segunda-feira, 30 de julho de 2012

A pequenez mental portuguesa e os Jogos Olímpicos

O que tem acontecido aos atletas portugueses nos Jogos Olímpicos Londres'2012 não é mais do que uma ilustração da pequenez mental tão atípica e, simultaneamente, tão tipicamente portuguesa. Longe vão os tempos em que os portugueses pouco se importavam com a curta dimensão do seu território de origem e lançavam-se rumo ao desconhecido com um único objectivo: ficar na História. O fracasso fazia parte do risco, mas o nosso país conseguiu ser a maior potência do Globo graças à ambição e vontade de conquistar tudo, por mais adverso que fosse o cenário. A audácia era recompensada.

De há algumas décadas para cá, a grandeza mental deu lugar a uma pequenez aflitiva que certamente deve fazer com que Vasco da Gama, Camões, Diogo Cão, Pedro Álvares Cabral e companhia estejam a dar voltas na cova. Não conseguindo identificar a origem, o «vamos em frente» deu lugar a um «vamos ver», o «seremos grandes» deu lugar a um «temos de estar cientes das nossas limitações», o «tudo vai dar certo» deu lugar a um «vai ser assim-assim» e por aí fora.

Confesso que estou um pouco farto da filosofia que se vai vendo um pouco por todo o lado, mas com mais destaque no desporto de «participar já é bom». Estou farto de (pseudo) vitórias morais. Não enchem a barriga a ninguém, nem ficam na História. No Euro'2012 não houve mote mais deprimente após a derrota com a Espanha do que ouvir «perdemos, mas jogámos bem». Quero lá saber do jogar bem! O que fica na História é que a Espanha foi campeã da Europa. No dia seguinte já ninguém se lembra sequer que Portugal empatou o tiki-taka ou até mesmo que participou. Só os vencedores deixam o seu nome gravado na História. Os perdedores procuram desculpas - o bode expiatório é o do costume.

Nos Jogos Olímpicos, esta pequenez mental e saloia continua a fazer das suas. Tenho acompanhado os Jogos Olímpicos com a maior assiduidade possível e se há coisa que me deprime é ver, não tanto a participação portuguesa (mas também), mas o que se segue à participação portuguesa. Não consigo acreditar em comentários de jornalistas, treinadores, atletas e dirigentes federativos que proferem frases como «estar aqui já é bom» ou, depois de uma nadadora ser eliminada numa prova de 100 metros tanto jornalista como atleta dizerem «ganhou-se experiência para amadurecer mais na modalidade». Não consigo acreditar que um atleta que vai a Londres, perde menos de 1 minuto na piscina e volta para casa com um resultado inferior ao seu melhor registo pessoal consiga ter melhorado o que quer que fosse, sobretudo sabendo que só daqui a 4 anos tem nova oportunidade... de fazer mais uma piscina!

O mal não é só na natação, é também na ginástica, é no ténis de mesa - e a atleta sino-madeirense que esteve «quase» a vencer e perdeu - é no badminton e é também no judo. Aliás, por falar em judo, o exemplo dado hoje por Telma Monteiro é sintomático do que se passa no nosso país. A maior esperança portuguesa nestes Jogos Olímpicos trocou o ouro, a prata e o bronze... pela madeira do mastro da bandeira portuguesa. A pequenez mental portuguesa vê-se nestes momentos. Em 2008 foi Naide Gomes. Agora foi Telma Monteiro. Todos os grandes nomes que dão cartas nas competições internacionais, quando chega a altura de gravarem o seu nome na História, vão abaixo e saem pela porta pequena. Qualquer pessoa pode dizer-me, e com razão, que Telma Monteiro já venceu diversos títulos europeus e mundiais. Sem dúvida. Mas enquanto daqui a 1 ano ninguém saberá dizer em que anos Telma Monteiro conquistou esses troféus, qualquer um se recordaria daqui a 20 anos que a judoca almadense foi campeã olímpica em 2012 da mesma forma que ainda hoje qualquer português que se preze sabe que Carlos Lopes foi campeão olímpico em 1984, Rosa Mota em 1988, Fernanda Ribeiro em 1996 e Nelson Évora em 2008. Pelo meio ganharam inúmeros títulos, é certo, mas não há maior glória que a olímpica!

