segunda-feira, 15 de agosto de 2011

A coligação PSD/CDS-PP, ou um casamento à Woody Allen.

A relação de Woody Allen e Mia Farrow durou 12 anos (1980-92) e terminou quando Mia Farrow descobriu o envolvimento entre o seu companheiro e a sua filha adoptiva, Soon-Yi. Até lá, viviam em casas separadas. Cada um na sua. O casamento estava condenado a acabar. Só não se sabia quando.
A coligação entre o PSD e o CDS-PP é uma espécie de casamento à Woody Allen: vivem em pastas separadas, cada um com as suas, sem ingerência no trabalho alheio. O acordo foi mal feito - é manifestamente desequilibrado - e o CDS-PP sabe disso: ganhou dois ministérios e meio, que é como quem diz Negócios Estrangeiros; Agricultura, Ambiente, Mar e Ordenamento do Território; Solidariedade e Segurança Social - que passou a ser meia pasta a partir do momento em que perdeu o Trabalho para o independente viciado em pronunciar o prefixo super.
O CDS-PP queria ficar com a Administração Interna, e tudo o que conseguiu foi um Secretário de Estado só após estalar o «caso Bernardo Bairrão». Portas queria separar Agricultura e Ambiente, e também não conseguiu. Aliás, conseguiu, embora a importantíssima pasta do Ambiente e Ordenamento do Território tivesse ficado para Pedro Afonso de Paulo, o social-democrata que foi braço direito de Isaltino Morais. Entregar uma pasta de tamanho valor a uma personalidade do PSD, sabendo-se que (i) o PSD pretende aumentar as competências das autarquias locais nestas áreas, que (ii) o PSD é o partido que mais municípios gere - muitos deles de localização geográfica estratégica - e que (iii) é no poder local que se cometem mais atentados ambientais e de ordenamento do território, com base em motivações financeiras e políticas, é como entregar a capoeira ao lobo. A própria quantidade das nomeações desta Secretaria de Estado comprova que estamos aqui perante um ministério ad hoc: compare-se o número de nomeados da Secretaria de Estado do Ambiente e do Ordenamento do Território (SEAOT) do Território com o das restantes secretarias de Estado e do Gabinete da Ministra - a SEAOT nomeou 17 pessoas, mais de metade dos nomeados por Assunção Cristas e pelos restantes Secretários de Estado juntos (33). Chegar ao Governo, sim, mas não a qualquer preço!
Sempre defendi que o acordo entre CDS-PP e PSD devia ser informal e limitar-se a questões pontuais em discussão na Assembleia da República: o actual PSD é, de longe, aquele que menos tem a ver com o CDS-PP, desde que os dois partidos existem. Nunca ambos estiveram tão afastados e os manifestos eleitorais de cada um não me deixam mentir. Não estão de acordo em praticamente nada e a única solução possível para vingar o acordo político passava por deixar cada um entregue às suas pastas para prosseguir o seu programa.
Apesar destas condicionantes, o CDS definiu a sua missão: propôs-se fazer o melhor trabalho possível em cada um dos seus ministérios, procurando corresponder da melhor forma ao voto de confiança dado pelos 11,7% de eleitores e tentando cativar outros que, num futuro próximo, poderão ser extremamente importantes para o crescimento do partido. A melhor forma de fazer política a pensar num bom resultado é fazer política a pensar nos destinatários. As reservas mentais e as simulações não funcionam e a oscilação entre PS e PSD são ilustrativas disso mesmo.
O casamento celebrado entre ambos, a 16 de Junho de 2011, foi bonito, com sorrisos e apertos de mão, com direito a fotografias e felicitações, mas sem abraços ou juras de amor eterno. O clima já andava tenso antes mesmo de ter sido celebrado, dado que Portas estava apostado em aproveitar o embalo de 2009 e continuar a pescar no aquário do PSD, tirando-lhe mais eleitores. Antes da campanha, Portas propôs uma coligação pré-eleitoral. Passos Coelho recusou. Sabia que ia vencer as eleições. Durante a campanha, Portas não vacilou e atacou o PSD. Este chutava para canto e limitava-se a gerir a vantagem que levava, sabendo até aproveitar-se das especulativas sondagens em seu benefício.
José Sócrates «traiu» Paulo Portas. A (i) procura desesperada por mudança e (ii) a acefalia do eleitorado português - que só vê dois partidos à frente - constituíram os principais factores que levaram os portugueses a assinar de cruz (literalmente) e a aderir, massivamente, à campanha do voto (in)útil, sem ler as condições do contrato que o PSD propunha. O resultado foi uma vitória agridoce para o CDS-PP, com uns 11,7% bastante aquém do desejado (e merecido), pese embora este número tivesse como consequência o aumento ainda significativo - para 24 - de um grupo parlamentar que ainda há 6 anos era de apenas 12. Há meia dúzia de anos ocupavam 3 táxis. Agora já preenchem bem um autocarro.
Ainda nem dois meses se passaram desde a tomada de posse e a «Mia» (CDS-PP) - ou, como quem diz, o elemento que está de boa fé na relação - já foi confrontada com, pelo menos, 4 «Soon-Yis», que se dão pelos nomes de Marco António Costa, Pedro Afonso de Paulo, Jorge Braga de Macedo e Pedro Santana Lopes. O primeiro é o vigilante que veio do Norte para controlar Pedro Mota Soares. O segundo, pelo já acima referido e ainda pelos critérios adoptados para a nomeação do seu Gabinete, apoiando-se no facto de ter Assunção Cristas como superior hierárquica. A ministra dá a cara pela SEAOT e já responde pelas nomeações. O terceiro acaba por representar a violação grosseira da regra de não ingerência na pasta alheia: agora não temos um MNE, temos dois, um de jure, de abrangência geral, e outro de facto, direccionado, sobretudo, à economia, retirando competências a Paulo Portas e devolvendo-as ao PSD. O quarto e último acabou por chegar a Provedor da Santa Casa da Misericórdia através de uma espécie de nomeação per saltum, com dispensa do consentimento do ministro da tutela, Pedro Mota Soares.
Recordo que ainda não se passaram dois meses sequer desde que o Governo tomou posse. Ou muito me engano ou este casamento não durará os 4 anos mínimos a que se propôs. «Woody» (PSD) está claramente a portar-se mal e trai «Mia» com as «Soon-Yis» que vão surgindo pelo caminho, até conseguir excluir a parceira de vez. O único travão ao divórcio poderá ser uma eventual disposição da «Mia» para fazer o melhor possível pelos seus três filhos adoptivos - Negócios Estrangeiros; Agricultura, Ambiente, Mar e Ordenamento do Território; Solidariedade e Segurança Social -, consentindo, na medida do possível, as relações que «Woody» tem com as suas «Soon-Yis» de ocasião e ainda com as que tenta ter com os filhos adoptivos de «Mia». Porém, a paciência tem limites e de forma alguma o CDS-PP aceitará confundir-se com o PSD, prejudicando a sua imagem junto do eleitorado quando os sociais-democratas tiverem de prestar contas pela «obra» feita. Aqui e ali, com alguns desafios pelo meio, o CDS-PP bem se esforça por fazer durar o casamento. Porém, o casamento vai acabar. Só não se sabe ainda quando.
O CDS-PP está empenhado em fazer o melhor possível nas pastas que tem sob a sua alçada. Paulo Portas pode ter vários defeitos, mas é sério, empenhado, muito competente e de um patriotismo imensurável. Assunção Cristas é profissional, comprometida com os desafios que abraça e polivalente. Pedro Mota Soares é discreto, mas assertivo, inteligente e extremamente dedicado ao trabalho. No Parlamento, Nuno Magalhães coordena, contando com o apoio de outros patriotas como José Ribeiro e Castro. Porém, apesar da aposta do CDS-PP na renovação, deve evitar, a todo o custo, declarações precipitadas ou apostas com base naquilo que faz de PS e PSD partidos a evitar: o amiguismo e o compadrio.
Podemos ser críticos e não concordar com um plano. Mas se este é o plano, então vamos tentar fazer dele o melhor plano possível. O eleitorado deve estar atento a quem trabalha realmente em benefício do país e acabar com a bipolaridade reinante no sistema português. A bem do país e a bem dos próprios eleitores que fazem de PS e PSD os seus clientes habituais.

