domingo, 11 de dezembro de 2011

Sobre o Irão e as alegadas armas nucleares.

Há já alguns anos que muito se fala sobre o Irão, um país encantador sob o ponto de vista histórico, geográfico e social, mas polémico no que a política diz respeito. A aposta de Teerão num programa nuclear não data do século XXI, antes da década de 1950, contando, para este efeito, com o apoio dos Estados Unidos da América. Após pressões do agente instigador, o Irão suspenderia o seu programa nuclear em 1979 e só viria a manifestar a intenção de retomá-lo a partir de 1995.

Com a ascensão de Mahmoud Ahmadinejad ao poder, em Agosto de 2005, o Irão reforçou a sua aposta no programa nuclear, o que dispararia um alerta sobre a possibilidade de construir uma arma nuclear que, em caso de eventual conflito com algum país da região, entre os quais Israel. Estes receios internacionais - que não se compreendem quando sustentados no argumento de apenas alguns países poderem ter armas nucleares, estabelecendo uma hierarquia desequilibrada entre Estados - levariam os Estados Unidos e, em geral, o Ocidente, a perpetrar uma campanha em favor da queda do regime de Ahmadinejad, sendo disso exemplo, além das sucessivas iniciativas em sede de Nações Unidas, o caso grosseiro de ingerência nas presidenciais iranianas de 2009, pressionando o regime a imprimir reformas sob o pretexto de terem ocorrido casos de fraude eleitoral. Na vanguarda destas alegações estiveram os norte-americanos, os tais que levaram George W. Bush ao poder em 2000 e 2004 com recurso à fraude eleitoral.

Desde então, o programa nuclear iraniano tem continuado a ser alvo de denúncias da Comunidade Ocidental - existindo já seis resoluções das Nações Unidas e sanções internacionais -, verificando-se mesmo mortes acidentais de cientistas iranianos peritos em assuntos nucleares, as quais não merecem qualquer tipo de reacção das instituições e organismos internacionais que tanto professam os Direitos Humanos e o respeito pelas soberanias dos Estados. Contudo, Portugal, que tende a adoptar uma política de neutralidade, sem menosprezar as alianças com os seus principais parceiros, tem evidenciado manter relações saudáveis com o Irão, facto ilustrado pela decisão de receber o Ministro dos Negócios Estrangeiros (MNE) do Irão (mesmo apesar dos protestos israelitas), em 2010, e de Cavaco Silva ter apelado ao reforço das relações luso-iranianas aquando da acreditação do novo Embaixador iraniano em Lisboa, em Outubro de 2011, o que parece constituir um paradoxo quando o MNE Paulo Portas defende «sanções reforçadas» ao Irão.


Na verdade, apesar do reforço do alarmismo e de parecer não existirem dúvidas sobre a prossecução de um programa nuclear pelo Irão, continua por provar que este país (i) tenha, sequer, intenções de produzir armas nucleares, (ii) quanto tempo demoraria a produzi-las ou (iii), uma vez produzidas, qual será o fim que lhes quererá dar. Em última análise, poderá dar-se mesmo o caso de praticamente tudo o que tem sido dito sobre o Irão se confirmar, mas o regime local conferir carácter meramente defensivo às referidas armas, disponibilizando-se a usá-las apenas em caso de ataque. A psicologia diz que as acusações de possíveis comportamentos desviantes a um terceiro que não indicia tal comportamento na verdade reflecte a capacidade do acusador para adoptar tais comportamentos, o que justifica as acusações por parte de alguém que teme que tal se verifique num terceiro. Não querendo fazer afirmações categóricas sobre algo que só as entidades envolvidas sabem verdadeiramente, o comportamento dos Estados Unidos parece ser reflexo da psicose ora descrita. Na verdade, há já várias décadas que vários peritos prevêem que o Irão terá acesso a armas nucleares ao fim de um determinado período de tempo, o que não só nunca se concretizou como ainda continua por confirmar que alguma vez acontecerá.

Contudo, alguns destes mesmos peritos (e outros quantos) na matéria continuam a afirmar com considerável grau de certeza que o Irão está a produzir armas nucleares. Existirá o interesse destes actores em promover uma nova guerra no Médio Oriente. Por mais paradoxal que pareça (ou talvez não), um dos maiores difusores desta corrente é o Primeiro-Ministro Benjamin Netanyahu que não só insiste na teoria de diabolização de Ahmadinejad e na analogia entre o Irão e a Alemanha nazi (enquanto agentes dispostos a exterminar os interesses judeus) como recorre a tais argumentos para adiar a negociação em torno da criação de um Estado palestiniano que, segundo Israel, muito provavelmente será instrumentalizado contra o próprio Estado sionista.

Ao lançar uma ameaça, por mais improvável que esta seja, é possível granjear o apoio de alguns actores influentes que quererão evitar a todo o custo a concretização de tal cenário, nem que seja pelas dúvidas plantadas pelo agente orquestrador de um plano que tutele os seus interesses. Pelo meio, ignora-se algo tão simples e eficiente quanto a diplomacia equilibrada e imparcial, sem influência das partes envolvidas e com consideração pelas especificidades de cada um dos interesses em disputa. E isto só se conseguirá através de Estados suficientemente independentes que sejam igualmente potências regionais e não se deixem influenciar por qualquer um dos interesses em disputa. Caso contrário, a corda vai acabar por rebentar e remediar os danos causados e os ódios gerados por este acontecimento será um esforço que tenderá a protelar-se por muitas mais décadas até que se verifique um verdadeiro equilíbrio de poderes ao nível global.

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