terça-feira, 9 de agosto de 2011

Privatizações, ou seguir a via radical quando falta talento para redefinir o modelo de gestão.

A deputada social-democrata Ana Sofia Bettencourt deu hoje uma entrevista ao jornal I. Entre outras respostas curiosas - como o erro de justificar a rejeição do casamento entre pessoas do mesmo sexo com o facto de ser católica, correndo o risco de contribuir para que a opinião popular dependa da religiosidade -, quando indagada sobre se era favorável à privatização da RTP, Ana Sofia Bettencourt disse «O mais possível. A RTP, principalmente a RTP1, terá de ser privatizada porque o serviço público não está lá reflectido a maior parte das vezes».
A resposta da deputada reflecte a ideologia que reina na São Caetano e que passa por livrar-se de tudo o que possa dar algum trabalho a colocar no trilho certo. Este pensamento é em tudo semelhante ao da dona de casa que, não sabendo o que fazer aos cortinados da sala que deixaram de combinar com a mobília nova, decide deitá-los fora:
- Mas os cortinados ainda estão novos!
- Não interessa! Lixo!
Provavelmente, com um pouco de calma, estes cortinados podem até não combinar com a disposição da sala, mas quem sabe se não podem ser aproveitados para decorar um quarto ou, porque não, até acabam por combinar com a sala se se equilibrarem as cores das paredes?
Eu também cheguei a pensar como Ana Sofia Bettencourt. Entretanto, evoluí e oponho-me hoje à privatização da RTP. É a solução mais fácil, tipicamente defendida por quem não quer perder tempo a redefinir os objectivos e o modelo de gestão da televisão ou então por aqueles que não têm talento para fazê-lo. Ser a favor da privatização da RTP «porque o serviço público não está lá reflectido a maior parte das vezes» denota dificuldades gritantes da deputada para atribuir uma nova missão à televisão capaz de maximizar os recursos da televisão pública, o que até se torna factor irrelevante quando o potencial comprador já está escolhido e, curiosamente, até tem ligações e afinidades partidárias com quem toma a decisão. Qual é a solução para isto? Vender.
Sobre «serviço público», Sarkozy alterou este conceito no que à televisão diz respeito, a BBC tem vindo a fazer o mesmo e Portugal tem condições para avançar neste sentido. Para isso, basta haver vontade política e talento daqueles que tiverem esta missão não tão complexa quanto muitos querem fazer parecer. Porém, o actual PSD é um PSD com ideais opostos aos do CDS - crítico em matéria de privatizações - e disposto a obter receita, dê lá por onde der, sem que tenha propriamente definido um plano capaz de dar uma resposta eficaz à pergunta «e quando tudo já tiver sido vendido?».

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