3 comentários:

Ivo Barroso disse...

Teoricamente, tem razão. Todavia, "O que está certo em teoria, pode não sê-lo na prática" (Kant). O ponto é que poder gera poder; e, embora nenhum goste do outro, sabem que, para continuar no poder, têm de manter uma relação de aliança... Por isso, acho que o casamento durará, até que se perceba que não há possibilidades de ganhar as eleições (tal como sucedeu com a recusa de Portas em coligar-se com Santana Lopes, em 2004)

Ivo Barroso disse...

O poder é uma grande cola. Só por desconfianças pessoais muito graves (como aconteceu com a AD, entre o chefe do PSD, e PM, Pinto Balsemão, e D. Freitas do Amaral)é que poderia modificar estes dados. Como isso não acontece, não há interesse de nenhuma das partes em romper a coligação (aliás, na história do nosso sistema de governo, isso é extremamente raro). Que há hipocrisia, há; que há rompimento, não é verosímil nem provável, a médio e longo prazo. Por isso, mais do que um casamento, esta união mais parece ser uma união de facto...

Persona Naturale disse...

Oi amigo. Em primeiro lugar quero dizer que fiquei muito feliz por te ver, e em segundo, por saber da existência deste blog. Serei visita assídua e como já sabes, irei já colocar o blog nos meus links ;)

Falando no blog, está (como não poderia deixar de ser) com muita qualidade. Não é para estranhar, uma vez que tudo o que fazes prima pela qualidade.

Beijinhos