segunda-feira, 20 de agosto de 2012

O Bloco de Esquerda do séc. XXI: a viragem à maçonaria?

Francisco Louçã anunciou recentemente a sua retirada da liderança do Bloco de Esquerda (BE) e defendeu que o partido deve ser dirigido, não por um, mas por dois líderes. Segundo Louçã, esta será a forma de o partido se renovar e modernizar, sugerindo mesmo os exemplos de lideranças políticas gregas e francesas para justificar que é possível um partido como o BE assumir-se como alternativa política efectiva e que tal ocorra com uma liderança partilhada. Para este efeito, Louçã sugeriu os nomes de João Semedo e Catarina Martins.

João Semedo trata-se de um médico do Porto, figura respeitável, correcto, empenhado, educado, mas... faltam-lhe «chama» e carisma. Atenção: não confundir carisma com credibilidade e capacidade. João Semedo não é um político propriamente dito. Não entusiasma. Não cativa. Não é um líder nato. Ouve-se, mas não se pára tudo à volta para ouvir o que diz. O que, repito, não significa que o que diz não é acertado.

Já Catarina Martins é a antítese parcial. Actriz de profissão (segundo o site do Parlamento), tem formação em línguas. Quando intervém publicamente consegue chamar à atenção. Infelizmente, não pelo conteúdo - é muito trapalhona - mas pela garra e pelo barulho que faz. Aliás, é exactamente assim que Catarina Martins está na política: faz muito ruído. Gera pouco conteúdo que se aproveite. Intelectualmente deixa muito a desejar, mas tem um trunfo: o BE resultou de uma coligação de 3 pequenos partidos e, se quiser sobreviver como partido, terá de atribuir um lugar de destaque à União Democrática Popular (UDP), após o anúncio de retirada de Luís Fazenda. É aqui que Catarina Martins, enquanto próxima da ala da UDP, entra: Fazenda era o n.º 2 de Louçã e dificilmente a UDP estará na disposição de aceitar um novo lugar na sombra.

Na verdade, a proposta de futura liderança que Louçã propõe remete para a águia bicéfala, enquanto símbolo maçónico que representa uma liderança a dois. O problema nesta solução é que mais facilmente a dupla Semedo/Martins será uma espécie de irmãos siameses presos entre si e a quererem seguir rumos diferentes, do que darão o exemplo de como os opostos se complementam e duas cabeças pensam melhor do que uma. Em vez de bicéfala, a liderança do BE corre o risco de tornar-se acéfala.

Quem se ilude com o filme narrado por Louçã de que uma liderança bicéfala é o futuro e o BE pretende modernizar-se, desiluda-se: só é proposto este sistema para garantir que o Partido Socialista Revolucionário (PSR), de Louçã, se mantém na liderança e garante a continuação da UDP. Uma eventual ruptura com a UDP poderá mesmo significar o fim do BE, e Louçã sabe disso. João Semedo e Catarina Martins conseguem ser, dentro dos independentes, os que se aproximam mais das duas principais alas do Partido. Como se não bastasse, Ana Drago, que não pertence a qualquer das 3 forças políticas que formaram o BE, ainda surge em público a repudiar a solução da «liderança a dois» e demonstra ambicionar um lugar diferente na direcção do partido.

Em suma, o BE vive tempos de elevada tensão. O PSR não pretende perder a liderança, a UDP entenderá que é tempo de mudar e a facção pós-fusão-bloquista quer ter uma palavra a dizer. Afinal, o tango poderá dançar-se a 3 e palpita-me que seja qual for a solução encontrada, no final, o BE ou assumirá a ruptura definitiva ou então continuará igual a si próprio: dividido, com os egos dos intelectuais do partido a acharem que merecem mais do que os outros. O BE não é um partido unido. Aliás, o BE não é um partido: continuará, na melhor das hipóteses a ser um conjunto de partidos que se agarram com unhas e dentes ao nome Bloco de Esquerda mas, na verdade, vivem das UDPs, dos PSRs e das novas eras.

O BE vive o mesmo drama da Etiópia. O Primeiro-Ministro Meles Zenawi prepara-se para renunciar ao poder por apresentar graves problemas de saúde. Tal como o BE de Louçã e Fazenda, durante os anos que esteve no poder não conseguiu criar um movimento unido, onde as quotas étnicas dessem lugar a um poder político com uma identidade única: a etíope. A concentração de poderes num só homem (neste caso dois) e tudo o que isso traz para o ego de cada um, impede que lideranças destas preparem sucessores que gerem consenso. No caso etíope, sendo os tigrés uma minoria - embora liderasse o Executivo -, a pressão dos amáricos e dos oromos já se faz sentir. Sentem que têm demasiado peso para continuar na sombra. O final não vai ser fácil, nem sequer se garante que seja feliz.No caso do BE, Francisco Louçã monopolizou os holofotes. Fazenda contentou-se como n.º 2 e com tudo o que daí retirou. Nunca se preocuparam em criar uma sucessão consensual. Acordaram agora. Resta saber se ainda a tempo de salvar o partido.

3 comentários:

O ANTONIO MARIA disse...

Catarina Martins, militante ou simpatizante da UDP? Não vi nada que apontasse para aqui. Tem algo de substancial q confirme essa sua afirmação?

Nem tudo Freud explica disse...

Alterei o texto para corresponder ao que realmente pretendia expressar. De facto, não disponho de qualquer indício que aponte para uma militância de Catarina Martins na UDP.

Unknown disse...

boa tarde, e na maconaria? dispõe de alguma prova que o bloco esteja a mando dessa ceita?