terça-feira, 5 de julho de 2011

Agências de notação financeira versus agências de subserviência financeira

Parece que a Moody's despromoveu a dívida portuguesa atribuindo-lhe o estatuto de «lixo». Não só não me espanto com o sucedido - vampiro que é vampiro recusa-se a largar o pescoço de onde retira o sangue mais doce -, como ainda imagino a reacção de todos aqueles que fazem política para «os mercados» e não para os seus povos. As declarações de pesar, lamento e até pânico de alguns políticos portugueses imediatamente após o anúncio são ilustrativas do quão reféns são destas mesmas entidades.
Contudo, sabendo-se como estas agências funcionam, chegar a «lixo» nem é tão mau quanto isso. Se se recordarem, (i) ainda há três anos a Irlanda era um exemplo de equilíbrio financeiro e (ii) as contas da Grécia foram sujeitas a uma espécie de lifting temporário, em 2002, graças à alegada intervenção de um tal de Goldman Sachs, um banco de investimentos liderado entre 2002 e 2005 por um tal de Mario Draghi que, a 24 de Junho de 2011, foi nomeado Presidente do Banco Central Europeu para os próximos 8 anos. Pelo meio, as agências de notação atribuíam notas acima de AA às dívidas de países que agora são vítimas de taxas de juro usurárias, a crise financeira passou-lhes completamente ao lado, mas, pasmem-se, continuam a ser estas entidades que ditam o grau de subserviência de Estados como Portugal face às ambições, sem limites ou escrúpulos, dos credores.
Ora, na verdade, temos aqui um conjunto de nomes trocados, senão vejamos: até há três anos, aqueles que eram lixo eram vistos como bens de luxo; aqueles que hoje são PIGS recebem um nome em jeito de trocadilho que caracteriza, efectivamente, o comportamento das agências de notação (estes, sem recurso às maiúsculas).
Calcula-se que existam, pelo menos, 100 agências de notação financeira, mas tanto a comunicação social como as classes políticas ocidentais insistem em reconhecer as três do costume - Standard & Poor's, Moody's e Fitch. O papel destas três, quando comparado com o de muitas outras, é em tudo diferente, senão vejamos: enquanto as verdadeiras agências de notação financeira de facto procuram analisar factores macroeconómicos que influenciem o nível de solvência de um Estado, agências de subserviência financeira, como as três referidas, (i) actuam ao serviço de Estados cujas instituições financeiras as apoiam, (ii) funcionam em cartel - como muitos sectores da economia portuguesa -, procurando ganhar credibilidade através da divulgação de notas semelhantes às dívidas dos mesmos alvos, a ritmos que oscilam praticamente na mesma razão. O objectivo é só um: aproveitarem-se do facto de serem das raras agências reconhecidas pelos credores dos alvos escolhidos para descredibilizar as suas economias, deixando os respectivos governos sem outra solução que não (i) adoptar políticas que interessam aos agentes económicos dos países que coordenam, ainda que indirectamente, estas campanhas - abdicando os visados da respectiva soberania ao permitirem, p.e., a tomada de controlo de sectores estratégicos por terceiros -, ou (ii) atacar a economia/moeda de uma Estado/organização cujos interesses concorram com os dos clientes das agências, ou (iii) pagarem juros usurários se pretenderem financiar-se, com base num sistema tão virtual quanto frágil, de molde a garantirem a sua sobrevivência enquanto Estado.
Esta será uma história interminável que só conhecerá o seu fim quando os Estados visados abandonarem aqueles que lhes dão um aperto de mão e os chamam de amigos ao mesmo tempo que lhes espetam uma faca nas costas; e esses mesmos Estados saírem o quadrado no qual são escravos e começarem a olhar para outras soluções e outros «mercados», sobretudo aqueles que ainda os consideram, até uma certa medida, irmãos e aliados.

Sem comentários: