quinta-feira, 17 de maio de 2012

A tribalização dos partidos políticos.

O problema não é de agora, mas tende a perpetuar-se. No passado, as sociedades organizavam-se de acordo com modelos que privilegiavam a antiguidade. A idade era vista como sinal de experiência e, mais importante, sabedoria. A idade era um posto, mas não se tratava apenas de um número a partir do qual se extraía capacidade e mérito: o ancião era-o porque a idade lhe atribuía poder. Normalmente, a sua popularidade e capacidade financeira contribuíam significativamente para este fim.

Ainda nos dias de hoje, muitas sociedades africanas inspiram-se nestes princípios tribais para se organizarem, pesando o factor étnico pesa na escolha e organização partidárias. Os elementos mais jovens e os mais recentes numa comunidade são vistos habitualmente como menos capazes, é-lhes retirado qualquer poder de influenciar ou decidir sobre qualquer questão e limitam-se a servir à espera que o tempo passe. O factor temporal é determinante para a conquista de poder e estatuto numa comunidade, sendo ignorada a capacidade que esses elementos têm. Claro que este quadro inverte-se se o jovem ou mais recente na tribo é apadrinhado pelo ancião/líder. Sem que nada o justifique, o elemento passa a ser competente e digno da importância que tem.

O resultado do modelo organizacional tribal é claro: sérias dificuldades da comunidade para desenvolver mentalidades e evoluir para conseguir garantir não só a sua sobrevivência como também a sua expansão enquanto movimento inspirador de terceiros.

Em alguns sectores da sociedade ocidental, incluindo a portuguesa, a antiguidade continua a afirmar-se como factor passível de gerar desigualdades, anular méritos e boicotar a evolução da colectividade. Um desses exemplos é o do despedimento por extinção do posto de trabalho, previsto no Código do Trabalho, que obriga o empregador a seguir como critério (sempre que recorra a esta instituto) o do despedimento dos trabalhadores pela ordem de chegada (art. 368.º, n.º 2 do Código do Trabalho). Quer isto dizer que um empregador é obrigado a despedir um funcionário recente no serviço, independentemente da sua competência, e a manter um outro que por mais incompetente que seja tem sempre o privilégio de ser o último a sair. O que dizer ainda dos clubes de futebol que atribuem dezenas de votos a sócios com determinado número de anos, sendo necessárias dezenas de sócios para equilibrar as contas? E, assim, com meia dúzia de pessoas se manipulam actos eleitorais.

Será o critério da antiguidade aquele que queremos para preferir alguém a outrem? A título de opinião meramente pessoal, aceito a antiguidade como critério decisivo apenas como factor de desempate entre pessoas com características semelhantes.

Regra geral, os partidos políticos em Portugal padecem do mesmo mal. Proliferam os pseudo-líderes que se acham no direito de se escudarem na sua antiguidade para invocarem direitos que dificilmente teriam se a escolha tiver como base o mérito e a competência. Uma pessoa que se inspira no número de quotas pagas e no número de anos passados, em vez de se basear em factos concretos que lhe atribuam mérito, deverá suscitar a desconfiança de quem tem poder para decidir se deve atribuir determinadas funções a essa mesma pessoa. «Eu tenho 30 anos de militância e tenho privilégio sobre os que chegam agora» parece-me o tipo de argumento acéfalo e primitivo que cria pequenos déspotas, boicota projectos e leva muita gente incompetente a liderar causas que, mais tarde, quando os verdadeiramente competentes assumem funções, já se encontram de tal forma sabotadas que a salvação é missão quase impossível.

Com efeito, pessoas que invocam o argumento da antiguidade para terem prioridade sobre os demais são, não raras vezes, pessoas com uma visão estanque do mundo que as rodeia, que pararam no tempo e tendem a rejeitar opiniões diferentes, novas correntes ou adaptações aos novos tempos porque são de tal forma inseguras e incapazes que a sua liderança torna-se fraca e tende a secar tudo à sua volta para não correrem o risco de perderem o lugar para a inovação e para a modernidade. Acabam por padecer da «síndrome do porteiro» que só porque fica de olho numa porta já se sente inspector da Polícia Judiciária: «Agora que cheguei ao poder vai tudo piar fininho».

Por norma, aqueles que se refugiam na antiguidade são pessoas que nunca evoluíram (nem se propuseram a), resumiram-se ao seu limitado feudo mental e depois surgem de peito cheio assumindo-se como pessoas que sabem tudo sobre tudo e só têm lições a ensinar aos outros. São estas pessoas que, normalmente, recorrem ao saudosismo para invocarem tempos ultrapassados, acabando por reforçar ainda mais a sua incapacidade para se adaptarem aos tempos modernos. Pronunciam frases como «Ah! Antigamente é que era bom», «eu sou do tempo em que os nomes no cartão de militante eram escritos à mão com letra de professora primária» ou «quando ainda disputávamos o quinto deputado à Assembleia da República com o MRPP». Compreendo perfeitamente que cada instituição tenha história e que seja imprescindível conhecê-la e compreendê-la para se valorizar a mística do partido, mas há pessoas que não evoluíram no tempo desde esses tempos e, quando aparecem pessoas novas no feudo a quererem ajudar a inovar e a desenvolver através de novas visões e métodos, logo os «sujeitos das antiguidades» ficam intrigados e indignam-se por medo de serem ultrapassados. São os mesmos que dizem «já fui Primeiro-Ministro, não posso ser Deputado» ou «não vai ser um novato a liderar-me». Preocupam-se em apontar defeitos, em criar intrigas e em desenvolver teorias da conspiração que reduzam a importância dos novos, em vez de se adaptarem e disponibilizarem para a mudança. Preocupam-se excessivamente com o perigo que correm, quando se deviam antes concentrar no que raio têm feito ao longo dos anos e que fez com que os seus partidos estagnassem ou perdessem o seu espaço.

Pergunto: se quem me lê tivesse de optar, o que preferia: insistir teimosamente na tribalização dos partidos políticos por via da antiguidade - porque a antiguidade deve garantir cargos independentemente do mérito - ou apostar na inovação e na regeneração,  não só por tal ser necessário para a evolução e sobrevivência do próprio movimento, como também por impedir que a «velha guarda» insista nos vícios e nos erros do costume que já demonstraram que não levarão a lado algum? Devemos ter respeito pela antiguidade e por quem deu o seu melhor (independentemente do resultado atingido), mas não devemos tornar como sagrado este critério sob pena de nos tornarmos injustos até com os próprios que se pretendem arrogar desta característica: afinal, existe maior prova de desconsideração por alguém com tantos anos de casa do que resumir a importância dessa pessoa a um número? Em nome do próprio corporativismo, protejamos a «espécie» decorrente de uma determinada comunidade e apliquemos o critério do mérito. É a melhor prova de reconhecimento que podemos ter com os mais antigos: valeu a pena fazerem parte deste projecto durante tanto tempo, pois hoje honramo-lo e continuamos a primar pela excelência!

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