sábado, 10 de setembro de 2011

A RTP, Márcia Rodrigues e a entrevista a Ahmadinejad.

Para aqueles que insistem na privatização da RTP, a passada quarta-feira deu mais um motivo para não o fazer: a entrevista da jornalista Márcia Rodrigues ao Presidente do Irão, Mahmoud Ahmadinejad. Aqueles que assistiram deverão ter ficado com a sensação de que é possível fazer um trabalho jornalístico sério e competente, sem enveredar pela futilidade que caracteriza as outras estações ou sem precisar de reservar 15 a 20 minutos para declarações de treinadores e jogadores de futebol como forma de preencher o tempo e captar o telespectador.

Márcia Rodrigues é, na minha óptica, um excelente exemplo daquilo que um jornalista deve ser, dando o nome a uma série de reportagens muito interessantes sobre política internacional. Esta foi mais uma, na qual ficou patente o entusiasmo que sentia nas perguntas que fazia: muito bem escolhidas, a maioria delas difíceis para se fazer num ambiente que poderia revelar-se hostil, fez com que o entrevistado respondesse a todas elas e da forma mais completa possível. Ao contrário de alguns que repudiam a transmissão de uma entrevista deste género em horário nobre, imediatamente após o telejornal - alegando que a RTP faz propaganda a um ditador -, eu vejo o oposto: vejo uma oportunidade de dar a conhecer aos portugueses o outro lado da moeda, a visão e os argumentos daquela personalidade sobre quem tanta gente fala (muitas vezes de forma errada), mas cujos argumentos em defesa própria se desconhecem. Falta agora a prova de fogo à isenção de Márcia Rodrigues: uma entrevista no mesmo tom a Benjamin Netanyahu.

Não víamos uma entrevista assim há muito tempo e os resultados de um trabalho desta qualidade estão à vista: embora se desconheça o share obtido pela RTP nesta noite, a entrevista correu mundo, senão veja-se aqui, aqui, aqui e até aqui, em Israel. Isto é mais do que serviço público, é também serviço de prestígio. E não são só os estrangeiros que apreciam estes conteúdos, os portugueses também - importa recordar que na década de 1980, eram os programas de cultura geral, como os de Jacques Cousteau, que lideravam as audiências televisivas.

Assim sendo, para quê privatizar uma estação que tudo o que necessita é de reorientação e também de trocar as telenovelas e os programas de estupidificação matutina e vespertina em favor de programas de cultura ou de documentários sobre os mais diversos temas? A título de exemplo, olhem para a CBS e para o seu 60 Minutes, provavelmente, o melhor programa de entrevistas e investigação que temos actualmente: não temos Lesley Stahl, mas temos Sandra Felgueiras; não temos Lara Logan, mas temos Márcia Rodrigues. Só não temos um verdadeiro 60 Minutes, mas com orientação e vontade lá chegaremos.

1 comentário:

Persona Naturale disse...

Totalmente de acordo com o que referiste. Achei engraçado teres referido a Sandra Felgueiras, pois ela mais a Márcia Rodrigues são as minhas jornalistas preferidas!
Ambas extremamente profissionais.

Bj