sexta-feira, 14 de outubro de 2011

O CDS-PP e o Orçamento do Estado 2012: começa a ser difícil até para os mais fervorosos.

Assisti com alguma apreensão à reacção pública do CDS-PP ao anúncio das principais linhas do Orçamento do Estado para 2012. A primeira reacção, de Nuno Magalhães, foi de resignação à austeridade que aí vem. Não se conhece mais nenhuma resposta de ministros, secretários de Estado ou deputados do partido. Porém, julgo que os portugueses deviam saber qual foi o sentido de voto do CDS-PP na reunião do Conselho de Ministros e a motivação para tal. O silêncio não é a melhor opção e prova disso é um artigo do jornal Sol de hoje que cita uma fonte anónima do partido que começa com a declaração explosiva «estamos solidários» ao Orçamento do Estado. Ou seja, a imagem que se tenta passar ao eleitor é a de que o CDS-PP subscreve, sem reservas, o que ontem foi anunciado por Pedro Passos Coelho.

Independentemente da credibilidade da notícia, seria importante esclarecer o que realmente pensa um partido que ressuscitou depois da razia de 2005 e tem vindo a desenvolver bases de projecção nacionais muito interessantes, ao ponto de crescer de ano para ano e consolidar a sua posição em meios que outrora eram hostis, sendo disso exemplo Setúbal. Para dar continuidade à expansão do CDS-PP, o partido não pode reservar-se ao silêncio e invocar a solidariedade política a que se encontra vinculado para perder a sua identidade e conferir maioria ao PSD para aprovar medidas que ainda até há alguns meses atrás eram impensáveis, como os cortes nos subsídios de férias e de Natal. É manifestamente insuficiente destacar o que não foi aprovado mas poderia ter sido como a tributação de subsídios em sede de IRS, entre os quais o de desemprego. É preciso ir mais longe. É preciso mostrar que o CDS-PP é autónomo e não refém do PSD. Acima de tudo, é preciso mostrar que o CDS-PP que estava na oposição sabe ser poder e isso só se faz através do cumprimento de promessas eleitorais e não através da passividade e subserviência ao parceiro de coligação, até porque quem ganhou as eleições é que deve estar refém daquele que lhe poderá dar verdadeira maioria.

Menos de cinco meses após a tomada de posse, o CDS-PP mantém um comportamento muito certo e empenhado nas pastas que tutela, mas começa a perder a sua identidade dando ares de se tratar de um partido satélite dos sociais-democratas. Aquele que era o único partido que fazia uma oposição competente, chegou a ordenar a saída do Primeiro-Ministro e mostrava o caminho para tirar o país da crise é agora um partido irreconhecível, fechado, silencioso e com algumas intervenções infelizes. Até já chegámos ao ponto de ver Assunção Cristas - mulher inteligente, diferente, capaz, independente e competente - a defender o impensável em nome do PSD e da «solidariedade política». A intervenção de Nuno Magalhães, ontem, foi outro sinal da apatia que reina no partido neste momento: pela primeira vez vimos o líder da bancada parlamentar do CDS-PP resignado, abatido e à procura de palavras para mostrar desilusão sem comprometer a coligação, o que é um claro sinal de que não se identifica com o caminho que está a ser seguido.

A solidariedade política tem de ter limites e se o CDS-PP continuar a perder identidade tal tenderá a reflectir-se na sua relação com o eleitorado. Começa a ser difícil, até mesmo para os militantes mais fundamentalistas. O trabalho de anos poderá ruir novamente e duvido que se volte a reerguer em tão pouco tempo, mais não seja porque esta é a segunda e derradeira oportunidade para Paulo Portas mostrar ao país a excelência, competência e inteligência que o caracterizam enquanto homem e político. Insisto: a solidariedade política tem limites e se o CDS-PP tiver de renunciar aos cargos políticos que tem actualmente a bem do seu compromisso com o eleitorado, assim terá de ser, limitando-se a celebrar acordos pontuais com o PSD nas matérias em que tal se justifique. Quer acreditem, quer não, será por esta via que o CDS-PP continuará a sua tendência de crescimento, mais não seja porque os portugueses reconhecerão o mérito da decisão e a seriedade do partido na gestão da actual situação do país.

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