segunda-feira, 28 de maio de 2012

Oh Relvas, oh Relvas...Bijagós à vista!

Tenho por hábito não tomar partido numa contenda sem antes conhecer as versões das partes em confronto. Tal como muitos, não «aprecio o estilo» de Miguel Relvas. De início, decidi esperar para que se pronunciasse exactamente para impedir que lhe traçassem uma imagem de injustiçado que foi sacrificado em prol de «interesses difusos». Diz a experiência que estes injustiçados, quando ocupam cargos de relevo na nossa sociedade, costumam regressar por uma porta grande.

Tal como muitos, não me importaria que Miguel Relvas saísse de cena, desde que não ouse voltar. Exactamente por isso, esperei que lhe fosse concedida a oportunidade de se inocentar (e esperar por outra oportunidade) ou de se queimar. A sua ida ao Parlamento não correu bem. Depois de se pavonear ao mesmo tempo que clamava inocência, caiu numa série de contradições comprometedoras que noutro país, que não Portugal, teriam resultado na sua demissão. Aliás, em países política e socialmente evoluídos, a suspeição com base em factos objectivos determinaria o pedido de demissão do visado, mais não fosse por uma questão de honra. Enquanto nestes países a suspeição afecta seriamente a imagem de alguém, em Portugal, ser-se arguido é uma honra. Aliás, em Portugal, personalidade influente que não tenha sido arguida ou sobre quem não tenham recaído suspeitas da prática de irregularidades/crimes não é influente, não é nada. Ser-se arguido ou suspeito só está ao alcance dos grandes. Faz parte da construção do próprio estatuto.

A polémica instalada em torno de Miguel Relvas continua a ser alimentada pelo próprio e expõe ao exterior um país semelhante à Guiné-Bissau, onde vale tudo. Em Portugal podem fazer-se pressões sobre jornalistas e padecer da síndrome do namorado traído que ameaça pôr na internet o vídeo de sexo com a namorada. Em Portugal, pressionar jornalistas e mentir é sinal de estatuto: «cuidado com o Relvas que o gajo é que manda nisto e mete toda a gente na ordem». Na Guiné-Bissau, os políticos lideram redes de tráfico de droga a olhos vistos da mesma forma que alguém fuma um cigarro em público. Na Guiné-Bissau, liderar uma rede de tráfico de droga é sinal de estatuto. Os dois países têm, porém, uma diferença: em Portugal só não há golpe de Estado porque os militares recebem doces e miminhos de José Pedro Aguiar Branco, mais uma nomeação política mandatada com um único objectivo: manter os militares calmos. Um doce dado aos militares está disponível aqui.


Desde o início que afirmo que Miguel Relvas é o cérebro deste PSD. Não era muito difícil constatar tal facto, senão vejamos:
  • A pasta ministerial dos Assuntos Parlamentares é, habitualmente, o reconhecimento oficial do lóbi político (vejam-se os casos de todos os que já ocuparam esta pasta). Ainda assim, não me espanta que, em tempos de austeridade, a troika não tenha imposto poupanças com ministros e respectivos gabinetes que tenham como função as relações públicas: afinal, é através de uma pasta de aparentes fait divers que um Governo pode garantir a sua estabilidade e sobrevivência. Com uma pasta temática era mais complicado dedicar tempo ao lóbi.
  • Relvas é o estratega. Ele orienta, ele conduz, ele lidera, ele fiscaliza, ele define a rede. Passos Coelho apenas dá a cara. Para aqueles que duvidam da importância de Miguel Relvas, é fundamental a leitura deste artigo. Porém, ao contrário do autor, sou do entendimento que Marcelo Rebelo de Sousa é uma pseudo-antena do regime que tentou dar uma ajuda ao «abate ao Relvas». Pelo contrário, Marcelo Rebelo de Sousa é uma espécie de Midas a contrario: sempre que abre a boca estraga o rumo que um determinado acontecimento está a levar. Marcelo é uma celebridade com horário nobre e já há muito que deixou de ser o fazedor de opinião/influente que era.

Com a morte cerebral de nada adiantam as reanimações. Morreu. Se Relvas cair, não será o único: Passos Coelho e o Governo passam a depender da máquina para sobreviver. Talvez por isso o CDS tenha ajudado a adiar a possível queda de Miguel Relvas ao contribuir para o chumbo do pedido de audição de Miguel Relvas no Parlamento. Não é só o PSD que sai do Governo, é também o CDS. É uma opção legítima que não compromete o partido, mas não foi tomada de ânimo leve.

O importante neste caso, parece-me, é ganhar tempo. O processo de Relvas na ERC muito ajuda nesse sentido. Tal como qualquer outra polémica em Portugal, país de brandos costumes, com o tempo tudo passa, como se nada se tivesse passado. Relvas só tem de resistir mais alguns dias, até ao início do Euro'2012: quando Portugal começar a sua campanha na competição, as atenções estarão concentradas no que farão Cristiano Ronaldo e companhia. Com sorte, a selecção portuguesa até tem uma boa prestação, Relvas ainda vai ver uns jogos à Ucrânia e ninguém vai querer ouvir mais sobre pressões a jornalistas. Talvez tenha sido por estar ciente disso que Relvas afirmou hoje «vou sair mais forte deste caso». É bem possível que saia.


Vistas bem as coisas, pressionar jornalistas como forma de reagir à pressão é algo perfeitamente natural, seja em Lisboa, na Madeira, em Moscovo ou em Minsk. Porém, de duas coisas tenho a certeza: ninguém pede desculpas sem antes ter feito asneira e reagir a uma potencial pressão com outra (mais severa) só demonstra que Miguel Relvas não sabe reagir à pressão. E quem não sabe reagir à pressão não estará à altura de exercer funções como as que Miguel Relvas exerce actualmente. Na classe operária, um erro destes resultaria, quase de certeza, em despedimento do funcionário e por muito menos caiu o Governo de Santana Lopes, em 2004.


Nota 1: Apesar de tudo o que foi dito, não consegue deixar de me fazer espécie a preocupação da bancada socialista com a alegada actuação de Miguel Relvas. Até Augusto Santos Silva passou a ser justiceiro da transparência! Provavelmente temos aqui um típico caso de profissionais que se sentem ofendidos por amadores que profanam «a arte».

Nota 2: Alguém ainda terá de me explicar o que quis Telmo Correia dizer com «o Ministro não recebeu, não pediu, nem teve nenhum interesse em ter matéria que fosse classificada». Estaria a repetir as declarações de Miguel Relvas? Esteve Telmo Correia com o Ministro 24 horas por dia ao longo dos últimos 3 anos, ao mesmo tempo que aprendeu a ler os seus pensamentos e intenções, para poder fazer tal afirmação? Ou é este um caso em que o CDS assume, gratuitamente, a defesa de quem se devia saber defender?

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