domingo, 11 de setembro de 2011

As 7 maravilhas da gastronomia portuguesa: a «minha» é maior que a «tua».

Depois de várias semanas de intensa campanha, eis que ontem foram votadas as 7 maravilhas da gastronomia portuguesa. Eram inicialmente 21, mas ficaram reduzidas a 7. Não compreendo o porquê de serem 21 - os nossos quase 900 anos de história parecem ter inspirado tão reduzido número de receitas - e muito menos o de haver a necessidade de se reduzir tudo a 7. Ou seja, não nos contentamos em ter as 21 iguarias - o que por si só já é questionável por terem sido escolhidas por um «painel de notáveis» - temos de encontrar as melhores entre as melhores, como se fosse possível comparar um Pastel de Nata com uma Alheira ou Amêijoas à Bulhão Pato com Pudim à Abade de Priscos. Aqueles que receberem maior número de chamadas para uma linha de valor acrescentado, ganham. Todo o procedimento é justo, diga-se

Este concurso é ilustrativo do porquê de Portugal estar como está: gostamos de burocratizar tudo aquilo que devia ser simples e comparar o incomparável. O Sistema Integrado de Avaliação de Desempenho da Administração Pública (SIADAP) é exemplo disso: vamos avaliar todos os funcionários públicos com base em critérios quantitativos, como se um funcionário da repartição de finanças pudesse ser avaliado da mesma forma que um fiscal municipal. Ontem calhou compararmos a Chanfana com Queijos Serra da Estrela, mas já fizemos o mesmo relativamente a monumentos, momento em que comparámos castelos e palácios com estátuas. Já diz o ditado que gostos não se discutem, mas nós gostamos de fazê-lo.

Em segundo lugar, este concurso é ainda revelador da feira de vaidades que domina praticamente todos os sectores da nossa sociedade. Gostamos de nos por em bicos de pés sobre os que nos rodeiam, para nos destacarmos deles. Gostamos de mostrar que temos uma galinha melhor que a do vizinho, que o nosso carro é melhor que o dele, que o nosso telemóvel é mais avançado que o dele e que os nossos filhos têm mais sucesso na escola do que os dele. Assim funciona com este pseudoconcurso de iguarias: a Câmara Municipal de Mirandela tem uma iguaria que é melhor que a de Almada e a de Lisboa tem uma maravilha e a de Olhão não. Não é suficiente que cada um tenha a sua iguaria, apreciada por todos ou só por alguns. Não. Agora teremos autarcas a defenderem com unhas e dentes o seu produto sobre os demais, tentando valorizá-los. Qualquer observador atento cruzou-se com propaganda municipal a incentivar os munícipes a votarem na iguaria local, vimos também presidentes de câmara que não podem renovar o mandato em 2013 a fazerem propaganda por outras nas quais têm ambições, ontem era ver os 7 vencedores a aproveitarem os seus 5 minutos de fama na RTP e, em 2013, será bonita de ver a utilização deste concurso em campanhas eleitorais.

Agora, aquilo que eu gostaria de ver eram mesmo os extractos da conta do telefone de cada um dos municípios envolvidos neste concurso e também a factura que o Estado pagou para organizar este concurso que não é mais do que uma feira de vaidades sem qualquer utilidade pública ou relevância e desprestígio para as centenas de iguarias que temos em Portugal e que se viram relegadas para segundo plano por este evento.

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