quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Nomeações para a fusão da Carris com a ML

Após 4 anos como Presidente da Carris, José Silva Rodrigues (JSR) foi hoje nomeado pelo Governo para presidir ao conselho de administração da empresa que resultará da fusão entre a Carris e a Metropolitano de Lisboa (ML). Importa analisar os actuais números da Carris para concluir se se trata de um reforço da confiança do poder político no trabalho desenvolvido por JSR.

No ano em que chegou à presidência da Carris, a empresa registou registou um défice de 35 milhões de euros (passando o passivo de 580 milhões de euros para 615 milhões de euros). Em Outubro de 2011, o passivo já era de 938 milhões de euros - ou seja, um aumento de 38,17% face a 2007. Apesar do buraco nas contas, em 2010, a Carris renovou a frota com carros de luxo para os seus administradores, os quais mantiveram um salário invejável.

Não obstante tais resultados, o Governo decide reconduzir JSR à frente, não apenas da Carris, mas do resultado da fusão entre esta e a ML, uma empresa com um passivo de 1.372 milhões de euros, e garantindo-lhe um salário de 7.226 euros/mês, enquanto os restantes membros da direcção auferirão 6.307 euros/mês. Pelo meio, a dança das cadeiras continua: com a redução do número de administradores, muitos regressam aos lugares de origem, alguns dos quais noutras empresas públicas que nada têm a ver com transportes. Basicamente, ser administrador de uma empresa pública, em Portugal, é sinónimo de polivalência ou de perito naquilo que se chama de «tudologia»: quem dá para os transportes dá para as energias, para os correios, para as telecomunicações e até para Ministro de... qualquer coisa! Acabam por não dar para nada, porque os resultados falam por si e registam prejuízos atrás de prejuízos, e acabamos por não ter verdadeiros peritos em qualquer área que seja, com danos para o Estado, vulgo contribuintes, que continua a aumentar o seu passivo numa série de sectores.

Se a Carris e a ML são mesmo fundo perdido - o que duvido -, então a opção em juntar duas empresas condenadas ao regime da dividocracia denota falta de tacto político e de bom senso na gestão. Mas, o que não se compreende é como é possível reforçar a confiança em alguém que não fez o suficiente para evitar que o passivo da empresa que lidera se agravasse em 358 milhões de euros. A ser assim, torna-se difícil de aplaudir a decisão do Governo em reduzir os quadros da administração: afinal, de que vale poupar quase meio milhão de euros/ano em salários, se os poucos que ficam nada conseguem fazer para evitar derrapagens anuais nas empresas superiores a 50 milhões de euros?

Actualização: Em Agosto de 2011, José Silva Rodrigues havia declarado ao jornal de negócios que «a fusão entre a Carris e o Metro é uma coisa sinistra» e que a fusão seria algo «trágico». O que o fez mudar de ideias em tão pouco tempo?

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