quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Passos Coelho, Paulo Portas e as privatizações.

Antes das eleições de 5 de Junho de 2011, Pedro Passos Coelho defendeu que a estratégia do Governo incluir um «quadro de privatizações alargado, não apenas com necessidade de ir buscar dinheiro, mas também de forma a traduzir uma forma de o Estado não se envolver com aquilo que não lhe diz respeito». Tais argumentos foram dados querendo fazer crer que as privatizações iriam permitir «pagar a dívida».

Agora, juntos no Governo, a opinião de ambos converge com as ambições do PSD e com o acordo celebrado com o triunvirato e Paulo Portas até já incentiva terceiros a apostarem nas privatizações portuguesas. Passados mais de 6 meses desde que embarcou na aventura da coligação com os sociais-democratas, o CDS ainda só se manteve fiel a meio motivo dos 7 que deu, em Maio de 2011, para que os eleitores votassem CDS e não PSD, nomeadamente o comprometimento com a questão social. Já quanto a outro factor que marcava a diferença entre PSD e CDS (a presença de gestores do primeiro partido nas empresas públicas), a questão parece cada vez mais contornada com a sucessiva nomeação de quadros centristas para empresas públicas, privadas e a privatizar. Os casos da Caixa Geral de Depósitos, da EDP e das Águas de Portugal permitem concluir que em vez de ser o CDS a trazer o PSD para o lado dos bons, o que aconteceu foi exactamente o oposto: o miúdo mau conseguiu desviar o miúdo conhecido pelos bons costumes. Outrora repudiado, o comportamento desviante é agora politicamente aceite. Lá vai mais uma promessa eleitoral de ambos os partidos: tirar o Estado da economia.

Agora que se adivinha a privatização da REN, questiona-se, desde logo, quem serão os novos nomeados pelos accionistas, até porque se voltarem a ser chineses a adquirir a REN, diz-se por aqueles lados que o uso da cor-de-laranja traz sorte nos negócios. Porém, parece-me que o valor anunciado para a venda da REN fica muito aquém do prometido por Pedro Passos Coelho quando garantira que as privatizações deviam gerar receitas. Pense-se neste caso: os 600 milhões de euros anunciados da venda da REN representam apenas 0,77% num universo de 78 mil milhões de euros. Mais: alguém parece estar a esquecer-se que, aquando da privatização do BPN, ficou acordado que o Estado recapitalizaria o banco em 550 milhões de euros, o que ainda está por acontecer. Ou seja, Portugal aceita alienar a sua participação numa empresa com interesse estratégico para ganhar 50 milhões de euros (0,06% do que devemos)!

Afinal, o que temos nós (Portugal) a ganhar com a privatização da REN, sabendo-se que outros Estados-Membros da União Europeia mantêm golden shares e empresas públicas? Se Paulo Portas temia que se alienasse património estratégico ao desbarato, aproveitando-se os compradores da nossa fragilidade financeira, porque compactua o CDS com a estratégia seguida pelo Governo? Como é possível prosseguir uma estratégia de alienar património a desconhecidos que nos manterão reféns dos seus interesses e motivações e até dos acontecimentos políticos nos seus países de origem? Finalmente, se se pretende retirar o Estado da economia, porque se continua a «enxamear» as empresas de interesse estratégico com quadros partidários? Onde está a promessa (mais uma) de promover os mercados concorrenciais em Portugal?

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