sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Michele Bachmann, o último grito republicano.

Uma das mais recentes personalidades a surgir com algum peso na corrida pelo bilhete presidencial pela ala republicana é a congressista e membro do conservador Tea Party, Michele Bachmann. No passado fim-de-semana venceu uma votação «a feijões» no Iowa, que não traduz a intenção real de voto do público, dado que neste teste à popularidade (i) participaram republicanos, democratas e independentes; (ii) o Governador do Texas, Rick Perry, ainda não tinha anunciado a sua candidatura; e (iii) Mitt Romney, um dos mais sérios candidatos ao lugar republicano, não participou na votação. Contudo, este teste serviu para projectar ainda mais a popularidade da candidata e provocou uma baixa: Tim Pawlenty abandonou a corrida à Casa Branca.
Concentrando-nos em Michele Bachmann, a sua candidatura pode parecer forte entre as mais fracas e fraca entre as mais fortes. As dúvidas quanto ao facto de saber se poderá a congressista representar o papel de uma candidata suficientemente credível ao ponto de convencer os republicanos e derrotar Barack Obama são motivadas por aquelas que são os seus «14 momentos» que poderão constituir um obstáculo à conquista deste objectivo, e que reflectem um pouco do seu perfil:
1- Na edição da Newsweek de 15 de Agosto de 2011, Michele Bachmann ocupa a capa com uma fotografia de olhos esbugalhados e ar alucinado, transmitindo uma imagem que mais facilmente afasta os eleitores do que propriamente lhes transmite confiança. Há quem diga que tal tenha sido propositado para refrear o alegado embalo que  a candidata estava a ter nos últimos tempos;
2- Numa entrevista dada durante uma acção de campanha, em finais de Junho de 2011, no Iowa, Michele Bachmann declarou ter «o mesmo espírito» de John Wayne, natural de Waterloo, no Iowa. Porém, acontece que o John Wayne de Waterloo não é o famoso actor de westerns mas, sim, John Wayne Gacy, um serial killer que violou e matou 33 adolescentes durante a década de 1970. Mais tarde desfez o mal entendido, alegando que os pais de John Wayne (actor) haviam residido em Waterloo, mas já não havia nada a fazer e a gaffe estava cometida;
4- Em Abril de 2005, e após ter apoiado uma moção contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo, Michele Bachmann esteve presente num evento realizado numa comunidade em Scandia, Minnesota. Subitamente, algumas pessoas viram Bachmann a chorar e a correr de forma desesperada, vinda da casa de banho, enquanto gritava «estive presa contra a minha vontade!». A congressista apresentou queixa nas autoridades contra duas mulheres «que se acredita fazerem parte de um grupo de activistas lésbicas» que a terão aprisionado. As mulheres em causa negaram tudo e justificaram que se encontravam a conversar com o senador da sua área enquanto esperavam na fila da casa de banho. O processo foi arquivado;
5- Durante uma acção de protesto em favor dos direitos dos homossexuais e contra a moção referida no ponto anterior, em St. Paul, Bachmann foi apanhada por um estudante quando controlava os acontecimentos agachada atrás de um arbusto, o que a candidata justificou com o facto de «estar de saltos altos e não aguentar mais ficar de pé»;
6- Em Abril de 2009, durante uma sessão no Congresso, Bachmann alertou para os perigos da legislação sobre crimes de ódio, alegando que proteger vítimas de crimes homofóbicos é «proteger pedófilos» e não, «idosos, grávidas ou avós de 85 anos de idade». Refira-se que já em 2004 a congressista declarara, durante um programa de rádio, que os casamentos entre pessoas do mesmo sexo são perigosos porque «as crianças são o objectivo desta comunidade [gay], eles definiram as nossas crianças como alvo»;
7- Em 2006, Michele Bachmann teve um contratempo durante um evento no Capitólio do Minnesota, no qual discursou, juntamente com o seu marido, contra a homossexualidade: a sua cunhada Helen LaFave decidiu comparecer no evento com a sua companheira desde há 20 anos, naquela que foi a primeira vez que apareceram juntas em público. Na altura, Bachmann afirmara ter realizado uma sondagem entre os membros da família sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo, 6 dos quais mostraram-se contra e 3 a favor. Contudo, o seu cunhado Michael LaFave garantiu que tal nunca aconteceu;
8- Ainda neste mesmo evento, Michele Bachmann levou ao palco «três ex-gays, dois homens de raça branca e uma mulher negra, como parte de uma apresentação em PowerPoint» sobre como a homossexualidade é uma escolha que qualquer um pode fazer;
