quarta-feira, 13 de julho de 2011

Alemanha: o que mudou entre Julho de 1940 e a actualidade?

Relata-nos Filipe Ribeiro de Meneses que «em Julho de 1940, numa feira comercial em Königsberg, o ministro da Economia alemão, Walther Funk, falou sobre a necessidade de consolidação política da Europa, o único meio de gerar uma "intensificação de toda a vida económica no espaço vital europeu"». Mais o autor acrescenta que «alguns dias depois (...) Funk afirmou: "A política económica alemã tem por objectivo acabar com a atomização económica da Europa, considerando uma loucura a autarcia excessiva na qual todo o país pequeno deseja fabricar tudo, desde o botão até à locomotiva pesada"» e ainda «Rheinbaben afirmou (...) "A Alemanha sabe que a força e o carácter da Europa consistem na sua pluralidade. Não se tratará de a eliminar, mas apenas de a orientar numa modalidade de defesa económica e social comum: fazer a Europa europeia1.
Falava-se num conceito de Nova Ordem e Salazar demonstrara preocupação perante a situação que se vivia na Europa, tendo escrito «não falando em que, além da organização ou ordenação económica da Europa, há muitas outras coisas de tanto ou maior valor - a independência, a personalidade nacional, a cultura, a liberdade, a religião - e restringindo-nos apenas ao plano económico, eu tenho muito receio de que esta nova Europa não seja mais do que a exploração organizada dos países agrícolas pelos países super-industrializados, na hipótese, principalmente a Alemanha», acrescentando que «a perda de independência política, o desconhecimento da cultura de cada país, a fusão das nações europeias numa criação política de que Berlim seria o centro, faria perder à Europa o seu carácter e a sua influência extra-europeia e porventura o seu potencial de civilização»2.
Todos conhecem os acontecimentos que antecedem o período entre Julho de 1940 e Março de 1942 - altura em que Salazar escreveu a última frase citada -, o mesmo sucedendo relativamente ao resto da história. Contudo, não deixa de ser dramático constatar que as ambições da Alemanha nacional-socialista - e capaz de liderar a Nova Ordem e disciplinar a restante Europa -, que dariam origem à II Guerra Mundial, são exactamente as mesmas da actual Alemanha: assumir o controlo do continente e uniformizá-lo com o argumento de torná-lo mais forte.
Importa recordar que, antes da II Guerra Mundial, a I Grande Guerra já havia acontecido graças à materialização dos ímpetos imperialistas da Alemanha de Guilherme II, cuja derrota e consequentes sanções viriam a impulsionar a ascensão de Hitler ao poder. O mesmo sucede em pleno século XXI de forma deliberada, ainda que a evolução da Europa nas formas de integração económica e política tivesse sido aproveitada, discretamente, pela Alemanha, estando a entrada no Euro na origem da «era da falta de vergonha na cara» que coloca, actualmente, meia dúzia de Europa à beira do colapso, ficando a restante em estado de alerta.
A grande diferença entre as primeira e segunda tentativas (frustradas) de domínio da Europa e a terceira (em curso) reside no facto de aquelas terem sido desencadeadas com recurso aos meios militares e a última incidir com base na economia e do Direito Comunitário. O meio de ataque às soberanias, no séc. XXI, terá como base as duas últimas áreas referidas, mantendo, como sempre, ao longo da história, a pedagogia como fundamento primordial: não se atacam soberanias para reforço do poder, mas para se ensinarem terceiros sobre como devem viver! Os problemas destas ideologias imperialistas e as nossas preocupações, enquanto portugueses, escusado será dizer que são exactamente as descritas por Salazar há 70 anos!
Se ainda necessitássemos de mais provas relativamente ao renascimento da ideologia alemã referente a controlo da Europa, da década de 1940, em pleno século XXI, os recentes acontecimentos limitam-se a confirmar exactamente o raciocínio desenvolvido até aqui: numa altura em que se discutem formas de combater os ataques dos credores das dívidas soberanas e das agências de notação financeira e num momento em que a terceira maior economia europeia ameaça falir, Angela Merkel não só se reserva ao silêncio como ainda negligencia todos estes acontecimentos, apostando, isso sim, numa viagem a Luanda, entre 12 e 13 de Julho, para negociar acordos bilaterais com o Chefe de Estado angolano. Interessa à Alemanha este ataque temporário ao Euro e os ataques às dívidas soberanas: afinal, enquanto uns deitam as mãos à cabeça, Berlim continua (i) a ignorar as relações privilegiadas e os laços históricos que alguns países mantêm com as suas antigas colónias e ainda (ii) aposta do controlo de sectores estratégicos dos seus parceiros europeus. Brevemente reemergirá a eterna questão do lugar de cargo permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas, uma ambição rejeitada até então à Alemanha por questões políticas - a sua história dos últimos 100 anos continua a constituir um obstáculo a tal pretensão -, mas nada que não se ultrapasse com alguma negociação.
Independentemente do quadro em que nos encontramos, não tenhamos dúvidas do seguinte: é imperativo, para o futuro da Europa, que se coloque um travão à Alemanha, da mesma forma que foi parada em 1919 e 1945.



1- Cfr. Filipe Ribeiro de Meneses, Salazar - Uma Biografia Política, Alfragide, D. Quixote, pp. 259 e 260.
2- Cfr. fonte anterior, pp. 261 e 262.

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