segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Mensagem de Passos Coelho: os portugueses mereciam mais frontalidade.

O Primeiro-Ministro Pedro Passos Coelho publicou ontem uma mensagem, via Facebook, intitulada «Uma pequena reflexão de Verão». O título do texto, que parece remeter para uma mensagem light, digna do mês em que nos encontramos, acaba por se revelar mais um presente envenenado. Eis que o Primeiro-Ministro decide iniciar as suas férias em família desejando a «continuação de um bom Verão» após pedir aos portugueses que se preparem pois dificilmente terão pela frente «sacrifícios suaves» e constatando, orgulhosamente e com algum descaramento, «uma reacção nobre, realista e empenhada da generalidade da nossa sociedade» - o que, traduzido, dá qualquer coisa como «obrigado por não serem uns animais como os gregos e comerem tudo o que vos é posto no prato, por mais vazio que este esteja».
Não compreendo como é que o Primeiro-Ministro Passos Coelho recorre ao Facebook para falar aos portugueses, embora compreenda que o candidato ou o líder social-democrata Pedro Passos Coelho o faça. Afinal, ele saberá qual o público alvo da sua propaganda e se optar pela internet, essa escolha corre por sua conta e risco. Porém, não tenho dúvidas que o Primeiro-Ministro devia escolher outros meios que lhe permitam chegar aos mais de 10 milhões de portugueses e não aos seus cerca de 60.000 seguidores de Facebook. Gostaria de recordar que 2.159.742 eleitores votaram no PSD nas últimas legislativas. A publicação de uma mensagem agridoce - que deseja bom Verão em tom de ironia como se dissesse «gozem bem as férias porque quando voltarem vai ser a doer» - num meio de acesso tão restrito parece mais ser motivada pelo medo, sendo esta hipótese reforçada pelo facto de publicar o texto instantes antes de seguir para férias. A título de (bom) exemplo, veja-se o caso de Paulo Portas que utiliza o Facebook para publicar imagens e pensamentos isolados, de carácter pessoal ou partidário, conteúdos estes que ficam disponíveis apenas aos seus mais de 36.000 seguidores. No limite, publica conteúdos relacionados com as suas funções enquanto Ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros, mas todas estas matérias surgem no Facebook apenas depois de terem sido tornadas públicas à generalidade dos portugueses pelas televisões e pelos jornais. Isto é política de verdade, praticada com frontalidade.
Apesar do meio infeliz escolhido por Passos Coelho, o que anunciou corresponde à verdade. Nada que não tivesse sido garantido antes das eleições. De facto, a partir de Setembro e até ao fim do ano vamos ter (i) a entrada em vigor da nova tabela de IVA, (ii) a introdução de portagens nas SCUT, (iii) nova onda de privatizações - agora com a EDP e, possivelmente, a TAP, a ANA e os CTT, entre outros -, (iv) o aumento das taxas moderadoras e, o mais importante, (v) a apresentação do Orçamento do Estado para 2012 - com mais sacrifícios para os portugueses em sede de limites nas deduções à colecta e diminuição do número de escalões do IRS, bem como a redução das isenções e agravamento do IMI. Estes são, no meu entender, motivos suficientes para que o Primeiro-Ministro seguisse o exemplo do seu antecessor e recorresse aos meios de comunicação de abrangência universal para desejar, frontalmente e sem rodeios, «continuação de bom Verão». Eu não acredito que este seja o caminho, mas este foi o caminho escolhido por 38,65% dos votantes...

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