segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Grupo Técnico para a Reforma Hospitalar: enviar utentes para casa, sem avaliação, pode correr mal.

A minha área não é a saúde, mas sou utente e tenho experiência, família, amigos e conhecidos. Tanto quanto sei de alguns médicos (e até da própria Ordem), partilham a minha estranheza relativamente aos resultados do grupo técnico para a reforma hospitalar, pelo menos, relativamente à ideia de remeter doentes triados como «não urgentes» para os centros de saúde de forma a descongestionar os hospitais.

Considerando que (i) os centros de saúde não funcionam 24h por dia, que (ii) o paciente não é médico para saber se o que tem é ou não urgente - e, consequentemente, poder recusar a avaliação na triagem - e (iii) que a triagem não permite avaliar, com precisão, o que tem o utente, antes permite ter uma primeira impressão com base em sintomas, a maioria dos quais, descritos pelo doente, deixando dúvidas sobre o problema real, pergunto: que pertinência e responsabilidade existem na iniciativa de mandar para casa e esperar pela abertura do centro de saúde alguém que alegadamente padece de uma doença que ninguém sabe ainda o que é e que tem como principal base a intuição do profissional de saúde?

Mais acresce que os centros de saúde não estão devidamente preparados para procederem sequer a uma triagem competente quanto mais poderem pronunciar-se sobre o estado de saúde de um paciente que visita um hospital numa situação de urgência. Se o utente necessitar de algum cuidado urgente, nunca o terá atempadamente e o problema pode até agravar porque o médico do centro de saúde terá de conduzir o paciente para clínicas de especialidade na maior parte das situações. Perde-se, assim, a oportunidade de debelar a ameaça atempadamente.

Finalmente, temos dois últimos problemas: a quem se dirigem aqueles que nem sequer médico de família têm? E os que sofrem represálias ou perdem dias de trabalho por dedicarem uma manhã inteira (ou um dia) num centro de saúde onde as consultas são, por base, marcadas com antecedência e aos utentes provenientes de urgências hospitalares não resta outra solução que não aguardar por uma vaga? Será seguro e negligente esperar 24h ou 48h para se ter a certeza sobre se a triagem tinha razão de ser? Parece-me óbvio que a resposta a todas estas perguntas tem de ser negativa.

Não consigo compreender este Estado que aceita trocar direitos fundamentais como o direito a cuidados de saúde por questões contabilísticas, quando deveria construir mais hospitais onde estes são realmente necessários (veja-se o caso do há muito prometido hospital do Seixal) e cortar onde é realmente necessário. É preciso lembrar que uma dor de costas crónica não é uma situação que justifique a urgência, mas o agravamento súbito dessas dores pode ser um caso de urgência; náuseas durante meses pode não justificar uma urgência, mas o aumento da intensidade dessas náuseas ao ponto de provocarem desmaios pode justificar a urgência. Poderá uma simples triagem hospitalar garantir que estas dores e náuseas crónicas não escondem, por exemplo, um tumor? Será a saúde semelhante à roleta de um casino, na qual o Estado aposta e tira as fichas que bem entende, sem sequer ponderar os riscos? Estou em crer que todos concordarão comigo no sentido de responder a estas questões de forma negativa.

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