A grande falácia reside no argumento que diz que só é possível conseguir grandes nos Jogos Olímpicos se se tiver infra-estruturas adequadas para esse efeito. Os que usam este argumento dão como exemplo as condições em Espanha, Estados Unidos da América ou Reino Unido. Se tal fosse verdade, Coreia do Norte, Rússia e Cazaquistão não conquistavam medalhas de ouro. Querem mesmo que acredite que Portugal tem piores condições que Lituânia (ainda hoje uma medalha de ouro), Roménia, Hungria, Holanda, Ucrânia, Geórgia, Colômbia, Taiwan, Tailândia, Moldávia, Índia e Azerbaijão, todos países medalhados e com francas possibilidades de conquistarem ainda mais? As infra-estruturas são importantes mas o mais importante é o factor mental: enquanto os norte-americanos, os chineses e os romenos assim que nascem lidam com a pressão resultante da pesada herança olímpica das gerações anteriores e procuram seguir-lhes as pisadas, em Portugal nasce-se com o fracasso e com o princípio «é muito difícil», «vamos lá pela experiência» ou pela ambição dos contratos televisivos para tentar ganhar umas coroas que evitem que o atleta acabe os seus dias como caixa de um supermercado. Em Portugal, os atletas são ultraprotegidos para evitarem a pressão, algo que os prejudica significativamente porque acabam por nunca se colocar verdadeiramente à prova para não correrem o risco de lidar com o fracasso.

Em Portugal, a reacção ao fracasso de Telma Monteiro ilustra ainda a extensão da pequenez mental portuguesa, senão vejamos um dos piores comentários lidos e ouvidos um pouco por toda a parte, o de ter demasiada pressão sobre ela. Sendo a n.º 3 do ranking mundial, Telma Monteiro tem de ter toda a pressão possível para conquistar medalhas. Tinha essa obrigação! Se a n.º 3 mundial não tiver pressão sobre si quem vai ter? Mais, está na hora de colocar pressão sobre os outros que andam perdidos nos mais diversos rankings mundiais à espera de evoluir com «100m de piscina de 4 em 4 anos». Há que espicaçá-los e tirá-los da sua zona de conforto. É exactamente por serem excessivamente protegidos e afastados da pressão que jamais irão tão longe quanto podem realmente ir e é por causa de toda essa cautela que a pequenez mental se abateu hoje sobre Telma Monteiro. Há que acabar com o «participar já está bom» e com o «vamos ver». Sendo o esquecimento já garantido, o que têm os nossos atletas em perder se lhes incutirmos a fome de títulos em vez da fome de «fazer umas braçadas para voltar daqui a 4 anos e fazer outras quantas braçadas»? Está na hora de decidir se queremos continuar a ser pequenos ou, em sentido contrário, quisermos arriscar, ambicionar títulos, mesmo contra os ultra-favoritos, enfim, ficar na História, da mesma forma que ficaram todos os nossos antepassados que não sabiam o que iriam encontrar de cada vez que zarparam do Tejo. Uns perderam-se, mas muitos mais foram aqueles que até hoje são recordados!

2 comentários:

Anónimo disse...

Estou de acrdo com o seu comentário. TAMBÉM EU ESTOU FARTA de ouvir dizer: vou dar o meu melhor...vou melhorar os meus tempos, o que interessa é participar...é só miserias..já vão com o espirito derrotista, se bem que com A Nossa Telma era o contrário.De resto parece que não teem a coragem de dizer: Quero ganhar, vou ganhar,e se não conseguir pelo menos tentei ganhar, com o espirito de ganhar. é claro que os nossos atletas por melhores que sejam não podem competir com outros que teem um nivel aida mais elevado. O que eu acho é que deviam alutar a sério, ter visão e ambição e não ficar pelo tempo recorde disto e daquilo. Até agora só tivemos razões para tristezas.

Persona Naturale disse...

Uma vergonha!


Bj