segunda-feira, 9 de abril de 2012

Paulo Portas, o «presidenciável».

Quem estiver minimamente atento à forma de estar de Paulo Portas desde que iniciou funções como Ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros (MNE) chega imediatamente a uma conclusão: não é o mesmo Paulo Portas que estava na oposição. Não quero com isto dizer que tem duas faces, mas não é o mesmo Paulo Portas que estava na oposição. Desde logo, a sua página de Facebook foi abandonada, não é actualizada pelo próprio desde 7 de Julho de 2011 e serve agora de muro das lamentações e de agressões (verbais) por parte de quem o admira(va) e de quem o detesta(va). Até à sua nomeação, era vê-lo utilizar (de forma muito eficiente) o Facebook, que o ajudou a difundir a sua mensagem e a chegar ao destinatário. A rede social funcionava como espécie de feira virtual: ele chegava às pessoas, contactava com elas, elas identificavam-se com ele e conseguia aqui reunir mais adeptos, sobretudo os anónimos que noutras circunstâncias não tinham capacidade/coragem para chegar até Portas.

Lamentável continua a ser a recordação da história dos submarinos. É o único tema com o qual é verdadeiramente confrontado, numa tentativa de lhe ser imputado um alegado crime. Quem ainda ousa falar do tema com o intuito de o agredir não conseguiu perceber que ao fazê-lo só lhe dá mais força: ainda que Paulo Portas tenha rabos de palha na questão dos submarinos, não deixaria de ser louvável termos no poder um político cujo único telhado de vidro passa pela compra de 2 submarinos, há já quase 10 anos. Não sei quantos políticos se podem gabar do mesmo. Factos novos contra Paulo Portas exigem-se. No caso dos submarinos, em que tanta gente ainda insiste, Paulo Portas não passa entre os pingos da chuva. Mais não seja porque esta já passou há muito tempo e não foi tão severa quanto muitos queriam que fosse.

Fora da internet, o comportamento de Paulo Portas também se alterou significativamente. Deixou de visitar as feiras, onde se sentia como peixe na água, e onde poderia capitalizar ainda mais a sua popularidade. Embora se compreenda que a exigência das novas funções o impeçam de visitar estes locais com a mesma frequência com que o fazia, não se compreende porque motivo deixou de o fazer por completo, sobretudo quando o contacto com as massas, estando Portas no poder, certamente trariam dividendos a si e ao CDS.

Outra alteração comportamental em Paulo Portas está ainda patente nas suas intervenções públicas. Portas não era um arruaceiro, mas era acutilante nas críticas que fazia ao Governo. Não raras vezes, recorria à ironia para passar (e bem) a sua mensagem. Agora, temos um Paulo Portas calmo, ponderado, que fala o mínimo possível. Parece um Paulo Portas mais distante daquele com que se identificaria o português comum. Temos um Paulo Portas de Estado, parco em palavras e alheio a polémicas, não apenas enquanto MNE mas também como líder do partido.

Porém, censura-se o facto de muitos problemas do passado se manterem no presente e agora Paulo Portas e, consequentemente, o CDS se reservarem ao silêncio. Neste sentido, um dos casos mais recentes diz respeito aos preços dos combustíveis. Recorde-se aqui a posição que Portas defendia, em 2008, quando os preços dos combustíveis eram inferiores aos de hoje. Paulo Portas, agora no poder, tem o dever de agir, ou, pelo menos, intervir para que seja feito por quem tem competência para tal. Mas, não. O MNE está agora de tal forma reservado que não só não se lhe conhecem críticas à forma como o PSD tem gerido (mal) os problemas do país, como concentra-se apenas nas competências reservadas ao CDS, quer ao nível das 3 pastas ministeriais, quer ao nível das secretarias de Estado.

