar «para ser advogado». Um licenciado em Direito é jurista, mas, por norma, a esmagadora maioria dos juristas acabam por querer seguir advocacia. O importante a reter aqui é que muitos só pretendem seguir advocacia porque vêem demasiados filmes ou acham que é ali que se vai ganhar muito dinheiro e depois, tal como os jovens futebolistas, desiludem-se quando constatam que a história é um «pouco» diferente daquela com que sonhavam. Ignoraram (e muitos ainda ignoram) que o curso de Direito é, provavelmente, dos mais versáteis que há e permite seguir um número quase infinito de carreiras (qual delas a mais honrosa). Mas, ainda assim, a esmagadora maioria insiste em olhar para um mercado mais que esgotado e, de certa forma, pouco atractiva (é preciso ter perfil para a advocacia).

Voltando ao desporto, como crianças e jovens que são, precisam de se divertir e de se sentir úteis no desporto que praticam. Um pai que canalize o filho para uma modalidade, sem lhe dar oportunidade de conhecer outras, pode muito bem estar a desviar o seu filho de uma carreira promissora numa outra modalidade, ainda que com menos visibilidade que o futebol. Para a prática e desenvolvimento de muitas delas basta uma simples raquete, uns calções, uma t-shirt e uns ténis ou então um fato de banho e uma touca. Vejam-se os casos da canoagem, do remo, do atletismo e do ténis de mesa. Começo pelo fim. Leiam esta peça e vejam que os atletas portugueses que fizeram um brilharete nos Jogos Olímpicos começaram no ténis de mesa porque... jogavam com os pais desde novos. Começaram por carolice, gostaram do desporto, hoje são profissionais e são dos melhores do mundo na sua modalidade.

No atletismo, a esmagadora maioria dos atletas começa a correr nos clubes de rua, nas associações locais, e acabam em grandes clubes europeus. Não é preciso muito dinheiro para investir nisto. Na natação também não é. No remo e na canoagem já é diferente, mas, actualmente, já se consegue aceder a estas modalidades a preços acessíveis e se se der nas vistas acaba por não ter custos. Sinceramente, espero que a medalha de prata olímpica conquistada ontem por Fernando Pimenta e Emanuel Silva na canoagem sirva de motivação para que outros jovens portugueses experimentem modalidades alternativas, ainda que se vejam limitados pela monopolização feita pelo futebol nos órgãos de comunicação social. É preciso olhar e experimentar outros palcos. Não tenho a menor dúvida em afirmar que o país está repleto de futebolistas medíocres que dariam excelentes boxistas, halterofilistas, andebolistas ou até futuros campeões de ténis de mesa e canoagem. Acho até que Usain Bolt, apesar de se tratar, provavelmente, do desportista mais convencido do mundo, serve agora de motivação a muitos jovens que lhe querem seguir as pisadas e que sabem que tudo aquilo de que precisam é de dar às pernas e ter um bom treino. Se começarmos a olhar para outros caminhos, em vez de sonharmos todos com o mesmo e recusarmo-nos a experimentar uma modalidade nova porque o futebol é o mais popular, temos boas hipóteses de um dia destes termos um dos nossos jovens a brilhar nuns Jogos Olímpicos, numa qualquer modalidade, a destronar campeões, a desafiar as probabilidades e, com os resultados, o aparecimento de apoios e dos tão almejados contratos que garantem uma vida mais desafogada. Provavelmente o futuro de muitos jovens está mesmo nestas modalidades e não nas escolas e nos clubes de futebol que continuam a formar os falhados do futuro, mais não seja porque na altura de darem o salto para a vida profissional acabam preteridos por sul-americanos de uma qualquer terceira divisão.


P.S.: Não gostei de saber que a dupla que conquistou a prata em canoagem abdicou da prova K2 200 metros, apesar de compreender a desistência de outra prova ontem para se concentrarem só numa em vez de poderem correr cansados em duas com um intervalo de tempo muito curto. Duvido que esteja aqui em causa uma questão de gestão de esforço - esforço de quê se não terão competições nos próximos tempos e só competiram numa das 3 variantes em que estavam inscritos para estes Jogos? Aparentemente, nada têm a perder e os 200 metros são bem menos exigentes que os 1.000. Aliás, se não tivessem vencido a prata, tenho algo que me diz que avançariam para a prova de amanhã para tentarem conquistar alguma coisa. Na verdade, acredito que esta desistência se trata de uma forma de rentabilizar a medalha de prata: um mau resultado no K2 200 poderia esfriar um pouco toda a euforia em torno desta medalha e que pode valer bons patrocínios para a federação e para os próprios medalhados. Seja qual for a razão, parece-me um mau exemplo e uma clara falta de ambição: querem tanto espremer esta medalha de prata que, subitamente, deixaram de acreditar no seu valor para outras provas. Renderam-se às circunstâncias e aos lóbis do financiamento mal saem do anonimato. Mau.

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