sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Dilma Rousseff e a gestão do Executivo por si liderado: And Then There Were None.

222 dias de governação e três ministros afastados: António Palocci (Presidência), Alfredo Nascimento (Transportes) e Nelson Jobim (Defesa). Pelo meio, a demissão de, pelo menos, 20 funcionários da administração e de Milton Ortolan (n.º 2 do Ministério da Agricultura), a despromoção do Ministro Luiz Sérgio (da pasta das Relações Institucionais para as Pescas e Aquicultura) e, agora, a detenção de Frederico da Silva Costa, Secretário do Turismo. Se dúvidas houvesse acerca da sua independência relativamente a Lula da Silva, Dilma Rousseff levou a cabo uma autêntica razia, afastando os homens fortes do seu antecessor. Antes, já dera provas da sua emancipação ao (i) evidenciar maior abertura do Brasil à parceria com os Estados Unidos e (ii) tender a afastar-se da questão nuclear iraniana, na qual Lula da Silva havia conseguido progressos assinaláveis.
A estratégia da Presidente brasileira não tem sido pacífica, sobretudo pelos cortes com o passado, motivando algumas intervenções duras do ex-Chefe de Estado, ilustrativas da tensão entre ambos: apesar dos actuais índices de popularidade de Dilma Rousseff se manterem elevados, Lula da Silva já manifestou desconforto com as demissões de homens que lhe são próximos (i) contra-atacando-a com a «ameaça» de perda de apoio dos aliados, (ii) «pressionando-a» a apoiar Fernando Haddad (Ministro da Educação) para a Prefeitura de São Paulo - não só para não abrir uma nova frente de batalha entre os apoiantes de Lula da Silva, mas também como consequência pelo alegado envolvimento de Gilberto Kassab no caso Palocci - e (iii) anunciando um périplo pelo país sob o desígnio de promoção das causas sociais que poderá significar o regresso do ex-Chefe de Estado a uma corrida presidencial em detrimento de Dilma Rousseff.
Empenhada em deixar marca durante o seu mandato (2011-2014), a Presidente Dilma Rousseff poderá representar a célebre obra de Agatha Christie, «And Then There Were None», correndo o risco de terminar (?) o mandato isolada, sem uma base de apoio suficientemente sólida ao ponto de fazer esquecer Lula da Silva e recandidatar-se a Chefe de Estado, em 2014. A Presidente encontra-se assim num impasse: por um lado, as suas possibilidades poderão ser reduzidas caso Lula da Silva entenda que Rousseff constitui uma solução a curto prazo para viabilizar o seu acesso à repetição de mais oito anos no Planalto. Nesta hipótese, interessará a Rousseff manter o máximo de apoios possível se tiver aspirações à reeleição ou a algum outro cargo de prestígio com o beneplácito de Lula da Silva. Por outro lado, Dilma Rousseff tem ainda mais três anos de mandato pela frente - dois até à apresentação das candidaturas -, pelo que o afastamento de elementos envolvidos em escândalos de corrupção (ou outros moralmente censurados) poderá ter como significado o aumento da sua popularidade e a consolidação de uma imagem imaculada perante o eleitorado, algo que poderá gerar mais convulsão no seio do Governo que lidera, se este se mantiver nos moldes actuais.
Perante tal quadro de possibilidades, fica uma sugestão à Presidente Dilma Rousseff: se for para limpar os órgãos de poder político de todo o tipo de dependência de terceiros e influências negativas, faça a razia ontem: amanhã pode muito bem ser tarde demais para garantir a estabilidade governativa necessária para realizar um mandato em favor do povo que mais tarde lhe poderá garantir a reeleição. Tenho dito: a melhor maneira de se fazer política a pensar na reeleição é fazê-la em benefício do povo.

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