Como eu já tinha dito neste mesmo espaço, em Agosto de 2011, a estratégia seguida é a de fazer o melhor possível nas suas pastas e deixar que o PSD governe as suas, sem interferência. Pelo meio, a alteração de comportamento de Paulo Portas com o eleitorado, com os partidos políticos e com a comunicação social vai fazendo a diferença. Paulo Portas fala pouco (mas bem), deixou de ser cáustico (mas assertivo), é sério (raramente ou quase nunca sorri), tem tido um excelente desempenho na diplomacia (fazendo mesmo de Ministro da Economia nas horas vagas) e é uma espécie de pacificador (pondo a água na fervura sempre que a polémica ameaça estalar no Governo). Com efeito, é Paulo Portas quem estabelece a ponte entre o CDS, o PSD e os média. Veja-se a forma como Paulo Portas geriu a polémica em torno de Nuno Magalhães com a sua alegada ligação à maçonaria e como pulverizou a discussão sobre o sentido de voto de Ribeiro e Castro. Foi rápido, conciso e eficiente. Mais importante ainda, veja-se Paulo Portas no congresso do PSD, sublinhando a solidez e coesão do Governo. Normalmente são destacados pesos pesados dos partidos para estes eventos, mas o líder, quando no poder, é raro. Portas marcou presença e eliminou qualquer tensão no Governo, reforçando a união e solidariedade entre os seus membros. Foi Paulo Portas quem evitou que a comunicação social se alongasse em torno de eventuais polémicas entre os dois partidos ou com ministros independentes. Portas pronunciou-se e o assunto ficou arrumado.

Ciente das limitações que tem por integrar um partido de média/pequena dimensão que insiste em não dar o salto por culpa própria - isto ficará para um outro tema, embora já tenha sido ligeiramente abordado neste artigo -, Paulo Portas sabe que dificilmente chegará a Primeiro-Ministro. Verdadeiro «animal político», se estivesse num partido como a máquina do PSD (ao qual já esteve ligado) seria Primeiro-Ministro durante, pelo menos, dois mandatos completos. Num CDS nos actuais moldes é muito pouco provável que tal venha a acontecer. Porém, tem um cargo ao qual pode ambicionar sendo líder do CDS, alternativa essa que o poderá manter ligado ao poder e é tão ou mais prestigiante quanto ser líder de Governo: a Presidência da República. Para já, com a sua alteração comportamental, Paulo Portas tem tudo a seu favor e a sua aposta poderá mesmo levá-lo a olhar para o cargo de Chefe de Estado: tem sentido de Estado, é sério, é profissional, é dedicado às causas que abraça, é patriota, fala o suficiente e assume-se como unificador e moderador.

Esta nova imagem de Paulo Portas torna-o no mais «presidenciável» dos políticos portugueses à direita do PS, à qual devem ainda ser considerados factores como (i) uma comunicação social que lhe é altamente favorável (e todos sabemos o quanto isso é fundamental para lá chegar), (ii) as divisões no PSD em torno de diferentes candidatos (Marcelo Rebelo de Sousa e Durão Barroso não convencem), (iii) o apoio incondicional à liderança do PSD no Governo e ainda (iv) ter mais duas dívidas por cobrar ao PSD: a subscrição das duas candidaturas de Cavaco Silva para a Presidência da República (em 2006 e 2011) - estando ou não os cavaquistas em desgraça, é certo que este sempre foi o candidato do PSD.

Para prosseguir este objectivo, Paulo Portas tem alguns procedimentos a cumprir: (i) abandonar, formalmente, a liderança do partido em 2013 (embora tal possa acontecer só em 2015) e permanecer em funções ministeriais até 2015, lançando na sua sucessão alguém que, mesmo não sendo da sua inteira preferência, estará directamente rodeado pela sua ala e seja popular e seja alternativa credível nas legislativas de 2015 - Nuno Melo é, talvez, a melhor opção e lançá-lo mais tarde poderá reduzir o período de visibilidade que necessitará; (ii) insistir no mesmo padrão comportamental, como forma de consolidar a imagem que construiu neste pouco tempo; (iii) conseguir um resultado digno nas legislativas de 2015 (com maior ou menor dificuldade, acredito que é provável que o Governo cumpra o seu mandato) e negociar nova coligação com o PSD, surgindo mais um favor por cobrar aos sociais-democratas; (iv) manter-se activo junto da comunicação social durante a campanha e após as eleições, acabando por fazer uma aposta na sua candidatura.

Se tudo isto acontecer, ou muito me engano ou Paulo Portas será candidato às Presidenciais de 2016 com o apoio do PSD, o que poderá ter um final mais feliz do que muitos podem julgar à primeira vista. Uma coisa é certa, ficar-se pelos Negócios Estrangeiros é manifestamente insuficiente para alguém com a ambição e capacidade de Paulo Portas. Portas não é mais um político a nomear para a administração de uma qualquer empresa no futuro. Paulo Portas é um «animal político» e precisa de mais.

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