terça-feira, 23 de agosto de 2011

Os «amigos de Khadafi»: não aprendeu nada com Portugal.

Diz-se que é na hora do aperto que se vêem os amigos. Na diplomacia a resposta depende do que os «amigos» - alguns chegam a ser chamados «aliados» - têm para dar ao Estado em causa. Portugal, por exemplo, é caso raro no mundo inteiro na medida em que mantém amizades com quase todos os países, mesmo aqueles com interesses claramente divergentes: dos Estados Unidos ao Irão e à Venezuela, passando pela China e pelo Zimbabué - ao mesmo tempo que Lisboa desafia Londres e a mais antiga aliança diplomática do mundo.
Já durante a II Guerra Mundial, a habilidade de Salazar era tal que Portugal conseguiu garantir a neutralidade quase até ao fim da Guerra, assegurando os apoios político-militares de Estados Unidos e Inglaterra e, simultaneamente, cumprindo (e até melhorando) acordos comerciais com a Alemanha. Pelo meio, (i) fazia babysitting à Espanha do General Franco, (ii) mantinha a Itália convicta da sua lealdade aos países do Eixo, (iii) ajudava a Finlândia a resistir da forma possível à invasão nazi e (iv) ajudava à evasão de judeus com e sem autorização do Estado Novo - antes do afastamento de Aristides de Sousa Mendes do Consulado de Portugal em Bordéus, Salazar autorizou a passagem de mais de 100.000 refugiados por Território Nacional, tendo apenas alterado a sua posição quando o apoio aos refugiados se descontrolou ao ponto de comprometer a neutralidade portuguesa, logo, a segurança nacional, ao mesmo tempo que os britânicos se queixavam de Sousa Mendes estar a cobrar um «imposto especial» em troca da «caridade portuguesa».
Infelizmente, a Líbia de Khadafi nunca teve a mesma habilidade portuguesa para jogar em vários tabuleiros ao mesmo tempo. Os regimes populistas têm muitos defeitos e um dos maiores é a demonstração de força que se faz perante a Comunidade Internacional para garantir o respeito do povo: desafiar Barack Obama numa qualquer televisão estatal, com paradas militares pelo meio, pode ter mais força do que ameaçar a população contra a subversão do Estado. Basicamente, Khadafi conseguiu manter amigos apenas enquanto controlou o negócio do petróleo. Assim que surgiu no horizonte a possibilidade deste negócio ser controlado por personalidades dispostas a agradarem ao Ocidente, os «amigos de Khadafi» não hesitaram e passaram para o outro lado, mesmo que um destes dias os últimos sejam apunhalados pelos seus novos amigos. Não seria a primeira vez que tal acontecia, veja-se Bin Laden e o potencial de exacerbação que o nacionalismo e a religião têm.

Agora que o regime de Khadafi chegou ao fim, é fácil querer responsabilizar a parte derrotada. Em Março de 2011, Luís Amado enviara uma mensagem ao líder líbio, informando-o que o regime «acabou». Foi fácil mandar recados: Khadafi perdia em toda a linha e o fim parecia iminente. Assim que a ofensiva rebelde/NATO se prolongou mais do que o esperado e Khadafi começou a recuperar terreno, duvido que Amado não tenha balbuciado, uma vez que fosse, um «e se o gajo ganhar isto?». Optou-se, então, e bem, pelo silêncio, como devia ter acontecido desde o início. Este silêncio será oficialmente quebrado muito brevemente e só após análise ao encontro entre Paulo Portas e a delegação líbia ligada ao Conselho de Transição, que apenas surge no momento em que há a convicção de que o regime de Khadafi (finalmente) caiu.
Ainda assim, convém não nos esquecermos que, uma vez mais, uma série de entidades permitiu que o poder de Khadafi chegasse ao ponto a que chegou. Entre os principais culpados aponto desde logo (i) a União Europeia, com excepção da Itália, que, curiosamente, foi a primeira a virar as costas ao velho «aliado»; (ii) os Estados Unidos e um Presidente que ainda há dois anos tirava fotografias a apertar a mão a Khadafi e ontem insistiu, uma vez mais, para que o coronel abandonasse o poder; (iii) o Reino Unido, que, em Agosto de 2009, entregou Abdel Basset al-Megrahi, o autor dos atentados de Lockerbie, à Líbia, sob o pretexto de este padecer de um cancro em fase terminal, quando, na verdade, Londres transferiu o terrorista para celebrar um acordo petrolífero entre a BP e Tripoli - recorde-se que al-Megrahi foi identificado num evento na Líbia realizado em Julho de 2011.
Será Khadafi o único a ter de responder por crimes de guerra e contra a humanidade?

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