9- Em Junho de 2011, durante uma conferência de bloguistas conservadores de Minneapolis, Michele Bachmann subiu ao palco tendo como música de entrada «Firework», de Katy Perry, também considerado um hino de incentivo aos jovens que sentem dificuldades em lidar com a sua homossexualidade;
10- Numa carta de Natal, datada de 2003, Bachmann dissertou sobre o potencial matrimonial dos seus filhos. De acordo com o documento, (i) a sua filha de 13 anos Elisa «nasceu para ser a esposa perfeita» e «os futuros companheiros terão de tentar a sua sorte, pois ela não se exibe»; (ii) a sua filha Caroline recebe elogios sobre atributos físicos como a cintura, acrescentando que «se o Rei Henrique VIII tivesse as suas seis esposas e a Caroline fosse uma delas, acho que ela seria alcunhada de "Caroline, a Vibrante"»; (iii) o filho Harrison é descrito como «absolutamente perfeito» e uma «preciosidade das fantasias femininas»; (iv) Lucas, o filho mais velho, é descrito em forma de anúncio como «chick magnet precisa de mulher que o meta na linha, cuide da casa, pague as contas e gira a sua vida. Deve estar disposta a correr o risco de ao seu esforço não corresponder o resultado pretendido»;
11- Em Julho de 2007, Michele Bachmann integrou uma comitiva de congressistas que visitou o Iraque, em Julho de 2007. Enquanto muitos dos seus pares regressaram a solo norte-americano com dúvidas sobre a legitimidade da guerra promovida por George W. Bush, a ora candidata à presidência dos Estados Unidos regressou abismada com a grandeza um dos antigos palácios de Saddam Hussein, descrevendo-o ao Minneapolis Star Tribune como sendo «absolutamente enorme. Eu virei-me para os meus colegas e disse que é parecido com o Mall of America. Há mármore em todo o lado. Outra coisa em que reparei foi que existe água por toda a parte. Ele tinha lagos artificiais à volta do seu palácio - um para pescar, outro para navegar»;
12- Ainda em 2007, Bachmann denunciou ao jornal Minnesota's St. Cloud Times que teve conhecimento de um acordo entre o Iraque e o Irão, segundo o qual «[os últimos] vão ficar com metade do Iraque e este território será uma zona de abrigo para terroristas, a partir de onde eles podem perpetrar mais ataques no Médio Oriente e atentar contra os Estados Unidos». Tudo isto devido ao facto de, segundo a congressista, o Irão pretender que os Estados Unidos abandonem o Iraque. Bachmann recusou especificar como teve conhecimento do plano, mas referiu que tudo isto faz parte dos «laços culturais entre eles, a longa história das guerras do Irão e do Iraque e segurança regional»;
13- Durante uma entrevista a uma estação de rádio de San Francisco, Bachman declarou que Keith Ellison, na Câmara dos Representantes pelo Minnesota, mantém ligações a conhecidos terroristas. Dando como referência um grupo de ímanes detido no Aeroporto Internacional de Minneapolis, em 2006, Bachmann explicou que estes «estavam presentes nas celebrações da eleição de Keith Ellison para o Congresso», continuando a dissertar sobre acusações de terrorismo que teriam sido apresentadas contra estes líderes religiosos, sem referir, contudo, que os factos das acusações nunca foram dadas como provados. Importa ainda referir que os ímanes estavam no Minnesota para participarem numa conferência religiosa e não nas celebrações de Keith Ellison, tendo um porta-voz de Bachmann admitido, posteriormente, que os detalhes nas suas declarações «podem não ter sido bem recortados»;
14- Em 2007, Michele Bachmann ficou celebrizada pela sua reacção pueril e descontrolada quando esteve pessoalmente com George W. Bush, juntamente com outros congressistas, apertando-lhe a mão, beijando-o e agarrando-lhe o braço e o ombro durante cerca de 30 segundos, enquanto sorria efusivamente, qual adolescente que acaba de conhecer o vocalista da sua banda favorita.

Embora demagoga, típica coscuvilheira, com comportamentos a roçar a psicopatia e com um vasto currículo de gaffes que poderão criar obstáculos à sua eleição sequer como candidata pelo partido republicano - sobretudo se se considerar que, neste momento, os norte-americanos poderão dar prioridade às questões económicas e não tanto aos valores sociais e familiares -, o potencial de Michele Bachmann não deve ser menosprezado: estamos perante uma mulher que conta com o forte apoio do influente Tea Party e que mantém excelentes ligações ao mundo empresarial e religioso, motivos estes mais que suficientes para não se descartar a capacidade da congressista na corrida ao bilhete presidencial.

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