domingo, 9 de outubro de 2011

Eventual aumento do preço da água representará uma derrota para Assunção Cristas.

Aumentam os rumores e por enquanto não passam disso: o preço da água poderá vir a aumentar e este cenário até já é admitido pela própria Ministra da Agricultura, do Mar, do Ambiente e do Ordenamento do Território (MAMAOT), Assunção Cristas. Pelo que se lê nas entrelinhas, parece que a Ministra pouca ou nenhuma influência tem nesta questão. Ainda assim, o argumento que utilizou para justificar o aumento - «é um recurso que tem de ser devidamente valorizado [...] a água custa dinheiro» - parece, no meu ponto de vista, uma ofensa à inteligência do português médio.

Que a água custa dinheiro, todos sabemos disso, sobretudo quando qualquer um de nós recebe as facturas para pagar. Com o aumento do preço da água corremos o risco de regressar à antiguidade - sobretudo se considerarmos os escandalosos aumentos com a electricidade e com o gás - quando os nossos antepassados tomavam banho uma vez por semana (primeiro o pai, depois a mãe e, finalmente, os filhos, todos eles com a mesma água, porque lhe dão o devido valor). Com este aumento, os portugueses passarão a valorizar o preço da água, sem dúvida, mas vai ser difícil produzir, para melhorar a economia nacional, em ambientes onde o cheiro proveniente do «calor humano» é relativamente pesado. Andar de transportes públicos vai ser uma maravilha: pagamos mais pelo passe e o cheiro far-nos-á lembrar que valeu a pena o aumento. No âmbito da ideologia do PSD de «produzir mais com menos recursos», até já antevejo um novo mote para os trabalhadores: «produzir mais com menos suor».

Voltando a Assunção Cristas, sou admirador confesso do seu trabalho, da sua vontade e da sua capacidade, mas reconheço que o eventual aumento do preço da água representará uma derrota para a Ministra, ainda que dela não dependa exclusivamente este aumento. A coligação e a solidariedade governativa têm limites e o CDS-PP não pode ser a muleta do PSD para conseguir maiorias e obstar-se a ceder e negociar com os restantes partidos, centristas incluídos. Mais inadmissível ainda é que os ministros e secretários de Estado do CDS-PP sejam meros núncios do PSD e executem propostas impopulares dos sociais-democratas, como é a privatização do Grupo Águas de Portugal (AdP), que Assunção Cristas já reconheceu como inevitável. A água, como a própria Ministra diz (e bem), é um bem público e não pode ser privatizada. Falar em privatizar a gestão das águas é o mesmo que falar em privatizar as águas e se alguém tiver dúvidas sobre isso queira, por favor, consultar a missão do AdP para a área das águas. Invocar a não privatização das águas é invocar um argumento falacioso e assemelha-se a uma possível alegação de que a privatização da EDP não implicará a transferência da electricidade para os privados, antes (e apenas) a sua gestão.

Aqui, o esquema é relativamente simples e já se viu esta estratégia para a electricidade: primeiro aumenta-se o preço do bem, para aumentar as vantagens para o potencial comprador e tornar a venda mais lucrativa para quem compra - sim, para quem compra. Uma vez adquiridas as Águas de Portugal, o novo proprietário terá margem de manobra suficiente para não iniciar funções com um aumento dos preços sobre os serviços e bens prestados, podendo dar-se ao luxo de aguardar e garantir uma boa margem de lucro.

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