quarta-feira, 15 de agosto de 2012

É oficial: o fim da crise chega dentro de momentos! Será?

Ontem, Pedro Passos Coelho não parecia simplesmente o líder do PSD que inaugura a festa do Pontal. Ontem, Pedro Passos Coelho assemelhou-se a um típico Presidente de Câmara feito «corta-fitas» a inaugurar mais uma obra num qualquer concelho tal a forma como se prestou a anunciar «o fim da recessão em 2013», com direito a claque e fanfarra.

Ora, das duas uma: ou Passos Coelho acredita realmente no que diz (o que é preocupante) ou não acredita mas faz questão de injectar alguma ilusão nos portugueses (igualmente preocupante). Ambas as hipóteses merecem censura por dois motivos: demonstram que o Primeiro-Ministro está a tentar vender um país cuja realidade que descreve só existe nos manuais com que os sociais-democratas endoutrinam os jovens na Universidade de Verão do PSD.

Passos Coelho e o PSD estão completamente desorientados e não lhes resta outra coisa senão promover a ideia de um paraíso que está por chegar enquanto forma de convencer os portugueses que os actuais sacrifícios são justificáveis. A onda de alucinação vai mais longe. Não deixa de causar estupefacção que o mesmo Primeiro-Ministro que prometeu, em Junho de 2011, não usar a situação que herdou como desculpa do que teria de fazer é o mesmo que, constantemente, insiste em imputar responsabilidades em José Sócrates (que tem a sua culpa e não é pouca) sempre que algum indicador lhe é desfavorável.

Ora, 14 meses depois de ter começado a governar, não deixa de ser preocupante a forma como Sócrates continua tão presente no Governo, mesmo apesar de estar tão longe. Importa perguntar: até quando será José Sócrates o culpado de todas as medidas (desastrosas) que estão a ser tomadas, da alienação do país aos privados/exterior e da falta de um plano concreto para pôr o país a avançar definitivamente. Se bem me recordo, foi o próprio Passos Coelho quem afirmou, antes de tomar posse, que é fundamental «apresentar mais resultados do que palavras» e que «precisamos de surpreender, apostando na transparência e na abertura do País a uma economia global». 14 meses volvidos, pergunto: onde está tudo isto?!

14 meses volvidos, o que temos realmente é (i) uma taxa de desemprego que passou dos 12,6% para os 15% - algo que só consegue surpreender Passos Coelho -, (ii) a economia regista o pior recuo (3,3%) desde 2009, (iii) o aumento da dívida pública - apesar de o PM dizer o contrário -, (iv) o descontrolo das insolvências das pessoas singulares e colectivas, (v) a queda na recolha de receita fiscal resultante de impostos indirectos e (vi) gerações jovens sem esperança no país e empurradas pelos próprios governantes a fazerem vida no exterior

Ademais, não deixa de ser surreal a coragem de Passos Coelho para fazer a seguinte afirmação: «No que é importante, não falhámos. Era importante controlar o défice e fizemo-lo. O país não está a aumentar a dívida, não estamos a endividar-nos mais do que podemos pagar.» Não? Conforme referido na ponto iii), a dívida pública está, de facto, a aumentar, se considerarmos o facto de que temos cada vez menos PIB para fazer face às dívidas. Relativamente ao controlo do défice, não sei a que país se referia Passos Coelho, dado que o objectivo traçado para 2012 era de 4,5%, já vamos em 7,9% e corremos o risco de não saber se os números ficam por aqui.

Passos Coelho foi mais longe no seu discurso, afirmando que «2013 será o ano da estabilização económica e preparação da recuperação». Estas promessas dificilmente corresponderão à realidade por um único motivo: estamos a pouco mais de 4 meses de chegar a 2013 e continuamos, não só sem um plano de estímulo económico, como vamos aprovando sentenças de condenação à economia nacional. O novo Código do Trabalho é o mais recente exemplo disso. Depois existe uma grande confusão, que no meu entendimento é provocada conscientemente: por um lado, o Governo diz que é necessário cumprir o acordo com a troika porque o Estado gastava demais. Mas, por outro lado, alteram-se as regras laborais do sector privado, faz-se disparar o preço nos transportes e nos bens essenciais, revêem-se as regras do arrendamento.

Ora, o que tem tudo isto a ver com os gastos excessivos do Estado? Garantidamente, alguém está a usar o Memorando de Entendimento para justificar a aprovação de medidas extraordinárias, muitas delas lesivas para a população. Da mesma forma causa estranheza que se fale em poupança do Estado, cortes na despesa, contenção das contas públicas e... se permitam incorporações de 4.000 novos militares e se descongelem as promoções na Defesa apenas porque existe dotação orçamental. Mais militares? Mais aumento de salários nas Forças Armadas? Pelo meio, os funcionários públicos continuam a ser os maus da fita, os principais responsáveis pelo descalabro nas contas do Estado e os alvos privilegiados dos ataques sectários do Governo. Na verdade, tal só demonstra que, tal como qualquer país africano, Passos Coelho teme os militares e não quer sequer equacionar a hipótese de perder o seu apoio abrindo os cordões à bolsa para os saciar ao mesmo tempo que aperta o cinto a todos aqueles que não têm armas ao seu dispor.

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