terça-feira, 28 de agosto de 2012

A beligerância de Mitt Romney: consequências dentro e para além da ala republicana


Se as eleições fossem realizadas hoje, Mitt Romney perderia para Barack Obama. Quer se queira, quer não, Obama ainda dispõe de uma imagem globalmente positiva junto do eleitorado, a mensagem de Romney ainda não conseguiu passar, a pouca que passa está, não raras vezes, envolta em polémica (p.e.: caso do aborto) e, como se não bastasse, alguns nomes republicanos insistem em repelir eleitores dos mais variados quadrantes. Romney é, actualmente, o preferido num maior número de estados, mas Obama congrega maior número de congressistas.

Perante tal quadro, importa adaptar a estratégia para tentar inverter uma tendência que lhe é desfavorável. Neste sentido, o Prémio Nobel da Paz de 2009 é acusado de ser o Presidente norte-americano mais «pró-guerra» da História, ao financiar acções militares no Afeganistão, no Iraque, na Somália, no Iémen, na Região dos Grandes Lagos, no Paquistão e na Líbia - isto se excluirmos o apoio técnico-militar concedido aos rebeldes sírios e a possibilidade de perpetrar ofensivas contra Síria e Irão. Nos últimos 4 anos, o recurso a veículos aéreos não tripulados (drones) aumentou (de 52 para 340 até Janeiro de 2012), bem como o número de mortes de civis provocadas por estes instrumentos (perto dos 1.000). Esta forte aposta de Obama na via militar teve influência na dívida norte-americana disparou de tal forma que em 3 anos e 3 meses de mandato já era superior a 8 anos de governação de George W. Bush. Com efeito, uma dívida que se situava nos USD $10,626 biliões, em Novembro de 2008, poderá atingir os USD $20 biliões, em 2016.

Num país onde o actual Presidente foi eleito sobretudo pela cor de pele e onde os índices de popularidade variam em função das vezes em que aparece vestido com um ar cool, a jogar basquetebol ou a cantar em festas privadas e cujo heroísmo depende do número de alegados terroristas executados sumariamente - com direito a transmissão em directo -, não restaria outra hipótese senão Mitt Romney demonstrar que os republicanos mantêm a veia beligerante bastante activa ao admitir o envio de tropas para a Síria e a impedir as intenções nucleares do Irão caso seja eleito. Preocupante, no meio disto tudo, é a opinião de Luís Queiró, Presidente da Mesa do Congresso do CDS-PP, que defende a abordagem belicista enquanto forma de resolução dos problemas no Médio Oriente ao dizer «o que se vive actualmente na Síria, e provavelmente amanhã no Irão, é de tal maneira problemático para a região e para o mundo, que achamos que os Estados Unidos da América não se podem alhear». Resumindo: no entendimento de Queiró, Barack Obama tem demonstrado passividade.

Há quem julgue que o mundo é uma espécie de jogo de computador em que se conquista o mundo com base num joystick e onde as vidas e os recursos são infinitos e no fim ganha o mais forte. Esta não é, de todo, a minha opinião. Como disse de início, defendo que o melhor candidato para os interesses dos EUA, de Portugal e, eventualmente, do Mundo no seu todo, será Ron Paul. Porquê? Vejamos algumas ideias defendidas por Ron Paul no campo militar: (i) «evitar guerras onerosas e prolongadas que levem o país à falência por via do recurso a meios constitucionais para capturar e assassinar líderes terroristas que ajudaram a atacar os EUA e continuam a orquestrar futuros ataques»; (ii) «garantir que os Serviços de Informações dirijam os seus esforços contra ameaças legítimas e não à vigilância de cidadãos norte-americanos inocentes através da criação de poderes inconstitucionais como o Patriot Act»; (iii) «fazer cumprir a Constituição pedindo ao Congresso que declare guerra antes de se iniciar uma»; (iv) «apenas destacar os militares norte-americanos para um conflito com uma missão claramente definida e com todos os recursos que necessitam para completar a missão - e fazê-los regressar»; (v) «revitalizar as Forças Armadas para o século XXI, eliminando o desperdício num orçamento de biliões de dólares»; (vi) «parar de tirar dinheiro às classes média e baixa e canalizar tais verbas para alimentar ditadores milionários através da ajuda externa». Ou seja, hard power só quando estritamente necessário, soft power sempre que possível e smart power com moderação.

Mais, constatemos que Ron Paul não é só palavras. Também defende as suas ideias no Congresso  (cfr. p.e. a sua posição anti-guerra ao Irão). Finalmente, confira-se o plano de Ron Paul para «restaurar a América» através de um ambicioso, bem preparado e rigoroso plano de austeridade para reduzir os custos do Estado e equilibrar o orçamento. Um dos pilares desse plano passa, sem dúvida, pelos cortes nas Forças Armadas. Por aqui passa grande parte do desequilíbrio orçamental. Se mantivermos a tendência actual, as contas públicas norte-americanas não vão resistir, será necessário um maior sacrifício dos contribuintes para financiar os desvaneios militares de Barack Obama em nome da «segurança mundial». A questão passa por saber até onde aguentará a economia dos EUA para continuar a alimentar uma presença tão intensa com vista ao apagamento dos fogos existentes e até de imaginários.

Ou muito me engano ou é uma questão de tempo até que os EUA sejam forçados a reduzir significativamente a sua presença militar no exterior e a ajuda externa a países em vias de desenvolvimento. A obrigação de equilibrar as contas públicas deverá ser severa e obrigará Washington a ter de sacrificar as Forças Armadas se não quiser colapsar a economia. Em 2016, ou a dívida está realmente controlada ou o sucessor de Obama (ou Romney) terá a difícil tarefa de levar aos Estados Unidos um cenário impensável actualmente mas que é a realidade na Europa: austeridade ao nível público e também para os contribuintes, período durante o qual a governação tenderá a ser extremamente complexa, dada a grandeza da economia norte-americana, e, eventualmente, transitória, com o único objectivo de «arrumar a casa». Neste quadro, quem vier em 2020 virá com a mesma e com uma outra missão: não só «arrumar a casa» de vez como voltar a projectar os Estados Unidos, desta vez com uma ideologia tendencialmente diferente daquela que tem caracterizado os sucessivos Executivos que se conhecem nos últimos 30 anos. Um pouco por todo o lado, já há quem sonhe que 2020 culminará com a primeira eleição de uma mulher para Presidente dos EUA. Será?

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