terça-feira, 15 de maio de 2012

Desequilíbrios entre salários de gestores e trabalhadores: o debate com António Pires de Lima

Há cerca de dois meses, durante um evento do CDS-PP no Seixal, tive a oportunidade de fazer uma intervenção junto de António Pires de Lima e Nuno Magalhães, manifestando a minha objecção à política de severa austeridade que está a ser seguida sem quaisquer planos de crescimento económico, os quais são fundamentais não só para manter o barco à deriva como para lhe atribuir um motor que nos leve aonde quisermos.

Neste mesmo evento, indiquei que a austeridade não é o único factor de agravamento para as famílias, mas também a crescente desigualdade ao nível salarial entre gestores e trabalhadores constitui motivo de aumento das dificuldades, sobretudo quando notamos que os gestores auferem cada vez mais e, sob o pretexto da crise, aplicam cortes agressivos com os custos para poderem auferir ainda mais. Ora, a prossecução do lucro é mais do que legítima no sector privado, mas jamais quando este enriquecimento é feito através do sacrifício das famílias de trabalhadores que, honestamente, contribuem para os bons resultados da empresa. Urge, assim, a necessidade de combater estas desigualdades.

Neste sentido, dei como exemplo a norte-americana Walmart, cujo Presidente do Conselho Executivo aufere mais numa hora do que os seus funcionários num ano. Mais acrescentei que, segundo um estudo conduzido em 2010, o gestor/administrador médio auferia 30 vezes mais que um trabalhador, na década de 1970, enquanto que, actualmente, aufere 319 vezes. Tal significa que num espaço de aproximadamente 40 anos, o desequilíbrio entre trabalhadores e administradores agravou-se significativamente (superior a 100 vezes). Devíamos ter evoluído e não regredido. Caminhamos para um mundo melhor? Estou certo que não. E a Europa (onde Portugal não constitui excepção) é o mero reflexo deste quadro vivido nos Estados Unidos.

A reacção de Pires de Lima à minha intervenção não podia ter sido mais surpreendente ao dizer que «não é intelectualmente honesto comparar-se o exemplo dos Estados Unidos com o da Europa, sendo que no primeiro uma única pessoa pode auferir, por vezes, milhares de milhões de dólares num ano, o que na Europa é quase impensável... já para não falar na filosofia que guia o empreendedorismo num e noutro». Concordo que os valores ao nível singular, nos Estados Unidos, atingem números pouco prováveis de conseguir atingir na Europa, porém, a diferença entre classes não deixa de ser igualmente gritante. Aliás, podemos falar dos casos de António Mexia, Zeinal Bava e do escolhido dos chineses para a EDP, Eduardo Catroga. Comparemos a disparidade entre o salário de qualquer um destes gestores e os seus empregados e constatemos que, em alguns casos, o gestor aufere cerca de 100 vezes mais do que o empregado. Comparemos agora a diferença média registada em Portugal, a qual, segundo o Editorial de hoje do Público já é de 44 vezes mais tendo aumentado 18,2% em apenas dois anos.

Parece que, afinal, eu tinha razão e Pires de Lima não estaria certo quando me acusou de desonestidade intelectual por comparar os Estados Unidos com a Europa. A diferença acentua-se e a tendência é para continuar. E permanecem ainda por atacar - não se vislumbrando qualquer alteração nos próximos tempos - as causas que levam a esta diferença galopante e que permitem que meia dúzia de personalidades enriqueçam em boa parte à custa de cortes e sacrifícios de consumidores e famílias. Um desses exemplos é o da Galp que, em 2010, registou lucros de €251 milhões de euros e pagou €1,33 milhões em salário ao seu Director Executivo ao mesmo tempo que encerrou 37 postos de abastecimento e lançou 292 pessoas para o desemprego! A desonestidade intelectual está aqui, com a inércia do Primeiro-Ministro e do Ministro da Economia, que insistem em não combater tanto as desigualdades existentes como os excessos de meia dúzia de gestores que insistem em enriquecer desmedidamente graças aos que estão na base da pirâmide e, impotentes, pouco podem fazer. É isto que temos de mudar! É preciso reduzir o fosso entre a base e o topo. Afinal, estamos no século XXI e temos a obrigação de evoluir enquanto seres inteligentes, sociais e destinatários de direitos, liberdades e garantias.

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